Mais de dois bilhões de pessoas no mundo agora são afetadas por problemas com o peso, de acordo com uma nova pesquisa publicada nesta segunda-feira (12), no The New England Journal of Medicine. Ao mesmo tempo, nunca morreram tantas pessoas por causa de problemas de saúde relacionados ao peso como agora — um desenvolvimento descrito pelos autores como em “crescimento e mexendo com a crise de saúde pública global”.

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Não é mais uma epidemia de obesidade. É, agora, uma pandemia de obesidade.

É essa a conclusão de um novo relatório alarmante compilado por pesquisadores do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), da Universidade de Washington. Como revela a pesquisa da equipe, mais de 30% de todos os humanos agora ou estão acima do peso ou são obesos, acima do peso sendo um índice de massa corporal (IMC) entre 25 e 29,9 e obesidade, um IMC acima de 30 (o IMC é a medição padrão para quantificar músculo, gordura e ossos em um indivíduo).

Por si só, esses resultados não são completamente surpreendentes: no máximo, são uma confirmação do que já sabíamos. Mas o que é surpreendente é a extensão das consequências à saúde associadas ao problema. A nova pesquisa mostra que, de aproximadamente quatro milhões de mortes atribuídas ao excesso de peso em 2015, cerca de 40% aconteceu a pessoas cujo IMC estava abaixo do limite da obesidade (ou seja, dentro da categoria “acima do peso”). Essa descoberta vai contra pesquisas antigas que sugeriam que estar acima do peso (mas não obeso) estava associado com menores taxas de mortalidade, implicando que estar acima do peso era, de alguma forma, algo preventivo. “[A nova descoberta] Faz muito mais sentido, considerando o que sabemos sobre ramificações fisiológicas de sobrepeso e obesidade”, disse Christopher Ochner, pesquisador do HCA-Physician Services Group e que não esteve envolvido no estudo, em entrevista ao Gizmodo.

“Pessoas que dão de ombros para o ganho de peso o fazem por sua conta e risco — risco de doença cardiovascular, diabetes, câncer e outras condições com risco de vida”, disse o coautor do estudo Christopher Murray, em um comunicado. “Essas resoluções de Ano Novo sérias pela metade de perder peso deveriam se tornar compromissos para todo o ano de perda de peso e prevenção de ganhos futuros”.

Para o estudo, os pesquisadores observaram dados coletados ao redor do mundo para mais de 68,5 milhões de pessoas. A equipe usou dados do Global Burden of Disease Study, de 2015, que envolveu mais de 2.300 colaboradores em 133 países. Os pesquisadores estavam procurando por tendências na prevalência de problemas de peso entre crianças e adultos de 1980 a 2015, enquanto buscavam também riscos de saúde ligados a isso.

Os resultados mostram que, globalmente, existem atualmente 107,7 milhões de crianças e 603,7 milhões de adultos obesos. A prevalência de obesidade duplicou em mais de 70 países desde 1980. Mais adultos são obesos do que crianças, mas a taxa de aumento é maior entre os pequenos. Particularmente, houve uma triplicação de obesidade na juventude e em jovens adultos em países em desenvolvimento, de classe média, como China, Indonésia e também o Brasil. Isso é considerado uma tendência preocupante, porque crianças com sobrepeso têm maior risco de um início cedo de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e doença renal crônica.

Dentre as nações mais populosas, a maior taxa de obesidade infantil foi encontrada nos Estados Unidos, em aproximadamente 13%. O Egito apareceu no topo da lista de adultos obesos, com cerca de 35%.

Esse estudo “oferece um lembrete desanimador de que a epidemia de obesidade global está piorando na maioria das partes do mundo e que suas implicações em relação à saúde física e à saúde econômica continuam ameaçadoras”, notaram os autores, em um editorial do NEJM que acompanhou o estudo.

De acordo com William Dietz, professor do Milken Institute School of Public Health, da Universidade George Washington (que não esteve envolvido neste novo estudo), o alcance global da obesidade tem muito a ver com a ocidentalização da dieta global. “Dietas indígenas estão sendo substituídas por dietas consistindo de alimentos altamente processados e contendo quantidades excessivas de sal e açúcar adicionado”, ele contou ao Gizmodo. “Sucos e refrigerantes são importantes contribuidores para o problema.”

Para reverter essas tendências, Ochner diz que “precisamos focar na prevenção, particularmente entre crianças, e reconhecer que a obesidade é mesmo uma doença médica que não pode ser tratada efetivamente apenas com abordagens comportamentais”.

Porém, embora a taxa geral de mortes esteja subindo, pessoas obesas estão vivendo com mais saúde e por mais tempo do que em qualquer outro momento da história. Os pesquisadores dizem que isso é resultado de melhores cuidados de saúde e estratégias de gerenciamento de riscos. Apesar disso ser certamente uma notícia encorajadora, isso também significa que pessoas com sobrepeso ou obesas estão vivendo mais tempos com doenças associadas.

Em termos de limitações, as estimativas do estudo presumem uma visão global da mortalidade — uma abordagem universal que não leva em conta diferenças entre populações. Por exemplo, em qualquer medida determinada de IMC, os asiáticos têm um risco maior de desenvolver diabetes e hipertensão, enquanto afro-americanos têm um menor risco de doença cardiovascular do que outros grupos. No futuro, seria bom ver uma queda das taxas de obesidade e doenças associadas por país ou grupo étnico.

Relacionado a isso, o IMC nos conta o quão grande somos,mas não o quão doentes estamos. “Nossos comportamentos são muito mais importantes”, disse Jean-Philippe Chaput, pesquisador do Healthy Active Living and Obesity Research Group, em entrevista ao Gizmodo. “Muitas pessoas magras têm uma saúde ruim, e muitas pessoas obesas, uma ótima saúde. Olhar os números em uma balança não é suficiente, e eu nunca aconselharia uma pessoa obesa a perder peso se sua pressão sanguínea, seus níveis de glicose, sua saúde mental, etc, estiverem bem.”

[New England Journal of Medicine]

Imagem do topo: Wikimedia