Estávamos aqui pensando em como homenagear uma grande pessoa no Dia Nacional da Consciência Negra. Aqui, na F451, empresa que publica o Gizmodo, nós temos pessoas de tudo quanto é origem. Temos um japonês-português que é fã da Itália. Temos um ítalo-paraibano que não curte nem um pouco a Itália. Temos uma judia e uma mineira que viveu no Sergipe que tem pai judeu convertido. Temos gente de todas as regiões da cidade de São Paulo – dos Jardins ao Capão Redondo, passando por Pinheiros, Penha, Santana. E, como percebeu um dos nossos editores dia desses: somos uma empresa com gente de todas as cores em todas as áreas. Os negros da F451 não trabalham apenas com limpeza – são repórteres e editores. Os japoneses não são apenas nerds. É bom ver o preconceito ruindo no seu dia a dia.

>>> Por que chamar negro de macaco é racismo?



Só que a gente sabe que, infelizmente, isso ainda é uma enorme exceção. Na prática, é só dar uma olhada nos lugares em que você trabalha ou que frequenta. Os negros, por uma série de questões históricas, ainda são minoria nos trabalhos mais bem pagos (essa conversa é longa, mas já temos uma dica: negros não podiam ter propriedade por um bom tempo, por causa da Lei de Terras). É por isso que faz sentido, para nós, existir um Dia Nacional da Consciência Negra. É um feriado que nos pensar sobre a representatividade do negro na sociedade brasileira. Não é um feriado para colocar negros contra brancos, pardos contra japoneses. É um feriado que nos faz pensar em uma coisa: como a gente pode fazer para que, um dia, o preconceito de cor desapareça? Como fazer com que as pessoas tenham as mesmas oportunidades? E que pessoas com a mesma qualificação tenham o mesmo salário?

Para nos inspirar nesse dia, lembramos aquele que é considerado um dos maiores engenheiros do século XIX, um personagem cuja importância foi enorme para a história do país.

História

Em 1855, num engenho na Bahia, nasceu Teodoro Sampaio, filho de uma escrava. Na época, começava-se a discutir o fim da escravidão, que demoraria mais três décadas para enfim virar lei.

Teodoro não foi escravo porque o sacerdote Manuel Fernandes Sampaio – que deu seu sobrenome ao menino – teria lhe comprado a alforria. Ele também lhe deu a oportunidade de estudar em bons colégios no Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1877, Teodoro se formou engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro.

Ele não comentava publicamente sobre o histórico de sua família mas, ao que tudo indica, Teodoro voltou para a Bahia e comprou as cartas de alforria de todos os seus irmãos – que sofreram com a escravidão. (A mãe havia sido alforriada pelo sacerdote Manuel.)

Logo ele já estava trabalhando em uma comissão criada por D. Pedro II sobre a navegação no país, propondo melhorias para o Porto de Santos. Ele também fez o levantamento geológico do estado de São Paulo, foi engenheiro-chefe da empresa Saneamento do Estado de São Paulo, e depois se tornou inspetor em uma empresa canadense de ferrovias.

O engenheiro também tinha um enorme interesse por geografia, e deixou várias obras que contribuem até hoje para pesquisadores, mas não só. Por exemplo, suas anotações sobre a Chapada Diamantina ajudaram Euclides da Cunha a escrever Os Sertões.

Teodoro foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em 1894; membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que presidiu em 1922; e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1902). E mais: ele foi um dos fundadores da Escola Politécnica, que hoje integra o corpo da Universidade de São Paulo. As cidades de Salvador e São Paulo nomearam ruas em homenagem ao engenheiro.

Ele era polivalente: além de engenheiro e geógrafo, era urbanista, historiador, cartógrafo, arquiteto, etnógrafo e gravurista. Esse era o perfil de profissional que emergiu durante o fim do Império e início da República, em 1889. “Era preciso mapear e integrar o país; desbravar os sertões desconhecidos; urbanizar as cidades; cuidar dos transportes e dar ao país um ar civilizado”, diz Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga da USP.

Misturas

O Brasil é um país extremamente miscigenado, o que faz com que muitas pessoas não acreditem que ainda tenhamos que lidar com casos de racismo. E embora o racismo certamente seja um dos problemas mais dolorosos que a comunidade negra enfrenta, a representatividade também é uma questão para a qual todos devem abrir os olhos. Hoje, vários profissionais respeitadíssimos em uma gama variada de áreas, que vão desde a tecnologia até a indústria fonográfica, passando pela academia e pela política, são negros. Hoje, o presidente dos Estados Unidos é negro. E essas são, sem dúvida, conquistas importantíssimas. Mas mesmo com elas, a representatividade dos negros ainda não é como deveria ser. No meio do ano, a The Atlantic, uma das revistas mais respeitadas dos EUA, publicou uma belíssima reportagem mostrando as consequências econômicas da escravidão e do preconceito. Os negros simplesmente foram cortados da economia. Eles não tinham como ascender economicamente. Vale a leitura, neste link (o nome do texto é The Case for Reparations). 

Então em vez de seguir o caminho mais confortável e acreditar que o racismo já é uma questão superada, que tal usar esse feriado para lembrar que, em linhas gerais, ser negro ainda é mais complicado do que ser branco e que a cor da pele não é um critério razoável para julgar pessoas? E vamos lembrar também que atitudes deploráveis como o racismo só perderão a força quando todas as pessoas fizerem a sua parte para que tenhamos um mundo mais igualitário. Afinal, mulheres negras são as pessoas que menos ganham na sociedade. E, mesmo quando as pessoas têm exatamente a mesma formação, ainda há enormes chances de que elas sejam discriminadas. Esse professor da Ufes, infelizmente, só verbalizou algo que uma parte da sociedade mantém em silêncio: entre um médico negro e um branco com a mesma formação, algumas pessoas vão preferir o médico branco simplesmente porque ele é… branco.

Existem várias iniciativas de combate ao racismo e para o aumento da representatividade negra na sociedade. Você pode, claro, não concordar com algumas delas, como as cotas, que são um ponto em que as opiniões costumam divergir. Mas é necessário que todos admitam que o racismo ainda é um problema. Que mesmo que atualmente as demonstrações desse tipo de preconceito sejam socialmente inaceitáveis, ele permanece dentro dos corações e das mentes de muitas pessoas. Iniciativas de ONGs, do governo e quaisquer outras naturezas dão sua contribuição para que esse tipo de situação lamentável seja combatida. Mas para que eles funcionem, todos nós temos que dar a nossa contribuição diária. Todos nós. Então vamos nos lembrar do intelecto brilhante de Teodoro Sampaio e das suas contribuições para o Brasil. E que essa lembrança faça com que nunca nos esqueçamos de que somos todos iguais, repletos de capacidades e potencialidades. Se você já sabe disso, faça a sua parte para que as pessoas que não acreditam passem a aceitar que a raça não tem absolutamente nada a ver com o valor de uma pessoa. Com isso, você estará ajudando a fazer um mundo melhor.

Na F451, no Gizmodo, a gente não se deu conta que estava promovendo diversidade. Simplesmente aconteceu porque isso faz parte dos nossos valores. E te digo, do fundo do coração, sem batida de bumbo: é espetacular quando você trabalha num lugar com gente de tudo quanto é jeito, de todas as origens. A diversidade nos desafia e nos faz pensar. Nesse processo, todos nós aprendemos uma enormidade.

[Revista de HistóriaGuia GeográficoFolha de S. Paulo]

Foto via Wikipédia