Dinheiro em forma de papel é um conceito antiquado. A origem dele pode ser encontrada há centenas de anos, como um recibo bancário que os portadores poderiam trocar por grãos estocados ou ouro. Hoje é um pouco mais do quem um conceito abstrato, é um valor ligado à percepção ao invés de bens.

Nós ainda trocamos estes pedaços de papel, e recebemos bens e serviços por ele, assim como os antigos sumérios e chineses faziam. David Wolman acredita que chegou a hora de acabar com tudo isso. Seu novo livro, The End of Money, analisa tudo isso e anseia pelo surgimento de um mundo sem papel moeda.

Gizmodo: Você sabe sobre a minha paixão por dólares. Por que eu sou maluco por amar dinheiro em forma de papel e que tipo de dano isso pode causar?

David Wolman: Em larga escala é realmente, realmente dispendioso. O dinheiro em forma de papel é a moeda do crime. Mesmo que exista um pouco de raciocínio anti Robin Hood nessa ideia – especialmente quando se fala de evasão fiscal – eu diria que não é exagero se preocupar com o papel do dinheiro em Juarez, no México atualmente, ou no tráfico humano, ou nos dez mil assaltos a banco nos estados Unidos em 2009 e 2010.

Não é apenas o dinheiro dos meus impostos que está pagando para que as leis sejam aplicadas e ladrões de banco sejam presos, ou para aumentar a segurança, mas ele também tem que cobrir todos os impactos maiores de julgar e encarcerar pessoas que estão envolvidas nestes crimes. Crimes financeiros são uma realidade e uma chatice, e sim, eles já são eletrônicos também. Mas é uma defesa furada continuar com o dinheiro em forma de papel. É como dizer, “bem, nós temos aquele outro problema ali, então deveríamos manter esse problema mesmo.”

O que é interessante é que o governo lucra em “emitir” a moeda globalmente. Mas um tema que eu levantei no livro e que um especialista em dinheiro digital em Londres me apresentou foi a ideia de contabilidade entre as agências governamentais. O que eu quero dizer com isso é sim, o Tesouro está fazendo cerca de 20 bilhões de dólares por ano porque todo mundo gosta de esconder notas em seus colchões ou em suas pastas de metal. Mas ao mesmo tempo, o FBI está tentando rastrear terroristas que usam dólares porque é um mecanismo de pagamento anônimo. Eles usam para comprar materiais para dispositivos explosivos improvisados ou algo muito, muito mais perigoso, e o DEA (Agência Anti-drogas dos EUA) está lidando com crimes relacionados a drogas que são movidos a dinheiro por todo o país. E eu acho que algo deve ser dito sobre isso.

Nós temos tantas outras tecnologias que estão migrando para o digital. As cédulas de dinheiro ficaram sem ser questionadas por tempo demais. Nós temos outras tecnologias de pagamento e cartões de crédito e tudo mais, mas tem essa presunção silenciosa que o dinheiro sempre terá que ser o rei. Eu meio que queria acabar com essa ideia.

Gizmodo: Você está falando de como o Tesouro pode fazer dinheiro, mas eu também fiquei surpreso de ver quão dispendioso é manter nosso estoque de dinheiro. Como aderir ao digital iria reduzir custos?

DW: Exato! É enorme. E por isso eu disse amigavelmente que você precisa tirar sua cabeça do buraco. [Referindo-se ao meu post pró-dinheiro; nós dois rimos da minha ignorância.] Você estava todo “Ei, essas cédulas duram até 40 meses agora!”. Você escreve sobre tecnologia, cara. Átomos e elétrons; eles duram muito mais. Mas a nossa adoração do dinheiro em papel é bastante profunda em termos de economia comportamental em psicologia. O Fed (Banco Central dos EUA) faz estes estudos sobre o que as pessoas acham sobre diferentes formas de dinheiro ou mecanismos de pagamento. Todo mundo sempre acha que o dinheiro em papel é barato, rápido e seguro. Não é barato, não é rápido, e não é seguro!

Ele parece ser rápido. Se eu estiver te devendo dez dólares, nós estivermos sentados juntos, e eu te der uma nota de dez dólares, isso é rápido. Mas se você pensar um pouco sobre isso, perceberá que pra fazer com que estes 10 dólares estivessem disponíveis no caixa eletrônico do qual eu saquei, você tem que garantir a segurança do prédio onde está o caixa eletrônico, e assegurar que este dinheiro está circulando de volta para um lugar onde ele possa ser inspecionado para garantir que não está muito deteriorado, caso contrário ele precisa ser tirado de circulação. Cada vez que ele circula, tem mais e mais custos. Distribuição, inspeção, segurança, reinspeção, segmentação, remissão. E então oito anos depois, digamos que a gente precise aumentar a segurança das notas. Então vamos redesenhá-las para que possamos reemitir e reimprimir e reinspecionar e enviar tudo de novo em nossos carros forte belgas. É uma dessas coisas – e é porque eu quis fazer esse projeto e o tipo de coisa que eu fico animado em escrever – que está bem no seu nariz e ao mesmo tempo está se escondendo.

Quando eu fui para a Índia, vi claramente quão devastador o custo do dinheiro em papel pode ser quando você está preso usando apenas ele e não tem alternativa. Por não ser um desenvolvedor, um economista, essas ideias era simplesmente totalmente estranhas para mim. Quando eu penso sobre pobreza, eu penso em coisas como fome e cuidados médicos. E ainda assim, muitos desenvolvedores no momento estão falando sobre serviços financeiros para os pobres, como dinheiro nos celulares e banco via celular. Estas são as tecnologias que estão levando dinheiro para mais perto da periferia e puxando as pessoas para a economia formal.

Isso é sobre bancos no sentido chato e antiquado de serviço público: um lugar seguro para guardar suas riquezas para que você possa construir estabilidade em sua vida. Eu acho que as pessoas que estão protegidas nunca pensam sobre a segurança que isso nos dá. Ela simplesmente está lá. Você só pensa sobre isso se alguém perguntar se você topa fazer o experimento bizarro de viver apenas com dinheiro em papel por um ano.

Gizmodo: Na Índia, quando você fala de pagamentos mobile, existe uma piada de um cara que faz uma transação em dinheiro, e então atravessa a rua para depositar seu dinheiro via celular. É assim que você acha que serão as futuras transações, via celular ou mensagem de texto?

DW: Eu acho que é uma combinação de dinheiro no celular e tecnologias tipo NFC, e provavelmente coisas que nós não conseguimos imaginar ainda. Isso é empolgante. Eu não quero ser nenhum tipo de cara que fica apenas sonhando com o futuro. Mas dinheiro mobile parece ser uma aposta segura. Com NFC e celulares há uma estimativa de que 1.1 trilhão de dólares sejam trocados em transações em 2014. Coisas básicas. O dinheiro estará sendo deixado de lado até em compras de pequeno valor que sempre falamos sobre, uma barra de chocolate, pacote de chicletes ou maço de cigarros. Coisas que as pessoas usam para dizer “Como você irá fazer isso Sr. Abandono-do-dinheiro?”. Assim que meu celular e sua caixa registradora puderem ligar com uma compra como de um dólar por um chocolate, eu irei apenas apertar enviar e problema resolvido.

O custo de smartphones está diminuindo e está tornando-os acessíveis para mais pessoas que não são tão ricas. Aquele cara na Índia usava um celular simples da Nokia, mas como ele é capaz de enviar mensagens de texto, isso é tudo que ele precisa para acessar sua conta bancária. Eu não acho que pessoas, por muito tempo, irão precisar de smartphones caros para ser capazes de fazer compras de valor baixo via NFC.

Gizmodo: Você falou sobre moedas alternativas. Uma coisa que eu achei fascinante foi a ideia de pagar com quilowatt hora. Você pode explicar o Cartão Quilowatt para nossos leitores?

DW: Sim! É um pouco complicado. O cara que inventou é um empreendedor, químico e aviador do estado da Virgínia, nos EUA. Ele é uma das pessoas com quem eu queria falar neste livro, não necessariamente porque os Cartões Quilowatt irão funcionar, mas porque eu amo a ideia de pessoas que olham para o sistema monetário e dizem “Nossa, isso é bizarro! Talvez eu possa inventar algo melhor.”

A maneira que o Cartão Quilowatt funciona é que a unidade da moeda é a quantidade de eletricidade necessária para acender uma lâmpada e a ideia é que nós precisamos de uma moeda baseada em um valor real. Eu estou olhando para um que está na minha parede aqui; eu irei apenas ler para você. É um cartão de 10 quilowatt – um cartão-presente de eletricidade – que para por 10 quilowatts hora de eletricidade em qualquer conta residencial quando resgatado no kilowattcards.com. Sem data de validade. E ele tem um código de autenticação que eu tenho que colocar em um website para que eu não possa usar mais de uma vez.

Eu não vou fazer uma defesa gigantesca deste cara, mas o que estou dizendo é que é uma ideia realmente provocadora dar novamente um valor real para o dinheiro que chega às coisas que são de real valor para um biólogo, como alimentos.

Você ouve falar de ouro o tempo todo, mas a verdade é que ouro também não tem um valor real. O ouro é apenas pesado e ele tem feito o papel de “dinheiro de verdade” por tanto tempo, que as pessoas acham que ele tem valor real. Entretanto, alimentos, eletricidade e cobertores, essas coisas sim tem real valor.

Estes são os obstáculos que ele enfrenta especialmente com o custo atual do pagamento pela distribuição ser variável. Este é um grande problema. Mas eu estou surpreso que nós não vemos essa ideia com mais frequência. Você sabe que as pessoas falam sobre usar água potável como moeda, ou pelo menos cobrar por ela. Isso será interessante quando eu e você formos idosos. Será que algumas das nossas commodities ou utilidades básicas serão usadas como unidades de moeda?

Gizmodo: Seu livro fala da BitCoin, o que deve ter sido um pesadelo porque ela estava mudando demais ano passado enquanto você estava escrevendo. Mas você também cobriu todas as outras moedas digitais alternativas como os Créditos do Facebook. Uma coisa que saiu da oferta de IPO do Facebook é que ele provavelmente precisa fazer muito mais dinheiro por usuário. E parece que os Créditos do Facebook poderiam ser a resposta para isso. Você sugere que será eventualmente capaz de pagar por praticamente qualquer coisa com Créditos do Facebook.

DW: Esse é o problema com moedas alternativas, não é? Contanto que elas não estejam incomodando o governo em termos de falsificações elas são totalmente legais e legítimas. O problema é: Elas são amplamente aceitas? Esse é o problema do ovo e da galinha. Fazer as pessoas confiarem em uma moeda e torná-la amplamente aceita.

O que torna os Créditos do Facebook tão poderosos instantaneamente é que tem muitas pessoas que já estão no Facebook. O cara que inventou o Cartão Quilowatt ou os caras que inventaram o Ithaca Hours tem que convidar mais pessoas a aderirem. Mas o Facebook já tem – uns 800 milhões? Um bilhão de – pessoas participando. E eu acho que é bastante provocador na medida em que o poder desse tipo de moeda alternativa possa surgir sem frescura, sem deixar muita gente de fora.

Algumas outras moedas alternativas funcionam como se você usasse 25 pontos de um cartão para receber uma massagem e eu te desse uma contribuição com design gráfico. E isso é praticamente o único tipo de coisa que você pode trocar. Então, se você quer pagar pelo seguro do seu carro ou qualquer outra coisa você tem que voltar para os dólares. Talvez coisas como os Créditos do Facebook possam romper essa barreira. Você pode ver um pouco disso atualmente, por exemplo pessoas usando milhas de companhias aéreas para pagar por coisas reais, como uma reserva em um hotel e outras coisas.

E só mais uma coisa porque você levantou uma questão interessante sobre isso ser um alvo em movimento. Conforme eu estava arquivando e pesquisando coisas, o negócio da Bitcoin surgiu novamente na Islândia. Eu estava lá tentando explorar o colapso dos bancos e a conversa que rolava era sobre se livrar do Krona. E então algum tempo depois a crise na Europa chega e lugares como a Islândia ficam tipo “graças a Deus nós não usamos o Euro!”. Por um lado, editorialmente falando, isso é difícil porque ameaça que o meu livro fique datado muito rapidamente. Mas olhando de maneira mais geral eu gosto dessa ideia. Isso foi um lembrete incrível pra mim. O sistema monetário é como um alvo em movimento e é incrível que o dólar seja relativamente tão estável e que a maioria das pessoas que eu conheço acreditem que ele é o único tipo de dinheiro “de verdade” que existe. Ainda assim, nós apenas conhecemos um dólar que não está ligado ao ouro por 40 anos, ele existe há 90, mas sem conexão com o ouro por 40 anos.

E a crise do Euro ano passado nos mostrou isso também, e a coisa toda sobre unidades de moeda e real valor ou moeda emitida pelo governo versus moeda alternativa, é bem confuso. Isso foi iluminador para mim como alguém que nunca estudou economia e achou que essas coisas eram garantidas, sólidas, estáveis, que estavam ali, e era assim que funcionava. Isso não é necessariamente o caso. Apenas parece ser assim quando tudo está dando certo por muito tempo. Isso faz algum sentido?

Gizmodo: Faz sim! David, muito obrigado. Divirta-se bastante nas suas férias.

O novo livro do colaborador da revista Wired, David Wolman, The End of Money: Counterfeiters, Preachers, Techies, Dreamers—and the Coming Cashless Society, sai dia 14 de fevereiro. É uma leitura fantástica.

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