Eu conheci Steve Jobs quando trabalhava no Gizmodo. Ele sempre foi muito educado. Steve gostava de mim e gostava do Gizmodo. E eu também gostava dele. Alguns amigos que ainda trabalham no Gizmodo se referem a esta época como “os bons e velhos tempos”. Porque essa foi a época anterior ao lixo que aconteceu. Isso foi antes do protótipo do iPhone 4.

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A primeira vez que eu falei com Steve foi na clássica conferência do All Things D quando Walt Mossberg entrevistou Bill Gates e Steve Jobs. Ryan Block era o editor do Engadget e a concorrência era bem forte. Ryan era um veterano, e eu ainda estava tentando dar os passos certos. Era hora do almoço, e Ryan viu Jobs — ele correu para dizer “oi”. Um minuto depois, eu tomei coragem para fazer o mesmo.

De um post do Gizmodo em 2007:

Conhecendo Steve Jobs

Eu trombei com Steve Jobs nos corredores agora há pouco, a caminho do almoço durante o All Things D.

Ele é mais alto do que eu imaginava, e bem bronzeado. No estilo Havaí. Eu me apresentei e percebi que provavelmente ele estava ocupado e não queria ser incomodado. Eu peguei um pouco de salada, pensando que eu tinha que ser um pouco agressivo no assunto, coloquei meu prato na mesa, me apertei na multidão e me apresentei. Sem exageros, só disse “oi, eu sou Brian, do Gizmodo. E você é o criador do iPod, né?” (eu não falei essa segunda parte.)

E Steve ficou muito empolgado e feliz.

Ele disse que realmente lia o site. Na verdade, ele lia três ou quatro vezes por dia, já que as coisas mudavam rapidamente. Eu falei que ficava lisonjeado com os cliques, e que continuaria comprando iPods se ele continuasse dando cliques ao site. Era seu blog de gadgets favorito. Foi um momento muito, mas muito bom. Sua face mudou completamente com empolgação real. Eu devo ter ficado com a cara daquelas garotas que ficavam na primeira fileira de um show do Beatles, apesar do esforço de tentar ser “profissional”.

Porque, honestamente, eu realmente achei que ele ficaria pê da vida com as obras de Photoshop incríveis que Jesus Diaz fazia dele. Mas o cara tinha senso de humor.

Foi uma honra ter um cara extremamente focado na qualidade de seu trabalho aprovando nosso trabalho. Principalmente com todos os erros de digitação que eu cometia no cotidiano do site.

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Anos depois, lembro de enviá-lo um e-mail mostrando versões iniciais do redesign da Gawker. Ele não gostou nem um pouco. Mas ele gostava de nós. “Na maioria das vezes”.

“De: Steve Jobs

Assunto: Re: Gizmodo no iPad

Data:31 de março de 2010, 6:00:56

Para: brian lam

Brian,

Em partes eu gostei, em outras eu não entendi. Eu não tenho certeza se a “densidade de informação” é o bastante para você e sua marca. Parece muito maçante para mim. Eu vou dar mais uma olhada durante o fim de semana e te dar uma posição mais útil após isso.

Eu gosto do que vocês fazem na maioria das vezes, e eu sou um leitor diário.

Steve

Enviado de meu iPad

Em 31 de março de 2010, às 1h06, brian lam escreveu:

“Taí, um esboço inicial. Deve ser lançado em breve como a nova cara do Gizmodo. O objetivo é que ele seja mais amigável para 87% dos nossos leitores que não entram todo dia…”

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Nessa mesma época, Jobs estava vendendo o formato do iPad para os publishers, tentando convencê-los a adotar o iPad como plataforma, e Jobs usaria diversas vezes, de acordo com amigos que estavam nas reuniões com diversas publicações, o Gizmodo como exemplo de uma experiência online semelhante a de uma revista.

Eu nunca me senti muito confortável com a ideia de que Jobs ou qualquer outro funcionário da Apple, como Jon Ive, lesse nossos textos. Era tudo corrido, abusado, inspirado, feito para a massa, e no geral, algo experimental por natureza. Para ser sincero, era constrangedor pensar que pessoas obcecadas com perfeição estavam lendo algo criado para ser imperfeito, mas criado para estar vivo e pulsando. Era algo também firmemente negado, como a Apple está acostumada a fazer.

Mas a Apple não parava de crescer e se tornava a principal empresa de tecnologia. Eu sabia que era questão de tempo até nós nos colidirmos. Com o tempo eu descobriria que crescer demais é algo difícil.

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Eu estava de férias quando Jason Chen colocou suas mãos no protótipo do iPhone.

Uma hora após a história entrar no ar, o telefone tocou com um número vindo da Apple. Eu imaginei que era alguém da assessoria de imprensa. Não era.

“Oi, é o Steve. Eu quero meu telefone de volta.”

Ele não estava mandando. Ele estava pedindo. E ele era calmo e engraçado. Eu estava em casa de bermuda, após surfar um pouco, mas eu fiz um grande esforço para ficar firme e entender o que estava acontecendo.

“Eu entendo que vocês se divertiram com meu aparelho e eu não estou bravo com vocês, eu estou bravo com o cara de vendas que o perdeu. Mas nós precisamos desse celular de volta porque ele pode cair em mãos erradas.”

Eu pensei “mas será que ele já não está em mãos erradas?”

Ele continuou. “Há duas formas de nós resolvermos isso. Eu posso mandar alguém buscar o aparelho–”

Eu disse “Eu não estou com ele”.

“–mas você sabe com quem está… ou nós podemos mandar alguém com as questões legais, e nós não queremos fazer isso.”

Ele estava nos oferecendo uma saída fácil.

Eu disse a ele que precisava falar com a minha equipe. Antes de desligar, ele perguntou: “o que você achou do aparelho?”

E eu respondi: “ele é incrível.”

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Na próxima conversa, eu avisei para ele que devolveríamos o telefone. Ele disse “ótimo, posso mandar alguém?” e eu respondi que antes de falarmos disso, nós precisávamos falar das condições: nós precisávamos que a Apple dissesse que o aparelho era deles, que era o que nós entendíamos como o processo certo para dizer que algo havia sido perdido. Ele disse que não queria dizer isso publicamente porque isso afetaria as vendas do modelo atual. Ele disse, “você está me pedindo para dar um tiro no pé!”. Talvez o assunto tivesse a ver com dinheiro, talvez não. Eu senti que ele simplesmente não queria fazer algo que nós mandássemos ele fazer, e ao mesmo tempo eu também não queria fazer algo que ele mandasse. Principalmente vindo de alguém que eu supostamente deveria estar cobrindo em meu trabalho. Além disso, eu estava em posição para dizer o que Steve Jobs deveria fazer, e eu ia fazer isso.

Dessa vez ele não estava feliz. Ele disse que precisava falar com algumas pessoas, e nós desligamos.

Quando ele ligou de volta, a primeira coisa que ele disse foi: “Oi, Brian, aqui quem fala é SUA PESSOA FAVORITA DO MUNDO.”

Eu ri, e ele também. Depois, ele mudou de tom de voz rapidamente e disse “e então, como vai ser?”

Eu fui direto ao ponto: “se vocês não querem publicar algo dizendo que querem o aparelho de volta, acho que teremos que ir para a parte legal. Tanto faz, porque de um jeito ou de outro nós teremos a confirmação de que o aparelho é de vocês.”

Ele não gostou disso. Steve disse “isso é algo bem sério. Se entramos na área legal, e mergulharmos nesse problema, eu vou até o fim, e isso significa que alguém da sua empresa irá para a cadeia.”

Eu disse a ele que não sabíamos nada sobre o fato de o aparelho ter sido roubado, e que nós pretendíamos devolvê-lo, mas que nós precisávamos do pedido da Apple. E eu ainda disse que iria para a cadeia por essa história. E foi quando ele percebeu que eu não iria ceder.

As coisas ficaram bem piores, e mais arriscadas, e eu não quero entrar nesse assunto hoje porque o que eu quero dizer é que ele era um homem justo e honesto e que provavelmente não estava acostumado a fazer as coisas de seu jeito, e era exatamente isso que acontecia naquele dia. Todo mundo tem um calo que deixa qualquer um revoltado.

Steve me ligou novamente, agora com um tom frio em sua voz, dizendo que eles enviariam uma nota afirmando que queriam o aparelho de volta. A última coisa que eu disse foi: “Steve, eu só quero dizer que eu gosto de seu trabalho, e que às vezes isso é empolgante, mas às vezes nós temos que fazer algo que é difícil e que alguns irão chamar de algo parasita, como nas notícias sobre saúde e coisas do tipo.”

Eu disse a ele que amava a Apple, mas que eu tinha que fazer o que era certo para o público e para os leitores. Eu tentava esconder o fato de que eu estava triste.

Ele respondeu: “você só está fazendo seu trabalho”. E ele disse da forma mais bondosa possível. O que me fez me sentir melhor e pior ao mesmo tempo.

Essa foi a última vez que Steve Jobs foi bondoso comigo.

***

Daí em diante eu passei a justificar como as coisas ficaram complicadas nas semanas seguintes. Certo dia, eu e um veterano repórter e amigo meu estávamos falando sobre o caso. Em certo momento ele perguntou se eu havia entendido que, independente de estar certo ou errado, nós causamos muitos problemas à Apple. Eu parei para pensar um pouco sobre Steve, e todos os designers que trabalharam muito no aparelho. E disse “sim”. Eu comecei a me justificar falando sobre como isso era certo para os leitores, mas parei. E continuei pensando sobre como a Apple e Steve se sentiram. E foi quando eu percebi que eu não estava orgulhoso disso.

Eu não me arrependo das coisas de forma profissional. O furo foi gigantesco. As pessoas amaram. Se eu pudesse fazer de novo, eu faria a história do aparelho de novo.

Mas provavelmente eu devolveria o aparelho sem pedir pelo posicionamento oficial. E eu faria o artigo sobre o engenheiro que perdeu o aparelho com mais compaixão e sem dar seu nome. Steve disse que nós nos divertimos, que demos o furo mas que estávamos sendo gananciosos. E ele estava certo. Foi uma vitória dolorida. E nós também estávamos sendo míopes. E, às vezes, eu desejo nunca ter encontrado esse celular. Essa era a única forma de isso não ser doloroso. Mas faz parte da vida. Às vezes, não há saída fácil.

Eu penso sobre esse dilema todos os dias por mais de um ano e meio. O caso me causou grande tristeza, e eu praticamente parei de escrever depois de tudo que aconteceu. Meu espírito ficou mais fraco. Há três semanas, eu percebi que aquilo era o bastante. Eu escrevi minha carta de perdão para Steve.

“De: briam lam

Assunto: Hey Steve

Data: 14 de setembro de 2011, 12:31:04

Para: Steve Jobs

Steve, meses se passaram desde que o lance do iphone 4 aconteceu, e eu só quero dizer que eu queria que as coisas tivessem acontecido de forma diferente. Eu provavelmente deveria ter largado isso depois que a primeira história foi publicada, por diversas razões. Eu não sabia como dizer isso de forma sucinta para minha equipe, então eu simplesmente não falei. Agora eu aprendi que é melhor perder um emprego que eu não acredito mais do que fazer as coisas para continuar na batida.

Eu peço perdão pelos problemas que causei a você.

B”

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O jovem Steve Jobs era famoso por ser imperdoável com aqueles que o traíram. Mas há poucos dias eu ouvi de uma pessoa muito próxima a ele que aquilo “eram águas passadas”. Eu nunca esperei por uma resposta, e ela nunca chegou. Mas após enviar aquela mensagem, eu me perdoei. E meu bloqueio de escrita passou.

Eu me sinto sortudo por ter a chance de dizer para um nobre homem que eu me sentia mal por ter sido um idiota, antes que fosse tarde demais.