O mês de novembro foi marcado por uma série de notícias animadoras sobre a eficácia de potenciais vacinas contra COVID-19. Porém, novos relatos na quarta-feira (25) nos lembraram que é preciso olhar com mais ceticismo para esse cenário que envolve interesses econômicos e políticos.

A vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford havia apresentado resultados promissores, com uma taxa média de 70% de eficácia, maior facilidade de armazenamento em relação às concorrente e um preço extremamente baixo (cerca de £3 por dose). A notícia parecia boa demais para ser verdade e, de fato, diversos questionamentos vieram à tona apenas dois dias após o anúncio da AstraZeneca.

De acordo com o New York Times, autoridades dos Estados Unidos notaram que os resultados apresentados pela farmacêutica sobre os testes com maior taxa de eficácia não refletiam dados de pessoas idosas. Na segunda-feira (23), o comunicado da AstraZeneca informava que um dos experimentos consistiu em aplicar apenas metade da primeira dose em cerca de 2.800 participantes, o que resultou na taxa de 90% de eficácia.

A empresa não explicou o motivo de usar essa abordagem apenas para um pequeno número de participantes, enquanto os outros 8.900 voluntários receberam a dosagem completa. Por fim, Menelas Pangalos, executivo da AstraZeneca responsável por grande parte da pesquisa e desenvolvimento da vacina, revelou à Reuters que o objetivo inicial nunca foi aplicar metade de uma dose, e que isso aconteceu simplesmente por um erro nos cálculos.

Para piorar, o grupo que recebeu a dosagem errada (e que a AstraZeneca celebrou ter atingido 90% de eficácia) consistia apenas de pessoas com menos de 55 anos – um dado preocupante, visto que os idosos seriam um dos primeiros a receber a vacina e estão entre os grupos mais vulneráveis. Segundo Pangalos, o erro foi cometido por uma empresa terceirizada e, assim que a empresa identificou o problema, os reguladores foram notificados e eles continuaram com os testes utilizando a dosagem corrigida.

Em entrevista ao New York Times na quarta-feira (25), Pangalos disse que erros podem acabar se mostrando úteis e que, nesse caso, não colocou ninguém em risco e foi apenas um erro na dosagem. “O que há para ser divulgado? Não importa se foi de propósito ou não”, acrescentou ele.

O que mais tem levantado suspeitas, no entanto, é a falta de transparência da AstraZeneca. Quando questionada sobre o motivo de ela ter compartilhado a informação, além de especialistas e autoridades, com analistas de Wall Street e não com o público, Pangalos respondeu apenas que “a melhor forma de refletir os resultados é em uma publicação científica revisada por pares, não em um jornal”.

Outro ponto que não ficou claro é em relação aos participantes do estudo que contraíram COVID-19. O comunicado da AstraZeneca dizia que a análise baseou-se em 131 casos sintomáticos da doença. Porém, ela não forneceu detalhes sobre a que grupo pertenciam os pacientes – ou seja, quantos deles haviam recebido a dosagem completa ou metade dela na primeira aplicação. Além disso, os resultados incluíam testes clínicos realizados de formas diferentes no Reino Unido e no Brasil, e não se sabe como as informações foram combinadas.

A Food and Drug Administration (FDA) não comentou sobre a possibilidade de a aprovação da vacina ser recusada após essas revelações. Para que uma vacina seja aprovada, a FDA exige uma eficácia mínima de 50%. Ou seja, mesmo o resultado mais baixo da AstraZeneca, de 62%, já seria suficiente para que ela fosse aprovada. Com os acontecimentos recentes, as ações da AstraZeneca caíram 5% nesta semana, enquanto a Pfizer e a Moderna se aproximam cada vez mais de uma aprovação de uso emergencial da FDA nas próximas semanas.

Essa não é a primeira vez que a vacina da AstraZeneca vira notícia por falta de transparência. Quando os testes foram suspensos em setembro devido a uma reação desenvolvida por um dos participantes do estudo, a empresa não divulgou a decisão publicamente de imediato. Os detalhes sobre o problema encontrado foram divulgados apenas em uma conferência com investidores, organizada pela J.P. Morgan.

Segundo Pangalos, executivo da AstraZeneca, a empresa planeja realizar um novo estudo global para comparar as duas dosagens. Apesar de ele não ter especificado o número de voluntários que devem fazer parte dos testes, sabe-se que estará na casa dos milhares.

Além de decepcionante, a notícia gera preocupações em um momento em que outras farmacêuticas também estão divulgando seus resultado em busca de uma aprovação por autoridades de saúde. A falta de transparência da AstraZeneca pode não apenas prejudicar a reputação da empresa e de uma futura vacina que poderia ajudar a controlar a pandemia de COVID-19, como também pode ajudar a fortalecer o movimento antivacina. Agora, resta esperar que os próximos testes sejam conduzidos de forma mais responsável e transparente.

[The New York Times]