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Um dia no acampamento improvisado dos afegãos no aeroporto de SP

Três novas famílias chegaram no aeroporto apenas no dia 6 de dezembro, somando sete crianças; veja a atuação dos voluntários

Um dia no acampamento improvisado dos afegãos no aeroporto de SP

Imagem: Carolina Fioratti/Giz Brasil

A reportagem do Giz Brasil passou a última terça-feira (6) acompanhando a rotina dos cidadãos do Afeganistão que chegam ao Brasil em busca de uma nova vida. Siga o relato.

Quem já passou pelo aeroporto de Guarulhos sabe: o lugar parece mais um shopping do que um terminal de aviões. Pessoas vão e vêm com suas enormes malas de viagem, podendo fazer algumas paradas nas lojas de conveniência e restaurantes que iluminam o lugar. 

Poucos sobem até o mezanino do Terminal 2, onde está localizado o Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante. É nesta parte monótona do aeroporto em que estão os afegãos que entraram no Brasil com visto humanizado, mas demoram semanas para conseguir abrigo no país.

Cheguei ao local por volta das 9h30 da manhã do dia 6 de dezembro. Primeiro, conversei com alguns funcionários do próprio Posto Avançado, regido pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social da prefeitura de Guarulhos. 

Voluntários limpam corredor para arrumar barraca para novas famílias de afegãos que chegam no aeroporto. Imagem: Carolina Fioratti

Não obtive muita ajuda de início, mas, depois, entendi o motivo. Os funcionários passam o dia em suas salas cuidando de assuntos burocráticos. Eles fazem o primeiro contato com os afegãos que chegam no aeroporto, listando seus nomes e tentando providenciar abrigo. Porém, quem ajuda esses imigrantes a se instalarem no saguão são os voluntários do coletivo Frente Afegã

Desenhos feitos por crianças afegãs que estavam no acampamento em Guarulhos. Imagem: Carolina Fioratti

Enquanto eu conversava com voluntários no período da manhã, eles comemoravam o fato de que, finalmente, não havia crianças nos corredores. Todas as famílias com menores tinham sido abrigadas. Nas últimas semanas, chegaram a ocupar o espaço até 40 pequenos de uma só vez. 

A situação mudou em questão de horas. Quando saí do aeroporto, às 16h, três novas famílias já haviam chegado, somando sete crianças. Nesse momento, a correria se instaura: os voluntários correm para pegar colchonetes e cobertores para ajudar os imigrantes a montarem suas tendas. 

As crianças são logo distraídas com brinquedos e livros obtidos através de doações. Marmitas excedentes entregues pela prefeitura de Guarulhos foram distribuídas para que os afegãos recém-chegados dividam entre si e seus filhos. Esses não entraram na contagem inicial da alimentação por terem chegado após o horário de almoço.

Mas isso não é tudo. Laura Carneiro, voluntária do coletivo Frente Afegã e aluna do ensino médio, brinca que o grupo faz um pouquinho de cada coisa. “Uma hora você está entregando marmita, na outra hora você está correndo com uma criança ou fazendo algum atendimento [médico]. Tem que ficar acompanhando em banhos e até teste de glicemia a gente faz”. 

Voluntários do coletivo Frente Afegã receberam 800 testes de Covid-19. Imagem: Carolina Fioratti

Os atendimentos médicos são feitos por profissionais da saúde voluntários. Foram eles, inclusive, que solicitaram testes de Covid-19 à Secretaria do Estado de São Paulo após identificarem casos positivos no acampamento. Os exames também foram feitos por voluntários.

A parte do banho é outro desafio. “Nós temos parceria com hotéis e abrigos que liberam alguns banhos por dia”, explica a voluntária Ana Paula Oliveira. A professora de inglês chegou a levar afegãos para tomar banho na casa de sua tia, onde está hospedada, e também costuma separar algumas roupas dos imigrantes para lavar. 

Alguns afegãos chegam aos voluntários se queixando de que estão há cinco, sete ou até dez dias sem tomar banho. As parcerias não dão conta, ainda mais quando considerado que, há alguns dias, os corredores chegaram a abrigar até 300 imigrantes, sendo cerca de 40 crianças. 

Agora, a situação está um pouco mais estável. São aproximadamente 80 pessoas no saguão – número que varia com frequência devido as chegadas e partidas diárias. 

Algumas das informações apresentadas pelos voluntários me impressionam. Ana conta, por exemplo, que algumas pessoas chegam aos afegãos oferecendo empregos em suas casas e prometendo grandes oportunidades. O medo do trabalho escravo, prostituição e tráfico de pessoas faz com que os voluntários estejam alertas a qualquer movimentação estranha ao redor do acampamento. 

Doações recebidas pelo coletivo ficam separadas em corredor inutilizado do aeroporto de Guarulhos. Imagem: Carolina Fioratti

Alguns afegãos, mesmo com o visto humanitário brasileiro, optam por partir. A demora para conseguir abrigo desanima e faz com que alguns imigrantes peguem outro avião rumo a países próximos dos Estados Unidos para cruzar a fronteira e entrar no país de maneira ilegal.

A preocupação com os afegãos deve ir além do abrigo. Voluntários estão oferecendo aulas de português para os imigrantes que ocupam o espaço. “Para eles conseguirem autonomia, o mínimo que eles precisam é ter o idioma”, diz Ana. 

A colocação profissional também é importante não só para os afegãos, mas também para os voluntários. A equipe deseja que as famílias e homens solteiros saiam do aeroporto e não tenham que retornar. Para ajudá-los, os voluntários pedem aos imigrantes que enviem seus currículos para que eles possam traduzir e distribuir. 

“Muitos deles querem abrigo e trabalho, eles precisam de trabalho. Muitos são formados, mas aceitam trabalhar com com o que aparecer. Nós temos cinco afegãos que trabalham em padarias. Eles foram e não desistiram, mesmo com as dificuldade do idioma”, conta Ana.

Quadro feito por voluntários aponta e-mail para enviar currículos e horários das aulas de português. Imagem: Carolina Fioratti

Vale dizer que a maior parte dos afegãos no aeroporto falam inglês, o que é um passo extra para que eles sejam realocados. 

Em determinado momento, eu, jornalista que estava acompanhando o trabalho, também comecei a atuar como voluntária. Primeiro, pegando coisas no estoque; depois, ajudando a falar com os afegãos e entregando frutas.

É preciso lembrar, no entanto,l que esse não é papel da sociedade civil. Mais do que liberar o visto humanitário, o governo brasileiro deve estar preparado para receber esse número exorbitante de pessoas e garantir abrigo para todos de forma rápida, impedindo que os afegãos passem semanas acampados no saguão. 

A garantia do alimento é o mínimo que as autoridades podem fazer. Os imigrantes devem ser capacitados e realocados na sociedade. Os voluntários chegam a sugerir um tipo de auxílio emergencial que seja oferecido a este grupo até que eles consigam entrar no mercado de trabalho e refazer suas vidas em segurança e com dignidade no Brasil.

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