Marca-passos — até mesmo os menores — são pecinhas intrusivas de metal ligadas ao coração. Mas agora, cientistas estão testando alguma coisa completamente diferente: um “marca-passo biológico” foi implantado num porco. Ele consiste em um vírus modificado com um gene específico para reprogramar as próprias células do coração.

O marca-passo biológico é criado por meio de terapia genética, uma ideia bastante discutida mas que ainda precisa fazer incursões reais no campo da medicina. Se esta técnica funcionar em humanos, seria uma direção promissora para este ramo, além de uma boa alternativa a marca-passos eletrônicos em corações de fetos ou em casos de infecção.

Para entender como ele funciona, nós precisamos primeiro entender como o coração trabalha. As batidas são marcadas por um pequeno agrupamento de células marca-passo na área chamada nódulo sinoatrial. Se ele está danificado ou desconectado –como ocorre no chamado “bloqueio total do coração”–, o órgão só consegue bombear fracamente.

Cientistas pegaram sete porcos com bloqueio total no coração e injetaram uma pequena porção de vírus carregando o gene TBX-18. A adição deste gene fez com que células cardíacas normais começassem instantaneamente a bater. E elas não batiam numa frequência fixa. Quando os porcos se exercitavam, o coração acelerava. Quando descansavam, seus corações ficavam mais lentos. Mas este efeito foi apenas temporário, durando cerca de duas semanas. Os pesquisadores estão procurando agora como prolongá-lo.

Dr. Eduardo Marbán, um dos autores do estudo, trabalha nisso há mais de uma década. Lá em 2002, ele publicou um trabalho sobre o TBX-18 convertendo células em marca-passos em porquinhos-da-índia, e em 2012, uma técnica mais refinada foi descoberta. Então, de porquinhos-da-índia para porcos, quais são as novidades? Bem, esta é uma grande mudança, porque, enquanto os primeiros são ótimos animais para experimentos em laboratório, os últimos são bem próximos aos humanos. Válvulas cardíacas de porcos já são transplantadas para seres humanos, e existe uma discussão sobre usar corações inteiros em transplantes, depois de isso ter dado certo em transplantes de porcos para babuínos.

Voltando ao marca-passo biológico, a ideia de injetar um vírus pode parecer mais estranha e perigosa do que colocar um dispositivo eletrônico no coração. De certa forma, isto é verdade; a terapia genética ainda tem muitos desafios pela frente. Mas vírus já vivem conosco e até mesmo dentro de nós, incluindo aí nosso genoma: 8% do DNA humano tem origem viral. Vírus não são apenas bichinhos que nos deixam doentes — nós podemos utilizá-los de maneira bem satisfatória. [Science Translational Medicine via New York Times]