Um grupo de cientistas descobriu um novo tipo de coronavírus capaz de infectar humanos. Ele foi identificado em um grupo de pacientes com pneumonia na Malásia e provavelmente veio de cachorros. Ainda não se sabe se ele realmente está adoecendo pessoas ou se ele pode se espalhar de humanos para humanos.

Mesmo antes de a pandemia da Covid-19 começar em 2019, pesquisadores de doenças infecciosas já estavam preocupados com os vários tipos de coronavírus. Esses vírus em forma de coroa infectam vários animais e experiências anteriores como a epidemia de SARS 2003 ou a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) em 2012, já mostravam que o coronavírus pode pode ser transmitido de animais para pessoas. A Covid-19 já também demonstrou que a combinação mudanças genéticas poderia permitir que esses vírus se tornassem um agente humano amplamente disseminado.

No início da pandemia, pesquisadores da Duke University, na Carolina do Norte (EUA), e de outros lugares começaram a desenvolver testes destinados a detectar todos os tipos de coronavírus em nosso sangue — tanto aqueles que já infectam humanos e outros animais,  quanto vírus ainda desconhecidos que podem representar uma corrente ou perigo futuro para nós. Agora, eles parecem ter identificado que ao menos uma nova ameaça.

Usando um teste altamente sensível de moléculas, a equipe analisou amostras de exames como RT-PCR, usado para diagnosticar a Covid-19, coletados de 301 pacientes em Sarawak, Malásia, que foram hospitalizados com pneumonia entre 2017 e 2018.

Em oito desses pacientes (2,7%), os cientistas encontraram traços de um código genético (RNA) de coronavírus de origem animal, mais precisamente de cachorros, embora as implicações de suas descobertas não fossem inteiramente claras.

Entretanto, em um novo estudo publicado nesta quinta-feira (20) na Clinical Infectious Disease, eles puderam usar testes mais convencionais e detectaram o vírus em dois dos pacientes. Eles também conseguiram isolar e cultivar o vírus em laboratório, para que pudessem sequenciar  a genética. Assim que o terminaram, eles determinaram que o vírus era uma mistura recombinada de coronavírus canino e felino, ambos pertencentes ao mesmo gênero chamado alfacoronavírus – que nunca havia sido documentado antes.

“Este é o primeiro relato de um novo alfacoronavírus canino-felino recombinante isolado de um paciente com pneumonia humana”, escreveram os autores do estudo.

A descoberta é preocupante, já que parece ser o primeiro caso conhecido de um coronavírus de origem canina transmitido para um humano. O vírus também parece carregar uma mutação única entre os coronavírus caninos, mas não outros coronavírus humanos: uma mutação de material genético em sua proteína N que poderia estar permitindo que ele se adapte e se propague com mais facilidade. Aparentemente, a transmissão está de alguma forma associada com a adaptação do vírus durante o contágio do animal para o humano, explica o autor do estudo à NPR.

Os autores foram rápidos em alertar que eles não preencheram os postulados de Koch, o conjunto de critérios que é usado por cientistas para confirmar se um agente infeccioso suspeito está causando doenças nas pessoas.

Além disso, embora os pacientes neste estudo estivessem doentes com pneumonia e tivessem este vírus na corrente sanguínea, isso não significa necessariamente que a doença foi causada pelo vírus. Portanto, não é possível afirmar se seu novo vírus é realmente um germe humano. Embora seja confirmado, não seria motivo para alarme imediato.

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Novas epidemias e pandemias surgem frequentemente de transmissão zoonótica (animal para humano), mas nem todas as transmissões zoonóticas se tornam uma grande ameaça à nossa saúde. No momento, nem sabemos se esse vírus é capaz de se espalhar entre as pessoas – a principal característica que permitiu que a Covid-19 se tornasse essa pandemia.

Isso não quer dizer que essa pesquisa não seja importante. Se o trabalho da equipe for validado, sua descoberta se tornaria o oitavo tipo de coronavírus conhecido em humanos, bem como o quarto descoberto em menos de 20 anos. O risco de o vírus se adaptar ainda mais às pessoas, de uma forma mais destrutiva, também faz com que valha a pena ficar de olho.

Para que isso aconteça, os pesquisadores dizem que mais tempo e mais trabalhos precisam ser feitos para descobrir com que frequência este (e outros coronavírus caninos) pode ser encontrado nas pessoas.