Inteligência artificial e aprendizado de máquina estão se tornando termos firmados no cotidiano. Aos poucos, essas tecnologias saem do imaginário das pessoas e se revelam com aplicações reais no mundo. E, como acontece com praticamente todas as novas tecnologias, surgem preocupações; neste caso específico, o receio das máquinas ocuparem cada vez mais a força de trabalho e deixar milhões de pessoas desempregadas, gerando mais desigualdade social.

• Elon Musk acha que precisaremos de renda básica universal num futuro sem trabalho
• Pesquisadores coletam um trilhão de observações sobre a internet para analisar nosso comportamento
• O que vimos de bacana nos dois dias de Festival Path

Este foi o tema de uma palestra no Festival Path 2017, no último sábado (6), que discutiu “O embate entre tecnologia e desigualdade”. A conversa, mediada pelo advogado Pedro Ramos, apresentou alguns dados históricos sobre desigualdade e desenvolvimento de novas tecnologias, além de dados sobre o cenário atual do mercado.

Ramos apontou que, até agora, a tecnologia mais criou do que destruiu empregos, eliminando atividades árduas e de risco. “Alguns trabalhos físicos deram lugar a atividades de conhecimento e cuidados pessoais. A tecnologia permitiu que tivéssemos mais tempo para diversão e luxo”, comentou.

No entanto, estamos chegando a um ponto em que atividades intelectuais começarão a ser desempenhadas por máquinas. Isso já acontece em diferentes áreas: robôs que escrevem matérias para agências de notícias, máquinas que analisam processos do direito, entre outros. Isso abre espaço para uma maior especialização das tarefas humanas, mas gera desigualdade. “As pessoas com boa formação irão se recolocar com facilidade, mas aquelas com educação precária ficarão desempregadas. Como resolver isso com o sistema educacional?”, questionou Ramos.

Um problema apresentado durante a apresentação foi a deficiência na formação de cientistas da computação. Pedro comentou que nenhum curso de computação do Brasil possui disciplinas dedicadas a áreas de humanas que estudem impactos sociais e busquem refletir sobre a importância da diversidade. Nesse momento, ele apresentou outros vieses de desigualdade: racial e de gênero. Hoje, os homens são praticamente unanimidade nas posições de liderança e no mercado de tecnologia, o que cria um cenário em que a visão e participação femininas na criação de tecnologias são descartadas. Além disso, os algoritmos não são completamente neutros em suas avaliações e previsões, uma vez que foram programados por humanos.

Pedro alertou que as respostas para essas questões não estão prontas, mas apontou caminhos. A fomentação de políticas públicas de apoio à inovação são essenciais para a inclusão de negros e mulheres na tecnologia. Além disso, é preciso oferecer para a sociedade contrapartidas que possam incentivar recolocação e diversidade nas empresas, já que as máquinas tendem a ocupar mais funções. Por fim, são necessárias disciplinas que criem senso crítico nos alunos de ciências da computação para interpretar o mundo para além dos códigos.

Imagem do topo: Pedro Ramos, na palestra no Festival Path. Créditos: Alessandro Junior/Gizmodo Brasil