O Facebook anunciou nesta quarta-feira (4) novos termos de serviço e uma nova política de dados – algo que a empresa provavelmente espera que seja visto como uma forma de proteger seus usuários. Mas não se preocupe, não é como se a empresa tivesse dado o braço a torcer em sua guerra contra a privacidade. Ela está apenas tornando explícitas as suas práticas que deixaram usuários e diversas empresas e entidades pistolas.

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Os novos termos e a nova política de dados são divulgados em um blog post formalmente redigido pela diretora de privacidade do Facebook, Erin Egan, e a representante do conselho geral Ashlie Beringer. “Estamos tornando nossos Termos e Política de dados mais claros, sem solicitar novos dados no Facebook”, é o título do texto. Caso os pontos que eles providenciam sobre as adições sejam corretos, o Facebook não mudou suas políticas de forma tão radical, mas, sim as clarificou exatamente quanto da sua vida digital ela detém e por que isso é ok. De forma emblemática, o anúncio repetidamente enfatiza como os novos documentos “explicam”, “especificam” e “tornam claras” várias práticas antigas do Facebook.

Considere o hábito da rede em coletar histórico de ligações de mensagens de texto, por exemplo. Apesar do Facebook dizer que “adicionou mais informações específicas” sobre a função, que é uma experiência optativa para o Facebook Lite e Messenger, a rede social não vai parar de coletar esses dados.

Na semana passada, o Facebook defendeu a prática frente as reclamações dos usuários, afirmando que isso “lhe ajuda a encontrar e se manter conectado com as pessoas que você se informa, e lhe providencia com uma melhor experiência no Facebook como um todo”. Isso soa bem semelhante ao que Mark Zuckerberg disse em 2007, quando o Facebook se tornou uma plataforma que permitiu aos desenvolvedores construir aplicativos customizados e coletar dados dos usuários. Nós sabemos do escândalo da Cambridge Analytica que deu início a esta crise e que essa prática causou diversos efeitos colaterais.

Falando sobre a Cambridge Analytica e outros desenvolvedores, o Facebook ainda permitirá que eles coletem e armazenem dados dos usuários. Mas haverá regras. Basicamente, desenvolvedores podem monitorar as pessoas pela internet e salvar informações sobre quem eles são e o que eles estão fazendo, mas eles precisam da permissão do usuário para isso.

Por exemplo, desenvolvedores podem coletar dados da sua conta no Facebook – nome, email, gênero, data de nascimento, cidade atual e a URL da foto do seu avatar – e então armazená-los, mesmo que eles parem de usar a plataforma Facebook. Mas eles precisarão da permissão do usuário. Entretanto, sabemos do desastre da Cambridge Analytica que muitos usuários permitem que desenvolvedores desconhecidos façam o que quiserem com seus dados sem que tenham noção das implicações.

A política de dados do Facebook ainda permite muito monitoramento. Apenas leia este trecho do topo da Política de Plataforma do Facebook, que contêm 23 características diferentes e é apenas uma parte de uma política de dados muito maior. Ela diz que os desenvolvedores devem:

Obter o devido consentimento das pessoas antes de usar qualquer tecnologia do Facebook que permita coletar e processar dados sobre elas, incluindo, por exemplo, nossos kits de desenvolvimento de software (SDKs) e pixels do navegador. Ao usar tais tecnologias, fornecer uma declaração apropriada informando:

  1. Que terceiros, incluindo o Facebook, podem usar cookies, web beacons e outras tecnologias de armazenamento para coletar ou receber informações de seus sites, aplicativos e de qualquer outra parte da internet e usar essas informações para fornecer serviços de mensuração, direcionar anúncios e para outras atividades, conforme descrito em nossa Política de Dados;

De novo, é preciso clicar por diversas páginas das políticas de dados para chegar a este nível de detalhamento. Ela está lá, mas eu dificilmente a descreveria como fácil de encontrar e fácil de ler.

Tanto os novos termos quanto a nova política de dados acabaram de ser divulgados, então precisaremos gastar mais tempo vasculhando-as para entender quais mudanças significantes foram implementadas. Se o que o Facebook promete for verdade, nós deveríamos pelo menos ter um pouco mais de clareza em como o Facebook utiliza os seus dados.

Se o tamanho gigante e design confuso das políticas for alguma indicação do futuro da companhia, é difícil acreditar que o Facebook esteja fazendo grandes mudanças frente aos problemas que está passando. Até então, as novidades parecem apenas mais dos mesmos antigos truques. Eles apenas foram entregues em um embalagem ligeiramente diferente.

Imagem de topo: Drew Angerer/Getty