A cena: estou na minha cabine do tamanho de um armário, dentro de uma cúpula branca construída para abrigar uma tripulação de seis pessoas por quatro meses, como parte de uma experiência isolada. Como equipe, estamos trabalhando e vivendo como “exploradores” estacionados na superfície de “Marte”. Nossa colônia é realista e financiada pela NASA, mas está situada em um lugar um pouco mais próximo de casa, numa remota encosta de vulcão no Havaí.

Faltam apenas algumas semanas até sermos liberados. Estou sentada na minha cama com meu laptop, separando dados de um estudo de sono que conduzi em mim mesma e nos colegas de equipe ao longo dos últimos três meses. A porta da minha cabine está aberta. Pelo canto do olho, vejo um estranho andar até o banheiro a alguns metros de distância. É esquisito, penso, ter um estranho por aqui. Nossas portas não são trancadas durante o dia, mas nosso habitat está posicionado em uma área isolada, em uma altitude elevada, muito longe de estradas pavimentadas e pedestres. A visão de uma pessoa desconhecida e indiferente usando nossas instalações é o suficiente para fazer com que meus sentidos entrem em alerta máximo.



O estranho então sai do banheiro e me confronta. “O quê?”, ele diz, menos uma pergunta, mais um latido. Sua voz me chuta de volta para a realidade. É Simon, nosso engenheiro ruivo que evidentemente raspou a barba e perdeu peso durante a missão.

Ainda assim, meu coração está acelerado e uma onda de sangue me aquece da orelha à ponta dos dedos. “Eu não sabia quem era você”, digo. Ele balança a cabeça e dá um leve sorriso. Nós dois rimos, incomodados com a ideia absurda de um intruso. Isso é quase impossível.

E foi logo depois, quando o meu terror terminou e se transformou em alegria e alívio, que eu notei que não sentia nada tão forte em meses. Eu vivia em uma espécie de torpor. Estava relutante em admitir na época, porque isso implicava em não ter exatamente a personalidade de aventureira e aquela classe exploradora que minha equipe e eu – atuando intensamente como astronautas na Terra – acreditávamos ter. No entanto, em retrospecto, não há como escapar: eu estava entediada, e me sentia assim já havia algum tempo.

São essas condições – monotonia, ócio, tédio, privação sensorial, solidão – que mais preocupam os psicólogos da NASA que querem enviar uma equipe para Marte. Usando tecnologias existentes, uma viagem para o Planeta Vermelho duraria algo entre 200 e 300 dias. Na maior parte do tempo, a tripulação ficaria em uma cápsula fechada. O delay de comunicação com a Terra seria de 20 minutos devido à distância de dezenas de milhões de quilômetros. Bate-papo em tempo real ou vídeo-chamadas com amigos e parentes estão fora de questão.

Além do isolamento e da privação social, ainda haverá repetição de refeições e rotinas, e vestuários e conversas entre os tripulantes. As cargas de trabalho não são exatamente empolgantes e têm pouca margem para erros. Em resumo, uma missão para Marte tem a lista de ingredientes perfeita para o tédio, um desastre completo.

Na Estação Espacial Internacional, 400 quilômetros acima da superfície do planeta, astronautas passam muito do tempo de lazer observando e fotografando a Terra. Em uma nave com destino a Marte, a milhões de quilômetros de casa, essa fonte primária de interesse e conexão com a humanidade desaparece.

Talvez não seja tão ruim. Além de selecionar astronautas com mentes criativas, oferecer à tripulação apoio cuidadoso e permitir autonomia em trabalho e lazer (como com jogos e filmes), psicólogos supõem uma maneira de a NASA combater o tédio é usar o design interior. Uma sugestão é incluir um periscópio dentro da nave com destino a Marte para ampliar uma imagem da Terra para ser observada. Outra é incluir um sistema que projeta imagem da Terra em uma tela, uma espécie de Holodeck, como na série de TV Star Trek.

O projeto de Marte, chamado HI-SEAS (Exploração Espacial Analógica e Simulada do Havaí, em inglês), foi criado para investigar uma espécie específica de tédio chamada fadiga de menu ou tédio de comida. Como a comida é crucial para energia, moral e saúde, e como astronautas tendem a se cansar dos mesmos alimentos pré-embalados e comer menos calorias, a NASA financiou o projeto HI-SEAS para ver se não seria melhor deixar a tripulação cozinhar algumas refeições por conta própria, assim que recuperarem a gravidade na superfície marciana. O estudo terminou em agosto passado, e os resultados ainda não foram divulgados, mas suspeito que a variedade de comida disponível era o suficiente para a cozinha não ser a minha principal fonte de tédio. Existiam, no entanto, outros culpados.

Duas noites por semana assistíamos a um filme e, mesmo ele sendo agendado e devidamente aproveitado, frequentemente eu me sentia meio forçada. Domingos, no geral, eram os dias mais livres, apesar de que pesquisas e relatos de alimentação eram exigidos, e muitos de nós usávamos o dia para cumprir algumas obrigações de trabalho. No entanto, celebrávamos marcos mensais e aniversários com comida preparada especialmente para as ocasiões e música.

É fácil ver como acreditávamos não estar entediados na época, especialmente porque todos conhecíamos conotação negativa que o tédio tem para exploradores e astronautas. No entanto, nós começamos a nos sentir cansados no fim. Na época, um membro da tripulação brincou, com um olhar selvagem, que imaginou como seria arrombar a tampa do habitat e enfim caminhar sem a roupa espacial.

E, de fato, eu já havia experimentado isso antes. Após ler um pouco sobre o assunto, descobri que certos comportamentos – imagine alguém no futuro, fazendo novos planos, aprendendo novas habilidades, definindo objetivos, tentando começar de novo – são típicos de alguém que se sente entediado. Pelo que posso me lembrar, já passei por uma fase de indefinição que me impulsionava a tentar coisas novas.

Frequentemente me senti inspirada a tentar novas coisas em Marte, fossem elas novas formas de escrita, desenhos, ou tentar aprender um novo instrumento. E houve um ponto na missão onde tudo o que eu fazia era pensar em planos futuros: minha esposa e eu nos inscrevendo em uma tenda compartilhada com amigos, por exemplo, ou viagens para Porto Rico, ou escrever um novo livro. Alguns desses devaneios eram quase uma benção. Tudo parecia familiar, de certa forma. Talvez eu sofresse de tédio crônico e não sabia?

Meu tempo em Marte me mostrou o lado bom e ruim do tédio. Meu lado criativo aproveitou a oportunidade para usar uma mente tranquila que poderia buscar novas tarefas e se perder em um futuro imaginário. Mas a aspirante a astronauta dentro de mim se preocupava com o tédio que diminuía meu interesse por certas tarefas necessárias e repetitivas. Se o tédio pudesse ser compartimentado… E agora eu me pergunto, qual é a desse papo de missão para Marte? Nossos astronautas e exploradores agem como portadores coletivos de tédio conforme buscamos novos mundos e experiências.

Este artigo foi extraído com permissão da Aeon Magazine. Para ler na íntegra, clique aqui.


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