Os porcos podem nunca voar, mas eles são capazes de usar ferramentas, como demonstra um novo estudo fascinantes.

Chimpanzés, elefantes, golfinhos, lontras, corvos e, claro, humanos, estão entre as poucas criaturas da Terra conhecidas por usar ferramentas. Agora podemos adicionar porcos a esta lista exclusiva, graças a uma nova pesquisa publicada esta semana na Mammalian Biology.

Ao longo de três anos, uma equipe liderada pela bióloga Meredith Root-Bernstein, do Instituto de Ecologia e Biodiversidade do Chile e do Instituto Nacional Francês de Pesquisa Agrícola, observou várias instâncias de uso de ferramentas pelos porcos da espécie Sus cebifrons, em que os animais usavam gravetos e cascas para cavar ninhos em seus recintos em zoológicos.

Entre os porcos, esse comportamento é raro e provavelmente não instintivo, segundo os pesquisadores, o que significa que o uso da ferramenta é o resultado da inteligência adaptativa e do aprendizado social, destacando aspectos anteriormente subestimados da inteligência dos porcos.

Os porcos são famosos por sua inteligência, então é justo questionar por que esse comportamento não foi detectado até agora – uma pergunta que fizemos a Root-Bernstein.

“Vai saber!”, ela escreveu em um e-mail para o Gizmodo. “Fiquei muito surpresa quando percebi que não havia relatos anteriores de uso de ferramentas pelos porcos. Eles são animais inteligentes, brincalhões, sociais e gostam de manipular objetos, e são onívoros, de modo que naturalmente precisam processar muitos tipos diferentes de objetos comestíveis – todas as condições frequentemente associadas ao uso de ferramentas em outros animais. Talvez as pessoas simplesmente não tenham prestado atenção suficiente. Ou, as pessoas podem ter observado diferentes tipos de porcos usando ferramentas, mas os cientistas simplesmente não ouviram falar sobre isso”.

O estudo atual foi motivado por uma observação acidental feita por um dos pesquisadores da Ménagerie do Jardin des Plantes, em Paris, França (um zoológico de espécies ameaçadas de extinção), que flagrou um porco aparentemente usando ferramentas. Essa observação fortuita motivou os cientistas a conduzirem uma investigação formal sobre o assunto, o que eles fizeram através de uma série de experimentos realizados de 2015 a 2017.

Um porco da espécie Sus cebifrons reunindo folhas para seu ninho. Imagem: M. Root-Bernstein et al., 2019

Root-Bernstein disse que pouco se sabe sobre o comportamento natural dos porcos Sus cebifrons, uma espécie ameaçada de extinção das Filipinas. Eles vivem em grupos familiares e passam os dias vasculhando o chão da floresta em busca de várias fontes de alimento. Porcas fêmeas fazem ninhos cavando um buraco e forrando-o com folhas, que são feitos para cuidar de seus leitões. É importante ressaltar que o uso da ferramenta observado no presente estudo ocorreu no contexto da construção desses ninhos, disse Root-Bernstein.

Para a análise, os cientistas escolheram uma definição de uso da ferramenta criada pelos cientistas Robert St. Amant e Thomas Horton da North Carolina State University, que descreveram esse uso como “o esforço de controle sobre um objeto externo livremente manipulável (a ferramenta) com o objetivo de (1) alterar as propriedades físicas de outro objeto, substância, superfície ou meio…por meio de uma interação mecânica dinâmica ou (2) mediar o fluxo de informações”.

O vídeo mostra Priscilla usando um pedaço de casca para cavar um buraco. Imagem: M. Root-Bernstein et al., 2019

Quatro porcos diferentes foram incluídos no estudo, todos nascidos em cativeiro. Os porcos incluíam Priscilla, uma fêmea nascida em 2007; Billie, um macho nascido em 2009; e seus filhotes fêmeas sem nome, ambos nascidos em 2012 (e mais tarde batizadas de Antonia e Beatrice para evitar confundi-las). Ao longo do estudo, os pesquisadores catalogaram 11 instâncias durante os três anos em que os porcos usavam ferramentas, especificamente cascas e gravetos, para ajudar na construção dos ninhos. Os porcos usavam esses itens como uma pá, movendo-os para frente e para trás para produzir uma ação de escavação discernível. Observou-se que todos os porcos usavam ferramentas, incluindo Billie.

Em experimentos realizados em 2015, os pesquisadores pensaram que a adição de mais folhas no recinto poderia estimular o uso da ferramenta, mas isso não funcionou. Em 2016, os cientistas simplesmente observaram os porcos sem interferir, período durante o qual o uso da ferramenta surgiu espontaneamente. Já nos experimentos realizados em 2017, os pesquisadores adicionaram uma espátula ao local para ver se os porcos a escolheriam, mas eles não o fizeram.

É importante ressaltar que o comportamento de uso da ferramenta foi espontâneo.

“Por ‘espontâneo’ queremos dizer que não criamos uma situação em que havia um problema a ser resolvido e uma ferramenta que poderia ser usada para resolvê-lo, como aconteceria em um experimento controlado”, explicou Root-Bernstein.

Os pesquisadores também documentaram um comportamento estranho que eles chamaram de “moonwalking”, que aconteceu enquanto os porcos construíam seu ninho.

“Era o comportamento que sempre precedia o uso de ferramentas nas etapas de construção de ninhos”, disse Root-Bernstein. “Os porcos realmente pareciam estar imitando o movimento de Michael Jackson – eles faziam isso para empurrar o solo para trás para formar as paredes do ninho. Os porcos eram bastante brincalhões e tinham personalidades distintas; muitas vezes rimos deles enquanto realizávamos as observações”.

A nova pesquisa também amplia nossa compreensão sobre a aprendizagem social em porcos. Esses animais, como a pesquisa anterior mostrou, são capazes de aprender uns com os outros sobre coisas como onde encontrar comida e descobrir quais alimentos são bons para comer. Javalis, como outro exemplo, já foram vistos lavando alimentos, o que provavelmente aprenderam um com o outro, disse Root-Bernstein.

“Acreditamos que os porcos Sus cebifrons, em nosso estudo, provavelmente aprenderam o comportamento com a mãe, Priscilla, que pode ter inventado, porque é ela que mais faz. Mas estamos apenas especulando com base em padrões conhecidos de aprendizado social em outras espécies”, disse ela. “Seria bom se alguém fizesse alguns estudos mais sofisticados de aprendizado social em porcos”.

Dada a inteligência deles, Root-Bernstein disse que ficaria surpresa se os porcos não aprendessem mais do que apenas onde encontrar comida, e ela suspeita que os porcos possam aprender ações e possivelmente até objetivos uns com os outros.