O Gizmodo Brasil traduz uma boa parte dos posts do Gizmodo americano. E nos EUA, fala-se da Apple — iPhone, especificamente — de forma exagerada, ao menos aos olhos dos brasileiros que às vezes reclamam nos comentários. Mas, amiguinhos, estou em Miami (o que, na verdade, é quase Estados Unidos, já que o inglês é apenas a segunda língua) e aqui, in loco, dá pra ver que o amor do Giz-pai à maçã faz bastante sentido. Eu mesmo, que tenho 3 telefones da Nokia, fiquei um tempão em uma movimentadíssima Apple Store brincando com o iPhone 3GS. Pode acreditar: não há nada remotamente parecido. E, a partir do amor instantâneo ao novo iPhone, comecei a juntar as peças sobre o relativo fracasso da Nokia nos EUA.

Não custa lembrar algumas coisas básicas sobre o iPhone: a interface dele é bem bacana, feita para o toque (ao contrário do Windows Mobile); cabe muita coisa na tela inicial, como os usuários de iPhone estão acostumados (e os da Nokia, não); e os jogos são lindos, com aceleração 3D não encontrada em outros telefones. Mas o que impressiona na nova versão do aparelho, o iPhone 3GS — além da câmera muito boa para os 3MP — é o tal "S". Os aplicativos são inicializados e encerrados muito rapidamente. Fui a duas Apple Stores aqui, uma mais lotada que a outra, e vi pessoas chegando às lojas e colocando seus iPhones lado a lado com o novo, espantadas com o acréscimo de velocidade do 3GS — começo a ficar ansioso pela chegada dele no Brasil.

E a Nokia? Bem, estando aqui nos EUA, dá para entender melhor porque a Nokia não "pegou".

Primeiro: para ver fotos, vídeos, tocar músicas, jogar e navegar pela internet, é bastante difícil competir com o iPhone, especialmente agora. Para editar textos longos, pesquisar coisas na internet, trabalhar de uma forma geral, a multitarefa é absolutamente necessária; e sem teclado, trabalhar fica bastante difícil – ponto para muitos telefones da Nokia. Mas como os donos de iPhone aqui nos EUA também costumam ter notebooks para acompanhar, muitas vezes bem leves, um computador de mão não é exatamente necessário.

Este é um primeiro ponto para tentar explicar um pouco da fraqueza da Nokia nos EUA. O segundo: não se acham telefones da empresa finlandesa por aqui — apenas em algumas lojas de eletrônicos. As pessoas compram celulares quase que apenas nas lojas das operadoras — Verizon, AT&T, Sprint e T-Mobile —, e as empresas vendem os aparelhos na verdade para as operadoras, e não para os clientes. O iPhone é exclusivo da AT&T, o G1 da T-Mobile, o Palm Pre é da Sprint e o BlackBerry Storm, da Verizon. A Nokia não entende muito como funciona isso, e prefere não ter contratos de exclusividade de longo prazo. Aqui no Brasil é comum exclusividade por alguns meses; nos EUA é diferente: por exemplo, a AT&T tem três anos de exclusividade na venda do iPhone. Acontece que nenhuma operadora gosta disso, aí acaba que o N97 chega aqui por US$ 700, desbloqueado, e você não vê nenhum vendedor de uma operadora tentando empurrá-lo ao cliente, como fazem com os N95s no Brasil. A Nokia tentou mudar o jogo com o maravilhoso E71x, que sai por 100 dólares na AT&T, mas talvez seja tarde.

Aqui ninguém compra o bicho desbloqueado, pré-pago. E os contratos de fidelidade, o que dá dinheiro às operadoras, duram normalmente pelo menos dois anos. E você achando ruim 12 meses de fidelidade, hein? Ninguém aqui parece ver isso com problema. Se eu preciso ficar 2 anos com a AT&T para ter um iPhone 3G por 99 dólares, tudo bem! As pessoas aqui vêem os telefones (com exceção dos iPhones e Blackberries) como o resultado do contrato com a operadora. Outro bônus para quem tem iPhone: há dezenas de milhares de hotspots wi-fi nos EUA – em quase todos os Starbucks, pra começar. O wi-fi nos lugares não é gratuito – paga-se US$ 3,99 por uma sessão ou US$ 19 pelo mês. Mas quem tem iPhone nem precisa se cadastrar – estando nos hotspots (a internet é fornecida pela AT&T), navega-se à vontade. Bom pra usar menos pacotes de dados, não? 

O terceiro ponto: a Nokia não investe em publicidade, certamente não em volume como os concorrentes, e possivelmente não da maneira correta a essa altura do campeonato. E com menos de 10% de participação no mercado americano e caindo, ela precisa disso. A primeira campanha mais agressiva é com o novo N97. No papel, ele faz tudo que o iPhone faz, mas com uma câmera melhor, bateria melhor e teclado full-QWERTY. Bobagem. O que importa, no fim das contas, é a interface com o usuário. E ela parece velha, lenta e feia. Pode ter mais funcionalidades e ser multitarefa. Mas o que conta é que um cara que tem experiência com um iPhone ou Blackberry vai pegar um telefone, clicar no navegador e esperar 6 segundos pra ele iniciar. Para pagar o triplo que um iPhone? Sem chance.

Ainda poderia listar a ausência dos telefones com tecnologia CDMA (padrão em 50% do mercado americano) ou um certo protecionismo americano em relação às pratas da casa, como Motorola (só lá mesmo), Blackberry ou Apple. Há também a questão do design: o sucesso do V3 aqui fez o povo dos EUA preferir telefones magrelas, o que não ajuda os da Nokia, que ainda têm um design mais gordinho. 

Há também a chance de a Nokia não fazer sucesso no mercado americano porque, bem, ela ache que não vale o esforço. A Nokia ainda é dona de 40% do mercado mundial, e os celulares vendidos na Índia e Reino Unido em um mês já valem o que a Apple vende de iPhones no mundo. Pode ser que os EUA não sejam um mercado absolutamente fundamental. Fazendo um paralelo: acreditava-se que o Xbox da Microsoft só teria chance de ser um grande console se conquistasse o Japão. As vendas lá seguem pífias, mas o Xbox 360 é sucesso no resto do mundo. Talvez focar um mercado que seja diferente do resto do mundo, por uma série de razões, como é o caso dos EUA, seja desperdiçar esforço.

O problema é que, por muito tempo, a evolução veio de fora dos EUA: 3G, celular como meio de pagamento, para navegar na internet, GPS integrado, SMS… Tudo veio ou da Ásia ou (na maior parte dos casos) da Europa. O problema é quando a inovação vem dos EUA. E é o caso do iPhone e sua loja de aplicativos. Esqueça as especificações do aparelho, a falta de multitarefa ou teclado físico. A App Store do iTunes é lotada de fantásticas opções, e a Ovi Store, resposta da Nokia, é ridícula em comparação. E a tendência, amigos, é que o celular seja mais uma plataforma de serviços que qualquer outra coisa. 90% do tempo que uso meu E71 estou em programas feitos não pela Nokia, mas por terceiros.

Não é a toa que, dependendo da métrica, o iPhone já tem uma fatia maior do mercado de smartphones que todos os telefones da Nokia da categoria. Aliás, por favor, o iPhone É um smartphone. Não há consenso sobre a origem do termo, nem há um padrão da indústria para usá-lo. Mas o iPhone cai na descrição da Wikipédia, por exemplo.

O fracasso da Nokia em conquistar o mercado americano pode ter razões culturais, econômicas, ser fruto do acaso ou picuinha dos americanos. Antes dos nokiatards jogarem pedras – confiem em mim, eu sou quase um garoto-propaganda da marca — a verdade é que o iPhone, hoje, dita o ritmo da inovação, é o alvo. A Nokia pode continuar liderando o mercado em quantidade de aparelhos, vendendo para sempre tijolões na Índia ou N95s funcionais mas datados na América Latina. Mas assim ela não assegura a liderança no futuro, que é o mercado de smartphones. A resposta que é alardeada, o N97, não pode ser a resposta: é um celular caro e lento, apoiado por uma loja de aplicativos sem muitas opções. A Nokia precisa de um novo rumo para se manter no topo do topo. E talvez no mercado que ela nunca deu muita bola, e que foi diferente do resto do mundo, esteja a resposta.