Para um músico em início de carreira, gravar música era difícil. Felizmente, surgiram programas que lhes dão uma opção rápida, flexível e praticamente igual à gravação tradicional. Aí os profissionais enlouqueceram com todo esse poder e transformaram a música em uma ciência maluca de construção sônica.

O problema: há ferramentas que transformam uma pessoa comum em um artista musical, mas profissionais abusam delas, cortando, mixando e processando tudo sem qualquer limite. Às vezes isto é necessário, como no hip hop, noise experimental e música eletrônica. Mas chega um ponto onde acertar a voz do cantor é errado. Ferramentas de edição e processamento precisos, feitas para melhorar a música, acabam tornando-as pouco naturais quando usadas em excesso – como imagens que ficam horríveis quando usam demais o Photoshop. Mesmo com um profissional no comando, o exagero na edição transforma o som no equivalente às modelos que vemos em revistas: parecem humanos, mas são sombras sem alma da fonte real.

O guru de áudio Steve Guttenberg escreve sobre o problema na edição deste mês da Stereophile. Ele conversou com pessoas da indústria em uma convenção, e parece que há um consenso crescente de que os produtores estão pesando a mão:

Alguns engenheiros falaram sobre vocalistas superfamosos que gravam literalmente centenas de takes de uma mesma música, e então deixam para os editores criarem uma só performance “perfeita” a partir delas, uma fração de um segundo por vez. Perdoe meu sarcasmo, mas imagine como seriam muito melhores os álbuns de James Brown, Beatles ou Led Zeppelin se eles tivessem ferramentas profissionais nos anos 60 e 70. Infelizmente, é uma  ferramenta que alguns artistas não resistem em usar até o ponto em que nada resta da performance original.

A maioria das pessoas acha que estes álbuns antigos são perfeitos. Quando você ouve aquele pequeno defeito – uma falha na voz de John Lennon ou uma nota que saiu mais fraca que o desejado – isso aproxima você do artista, e torna a música melhor.  Eu não diria que deveríamos voltar aos tempos analógicos – o autotune começou na época analógica, afinal. A ideia é que tudo tem que ser usado com bom gosto. Quando há possibilidades infinitas, é o que você faz que torna a música em algo humano. [Stereophile]

Foto via bORjAmATiC/Flickr