O mundo está repleto de crendices alcoólicas. Crendices sobre o álcool, não contada por alcoólatras. Bem, na verdade tem bastante dos dois. Mas e todas aquelas regrinhas que a gente aprendeu na faculdade? Que beber cerveja antes de destilados é a pior coisa. Que quanto mais bolhas, mais bêbado. Que diferentes tipos de birita geram diferentes tipos de bêbado. In Vino, veritas. Para todas as lendas, existem poucos dados científicos para confirmar ou desafiar a sabedoria popular…até agora!

O final de semana chegou, você sobreviveu a mais uma longa semana, e é hora do Happy Hour, a coluna semanal do Gizmodo sobre bebedeira. Um coquetel repleto de inovação, ciência e álcool.

Então, o que aconteceu foi o seguinte. Eu planejei examinar alguns tipos mais comuns dos mitos da manguaça e li todos os estudos que foram feitos sobre este assunto, e pronto! Mito detonado ou confirmado. Mas sabe de uma coisa? Não existem muitos estudos controlados que respondem nossas perguntas. Por quê? Porque estudos controlados são caros. Quem iria pagar a conta? Jack Daniel’s? O melhor que nós poderíamos sonhar seria um projeto do Kickstarter financiado por centenas de bêbados curiosos, e nós não poderíamos sentar e esperar isso acontecer. Então nós bebemos uns bons drinques e pegamos o telefone.

Cerveja antes de destilados

Existe um velho ditado americano que diz “Carbonado antes de destilado; não há nada pior. Destilado antes de carbonado; não tem problema.” Isso viola uma regra que eu tento sempre obedecer – nunca confie em um conselho que rima –, mas acontece que existem algumas evidências que confirmam isso. Eu conversei com Dr. Rueben Gonzales, um professor de farmacologia e toxicologia na Universidade do Texas, e ele tinha algumas coisas bem interessantes para dizer sobre o assunto. A diferença entre a concentração do álcool entre a cerveja (4% de teor alcoólico) e destilados (40% de teor alcoólico) gira em torno de dez vezes, dependendo da amostra. Mesmo em uma bebida misturada, estamos falando de cerca de 10 a 20% de teor alcoólico. Então se você começar a beber cerveja em certo ritmo, e continuar bebendo um drinque com destilados no mesmo ritmo, é como dirigir devagar e pisar no acelerador de repente. Sua boca pode não saber a diferença na concentração do álcool, mas seu corpo saberá. Em comparação, se você começar bebendo um destilado, você provavelmente estará bebendo em um ritmo mais lento e se sentindo bêbado mais rápido. Mudar para cerveja e continuar bebendo no mesmo ritmo irá resultar em uma diminuição do nível do álcool por volume.

Existe até um estudo controlado que dá um pouco mais de crédito para este mito, que o Dr. Gonzales fez a gentileza de me mandar. O estudo, chamado “Concentração de álcool e carbonatação das bebidas: O efeito nos níveis de álcool no sangue,” que foi feito em 2007 pelas Universidades de Manchester e Lancashire. O pequeno grupo de 21 voluntários levou a algumas conclusões interessantes. Uma descoberta foi que concentrações diluídas de álcool seriam absorvidas mais rápido do que uma dose mais potente. Em outras palavras, o álcool em um drinque entra na corrente sanguínea mais rápido do que a quantidade equivalente de álcool se tomado puro. Do estudo:

Acredita-se que quando não há alimentos no estômago, pequenas quantidades de álcool concentrado passam pelo estômago em uma taxa quase igual a volumes maiores de álcool mais diluído, deixando pouco tempo para o metabolismo gástrico.

Em outras palavras, como é maior em massa e volume, o drinque misturado passa mais tempo no seu sistema digestivo, que é onde ele é absorvido. Faz sentido. Então, se você estiver enchendo seu estômago com cerveja e então você aumentar a concentração de álcool adicionando um destilado, você está basicamente fazendo um drinque em seu estômago. Ele ficará lá por mais tempo, fazendo com que você fique mais bêbado. Por outro lado, se você começar com o destilado, a solução no seu estômago vai começar com uma concentração maior de álcool, e irá passar por ele com uma velocidade maior. Você se sentirá mais bêbado, e irá provavelmente estar menos disposto a beber tanta cerveja depois. Dê uma moderada aí, seu bebum!

A carbonatação deixa você mais bêbado

Algumas pessoas acreditam que as bolhas encontradas em bebidas gasosas carregam álcool para a sua corrente sanguínea mais rapidamente. Bill Owens, do Instituto Americano de Destilação, acredita nesta máxima. “Você pode beber uma garrafa de vinho branco com um amigo e dirigir de volta para casa pouco tempo depois (nota do editor: por favor, não faça isso!), mas uma garrafa de champanhe irá te derrubar rapidinho,” ele diz. Ao que parece, ele não é a única autoridade que acredita nisso.

De acordo com o site do Instituto Nacional de Saúde, Medline Plus:

Um drinque carbonado (gasoso) alcoólico, tal qual champagne, será absorvido mais rápido que um drinque não carbonado.

Ok, mas como? Existem muitas teorias e pouquíssimo consenso sobre o assunto. Alguns acreditam que o CO2 carrega as moléculas de álcool na corrente sanguínea mais rapidamente, mas isso muito provavelmente é besteira. O que é mais provável, de acordo com um estudo de 2007 de Manchester, é que o gás causa distensão no seu estômago (e é por isso que você se sente cheio e com vontade de arrotar). Esta distensão aumenta a taxa do que o estudo chama de “esvaziamento gástrico”, um efeito que acelera o movimento do álcool do estômago para o intestino delgado, onde o álcool é consumido mais rapidamente. Assim, a bebida entra na corrente sanguínea com mais velocidade.

O estudo descobriu que o grupo que bebeu a solução C, que era vodca com água com gás, representado pela linha vermelha, teve um aumento rápido e acentuado na concentração de álcool no sangue. O grupo que bebeu a solução B, uma mistura de vodca e água comum, mostraram um aumento menos dramático, como é mostrado na linha azul do gráfico (a solução A foi vodca pura). Como os resultados variaram tanto, os pesquisadores não arriscaram tirar nenhuma conclusão sobre o teste em relação a carbonatação, mas poxa,  não é possível que não tenha nenhuma relação.

Diferentes bêbados

Você já ouviu pessoas falando que “gin me deixa meio nervoso” ou “rum me deixa muito grogue”? Nós todos já ouvimos algo parecido. Mas existe alguma verdade por trás disso? Os especialistas que eu falei disseram que não. “É a quantidade que você bebe. Ponto”, Bill Owens proclamou. Não existem estudos controlados publicados para testar isso, então do ponto de vista puramente científico é impossível confirmar ou detonar este mito. Mas eu tenho algumas evidências minhas.

Memória sensorial é um fenômeno psicológico incrivelmente poderoso, e já foi provado que nossos sentidos de olfato e paladar são os mais potentes para evocar memórias. Eu poderia então apostar que o motivo pelo qual uísque me deixa calmo e relaxado é porque eu associo isso com pescar com o meu pai. Gin não me deixa com raiva, ele me deixa com vontade de sair pra balada. Isso é porque eu comecei a beber gin e tônica nos bailinhos do colégio, ou devido a algumas notas cítricas me lembrarem de jogar futebol quando era criança. Em contrapartida, Southern Comfort me deixa deprimido, lento e estranho, provavelmente porque eu tive uma das piores noites da minha vida quando eu tinha 18 anos e bebi uma garrafa disso sozinho.

Existe outro possível culpado: congêneres. Congêneres são um subproduto do processo de fermentação e destilação. Eles podem incluir acetona, aldeídos, outras formas de álcool e ésteres. Falando de modo geral, eles não fazem bem para você. Mas eles são uma parte essencial do processo de destilação, porque todos os destilados contém uma pequena quantidade desses ingredientes. As fases do começo e do fim do processo de destilação misturam com o coração do líquido purificado para dar à bebida o sabor característico. Mas processos e ingredientes diferentes resultam em congêneres diferentes. Toxinas diferentes afetam as pessoas de maneiras diferentes, e um destilado, por exemplo, de agave, afeta de uma maneira psicologicamente diferente comparado com centeio fermentado. Nós todos temos uma resposta única a diferentes tipos de estímulos químicos.

Misturando destilados

Quando eu estava na Escócia, muitos anos atrás, um barman me contou que o “boa noite cinderela” original não era uma pílula. Você pagava a um garçom inescrupuloso para adicionar um pouco de vodca no uísque de seu inimigo toda vez que ele pedisse um, e a combinação de bebidas resultava em uma experiência de blecaute na qual o pobre coitado iria divulgar seus segredos ou seria mais fácil de roubar. Vigarista! Eu relatei o conto ao Dr. Gonzales, que disse, “Isso não faz nenhum sentido pra mim. Eu não vejo como isso poderia acontecer.” Não havia nada na internet que confirmasse essa história também. Maldição! Mas todos nós já ouvimos de algum amigo que misturar a birita A com a birita B iria te deixar muito pior do que beber apenas um ou outro. E ainda assim, eu não consegui encontrar nenhuma evidência cientifica que confirmasse isso.

Então eu decidi conduzir meu próprio estudo.

Eu monitorei minha alimentação, meu sono e meus hábitos de exercício por um dia, e então naquela noite eu bebi 150 ml de uísque em cinco minutos. Na semana seguinte eu tentei regular minha alimentação, sono e exercício e deixar igual ao teste anterior, e então bebi uma solução de 150 ml que era metade uísque e metade vodca (o gosto era muito pior). Em ambas as ocasiões eu fiz testes de velocidade de digitação em intervalos regulares para checar a função motora, e fiz outros testes mais subjetivos, como andar pelo meu apartamento e ver “como eu me sentia”.

No melhor dos casos é uma ciência imperfeita, mas é melhor do que qualquer outro estudo que eu consegui encontrar. Então, até onde eu posso dizer, no momento eu sou o maior especialista mundial sobre o assunto.
Infelizmente, como você pode ver nos resultados do teste de digitação, esse documento não provou nada, Batman, exceto que eu sou muito bom digitando bêbado. Entretanto, depois de fazer o teste de digitação final no dia do uísque + vodca, meu eu bêbado escreveu isso:

Eu agora escrevo a conclusão sobre este assunto e me recuso a editar depois.

Subjetivamente, não cientificamente, eu tenho quase certeza que estou bem mais bêbado do que semana passada, quando bebi só uísque. Quando eu levando as minhas funções motoras estão severamente prejudicadas. Minhas habilidades de digitação estão ainda muito boas considerando tudo, mas isso é provavelmente mais uma função de memória muscular do que qualquer outra coisa. Em retrospecto, eu deveria ter planejado algum tipo de teste de memória. De qualquer maneira, apesar de não ter nenhuma evidência química ou científica para apoiar isso, eu irei em frente e direi que é plausível (de um jeito meio Mythbuster) que misturar destilados deixa você mais bêbado do que beber algo puro. Eu não posso provar isso, ainda não, mas eu sinto como se estivesse provado, e por enquanto isto é bom o suficiente para mim.

Então…aí está. Eu acho que pode ser plausível pelos motivos mencionados acima na sessão de diferentes bebidas/diferentes bêbados. Bebidas alcoólicas diferentes podem ter diferentes efeitos psicológicos, e combiná-las (seja pela memória sensorial ou pelos congêneres interagindo de uma maneira imprevisível) pode resultar em uma experiência alcoólica mais “confusa”. Dito isto, não tem nenhuma ciência para apoiar isso, a menos que você conte com meu experimento pessoal, o que você provavelmente não deveria fazer.

In vino veritas

Esta pode ser a lenda da manguaça mais antiga de todas. Traduzido do latim isso significa “No vinho, a verdade” e é geralmente atribuída a Plínio, o ancião, que nasceu em 23 D.C. Acreditava-se basicamente que era muito mais difícil mentir quando se estava bêbado, e que a verdade iria sair.

Dr. Thomas Kimball, que era o sócio-diretor executivo do Centro de Tecnologia do Texas para o Estudo de Vícios e Reabilitação, contou à revista Forbes que o álcool realmente diminui as inibições das pessoas, e que beber ou usar drogas em excesso pode aumentar o risco de violência e se envolver em atividades sexuais que em outra situação você não faria.

Isso significa que nós todos somos vadias violentas no fundo de nossos corações? Dr. Kimball não acredita nisso.

Eu acho que isso aumenta seu risco de ir contra seu próprio código moral. Este seria a sua verdadeira personalidade? Não. Eu diria que esse é apenas o seu lado bêbado.

Obviamente, existe muito pouca ciência para apoiar isto, mas eu concordo. Eu já vi pessoas maravilhosas fazendo coisas horríveis quando estão caindo de bêbadas. Isso significa que na verdade eles são pessoas horríveis e elas só estão escondendo isso com uma máscara maravilhosa? Não. A birita pode te levar a fazer um monte de coisas estúpidas. Além disso, sabe-se que o álcool afeta todo o seu cérebro, incluindo o hipocampo, que é a parte que está muito associada com a memória (por isso os episódios de blackout). Alguém pode propor que beber faz com que você esqueça seu verdadeiro eu. Você certamente pode se tornar alguém que você quer esquecer.

E isso conclui as lendas da manguaça dessa semana. Tem algumas boas para contar? Compartilhe nos comentários e talvez a gente faça uma segunda rodada algum dia. Até lá, passe aqui na semana que vem para outro episódio de Happy Hour.

Créditos da Imagem: Shutterstock/Alex Saberi