Se você ama música ao vivo, o novo Here Active Listening System é uma ideia incrivelmente nerd que pode mudar a forma como você curte seu hobby favorito.

Eu usei, por alguns dias, uma das primeiras versões dessa tecnologia para alteração de som, e estou bastante animado: ela cria um mundo em que você não ouve absolutamente nada, a não ser aquilo que quer ouvir – e exatamente da forma como quer ouvir.

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Em sua essência, o Here é um par de fones computadorizados que capturam o som do mundo ao redor com um pequeno microfone, processam o som em tempo real, e cospem o áudio alterado nos seus canais auditivos. Você define e altera os parâmetros usando um app para smartphone.

Os fones são relativamente discretos e cabem dentro da sua orelha sem causar desconforto. Em certo momento deixei um dos pequenos fones pretos cair em um bar escuro, e levei cinco minutos e uma caçada constrangedora com a lanterna do smartphone até encontrá-lo.

Por enquanto, a Doppler Labs, a empresa por trás da tecnologia, imagina o Here principalmente como uma forma de interagir com música ao vivo. É basicamente um fone de ouvido bastante elegante.

Controle de volume

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Se você já usou plugues de ouvido em um show – mesmo os que são realmente bons – sabe que eles te tiram de toda a experiência ao seu redor. É bem difícil reduzir o nível da pressão do som que atinge seu ouvido sem também alterar o som a ponto de ele não ser mais realista. Isso é péssimo, mas eu ainda uso tampões de ouvido porque eu não quero ficar surdo só por causa do meu vício em heavy metal.

O Here Active Listening System tem como função mais básica o controle de volume. Isso permite diminuir o som ao seu redor em 22dB, ou aumentar em até 6 dB. Imagine como seria ter controle total do volume da sua vida. É maravilhoso. Como um protetor auricular, o potencial do Here já começa a aparecer.

Equalizador

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A tecnologia obviamente vai muito além do controle de volume. O app permite alterar as características fundamentais do som que você está ouvindo ao aplicar filtros diferentes.

Em uma configuração de apresentações ao vivo, a ferramenta mais bacana é o equalizador simples, que permite controlar o som de cinco faixas de frequência de 180 Hz a 6,8 kHz – o alcance da audição humana vai um pouco acima e abaixo disso, mas muitas das frequências chave das músicas que você quer ouvir ficam dentro desses limites. Um trompete, por exemplo, varia de 170 Hz a 1 kHz.

O equalizador de cinco faixas permite que você faça tudo com bastante rapidez, e com um pouco de experimentação eu fui capaz de modificar o som de uma banda que tocava em um bar para chegar a um mix melhor.

É estranho não saber exatamente quais frequências você está ouvindo no mundo quando você tenta alterar o som. Um profissional pode saber exatamente quais faixas de frequência um tambor ou um órgão precisa ter, mas eu preciso adivinhar. Seria ótimo ter algum tipo de instrução no app para me dar uma ideia de qual faixa eu estava.

Filtros e efeitos

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Além do equalizador, o app também permite aplicar filtros pré-definidos em categorias “Tune In” e “Tune Out”. As categorias “Tune In” tentam simular o som em diferentes espaços. Opções incluem Carnegie Hall e Abbey Road, além de lugares mais genéricos como um estádio. Não gostei muito desses efeitos, já que, com exceção da configuração de estúdio pequeno, todas deram à música uma característica de processamento artificial.

Os filtros Tune Out ainda estão em beta, e eles supostamente aplicam processamento de ruídos para cancelar o som que você não quer ouvir em ambientes específicos, como um escritório barulhento, uma multidão, um avião, ou no metrô. Esses efeitos são bem interessantes porque quase não são perceptíveis em alguns momentos.

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Não tive oportunidade de voar nas últimas horas, no entanto, mas andei de metrô, e posso garantir que mesmo com o filtro ativado, você consegue ouvir o barulho das rodas nos trilhos. Em outras palavras, o efeito Tune Out não cria um silêncio ensurdecedor como os fones de ouvido com cancelamento de ruídos – é mais um ajuste sutil que ainda te deixa dentro do mundo ao seu redor. E, convenhamos, se você estiver andando pela cidade, provavelmente não vai querer estar em uma bolha sem ouvir nada que acontece perto de você.

Por fim, o app usa truques de software de produção musical e permite que você aplique efeitos como eco, flanging ou fuzz no som ao seu redor. Esses efeitos são bem loucos. Fritz Lanman, da Doppler Labs, me disse que os efeitos não são feitos para o ouvinte casual – e sim para pessoas mais “criativas” que querem alterar a forma como o mundo soa de formas bem malucas.

O futuro da audição?

O Here Active Listening acaba atingindo um tipo de audição biônica que vai além do conceito estreito que a empresa apresentou para música ao vivo. “Este é o carro conceitual”, disse Lanman. “Estamos colocando no mercado para introduzir o mundo à computação de ouvido.”

E a empresa está introduzindo o conceito às pessoas bem lentamente. O Here Active Listening System não é algo que a maioria das pessoas consegue comprar. A Doppler Labs vai enviar a versão atual do produto para seus apoiadores do Kickstarter – na campanha, já finalizada, ele custava a partir de US$ 179.

Ele também será disponibilizado para almas sortudas que conseguirem comprar ingressos para o Coachella antes de eles esgotarem – a tecnologia de audição vai ser integrada ao festival musical. Mas, tirando isso, você não será capaz de comprar o Active Listening em seu estágio atual.

Assim, vale dizer que só tivemos de ouvir à primeira versão do que será um produto muito mais completo no futuro. A computação de ouvido é um objetivo meio bobo, e pode não significar nada para você atualmente até porque isso ainda não existe. O melhor que temos nesse setor no momento é o Motorola Hint, que é basicamente um fone de ouvido Bluetooth turbinado. Mas o conceito é muito amplo – pense no computador por quem Joaquim Phoenix se apaixonou no filme Ela (Her). Lanman imagina o dia que teremos tradução em tempo real no ouvido.

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No entanto, Lanman vê dois problemas na introdução de um novo conceito como esse. Em primeiro lugar, a inteligência artificial que existe no momento não é boa o suficiente; e em segundo lugar, a interação com assistentes de voz como a Siri e a Cortana ainda é um pouco estranha. Mesmo se você conseguir convencer as pessoas da estética de usar um computador de ouvido, e mesmo que a tecnologia funcione, a maioria das pessoas não vai querer usar.

Então se considerarmos o Here como um dos primeiros passos em direção à computação de ouvido, será que isso é realmente algo que queremos? Na minha experiência limitada, o efeito foi marcante – realmente transformador – mas em seu estágio atual foi mais desorientador do que esclarecedor. É um pouco como usar drogas: eu quero ligar e ter todos os efeitos possíveis, mas não quero andar por aí em um estado passivo de vivenciar audição biônica o tempo inteiro. Não quero me desligar do mundo. Na maior parte do tempo, fico feliz em ouvir as coisas do jeito que elas realmente são.