O Uber demitiu nesta terça-feira (31) Anthony Levandowski, engenheiro acusado de roubar arquivos confidenciais da Waymo, unidade de carros autônomos do Google, e usá-los para desenvolver tecnologia similar no Uber, para o qual foi contratado após deixar o gigante de buscas.

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A decisão veio apenas 11 dias depois de o conselheiro-geral do Uber, Salle Yoo, tornar pública uma carta endereçada a Lewandowski, em que pedia para que o engenheiro devolvesse os arquivos supostamente roubados ou que pelo menos negasse abertamente tê-los pego, correndo o risco de demissão se não o fizesse. A primeira vez em que os advogados internos do Uber pediram para que Levandowski colaborasse com o caso aconteceu em 20 de abril, um mês depois de o engenheiro invocar seus direitos da Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Se Levandowski cumprisse o pedido do Uber e devolvesse os documentos da Waymo, isso poderia resultar em uma investigação criminal. Assim, o engenheiro se recusou a responder quaisquer questões dos advogados da Waymo. Tal postura durante a controvérsia certamente não colaborou com a imagem de Levandowski, que agora deixa o Uber enquanto a empresa tenta se resguardar diante de um sério caso judicial.

No início deste mês, o juiz que julga o caso, William Alsup, afirmou que a decisão de Levandowski de invocar a Quinta Emenda e evitar a autoincriminação não impedia o Uber de demiti-lo, além de reforçar seu pedido para que o Uber fizesse o possível para devolver os documentos supostamente roubados. A carta tornada pública há quase duas semanas foi a maneira que a empresa encontrou de mostrar também ao público seu esforço de cooperar com a Justiça.

“Nos últimos meses, o Uber forneceu evidências significativas ao tribunal para demonstrar que nossa tecnologia de carros autônomos foi construída de maneira independente”, escreveu Angela Padilla, conselheira-geral associada da empresa, em um email a funcionários obtido pelo New York Times. “Durante o mesmo período, o Uber insistiu para que Anthony cooperasse completamente para ajudar o tribunal a chegar aos fatos e, por fim, ajudar a provar nosso caso.”

Os advogados de Levandowski adicionaram a carta de demissão no tribunal como parte da investigação, e o Uber não fez mais comentários além do que está na carta. Segundo o Jalopnik, a demissão de Levandowski é imediata, mas seu contrato prevê que, caso aceite colaborar com as investigações, ele possa ser recontratado dentro de um prazo de 20 dias.

O New York Times destacou a demissão de Levandowski como um exemplo prático dos riscos que a crescente cultura de estrelato de engenheiros no Vale do Silício traz com seus pequenos grupos de funcionários recebendo quantias astronômicas de dinheiro.

Relembre o caso

Levandowski trabalhou no Google e deixou a empresa em janeiro do ano passado, fundando em seguida a Otto, companhia de desenvolvimento de caminhões que andam sem motorista. A empresa foi posteriormente comprada pelo Uber. A Waymo acusa o ex-funcionário de ter baixado “mais de 14 mil arquivos de desenhos proprietários altamente confidenciais para os vários sistemas de hardware da Waymo”, incluindo o sensor LiDAR e a placa de circuito, totalizando 10 gigabytes de arquivos.

Levandowski teria informado a colegas seus planos de fundar uma empresa de veículos autônomos quando deixasse o Google. A Waymo alega no processo que ele “parece ter dado vários passos para maximizar seu lucro e abrir sua nova venture” antes de sair da empresa.

O mais curioso dos primeiros capítulos da história foi como o Google chegou a essa interpretação. Segundo consta no processo, a empresa teria sido acidentalmente copiada em um email de um de seus fornecedores de componentes para o LiDAR, cujo assunto lia “ARQUIVOS OTTO”. A mensagem tinha anexos de desenhos de máquinas referentes ao circuito LiDAR do Uber, e a Waymo identificou “semelhança surpreendente” com o projeto altamente confidencial que conduzia.

[Jalopnik, The New York Times]