Se estamos aprendendo algo com o experimento global chamado mudança climática, é que ele traz consequências inesperadas. Por exemplo: toda a água do derretimento dos mantos de gelo estão tornando os oceanos mais pesados, tão pesados que as bases dos oceanos estão literalmente afundando. E isso pode estar bagunçando as nossas mensurações do aumento do nível do mar em escala global.

Assim como ficar sobre um trampolim faz ele afundar, colocar mais peso sobre a Terra a esmaga. Cientistas sabem disse há muito tempo. Mas uma equipe de pesquisadores queria descobrir quanto exatamente da base do oceano estava sendo esmagada por toda essa água extra do derretimento das geleiras, mudanças causadas por humanos e o armazenamento terrestre de água.

E parece que o esmagamento é tão grande que os altímetros de nossos satélites – que medem a profundidade da base do oceano em relação ao centro da Terra sem notar o que acontece com a base – podem estar subestimando o aumento do nível do mar. Isso ainda é um efeito pequeno (pelo menos por enquanto), mas pode levar a mensurações discrepantes reais para os cientistas.

“Temos há pelo menos mais de um século medidores que mensuram o nível do mar”, diz Thomas Frederikse, geocientistas da Delft University. “Você coloca um instrumento na base do oceano e ele calcula as mudanças do nível do mar de acordo com a base. Satélites orbitando a Terra medem o nível do mar pelo espaço. Queríamos analisar quão grande é essa diferença”.

Para descobrir isso, os pesquisadores fizeram muitos cálculos. Eles analisaram estimativas de modelos recentes, dados sobre a massa perdida nos mantos de gelo da Groenlândia e Antártica e mudanças no armazenamento de água em superfícies terrestre (represas, irrigações, e outras), e calcularam em equações o que poderia mostrar estimativas do nível do mar relativas (pela medida das marés) e absolutas (por satélites) em diferentes localidades da Terra.

Eles descobriram que o aumento da carga total do oceano, causada em grande parte por humanos, fez a base do oceano afundar, em média, cerca de 0,1 mm por ano entre 1993 e 2014, ou 2,1 mm durante todo o período. Isso pode não parecer muito, especialmente quando se leva em consideração que os níveis do oceano aumentaram cerca de 80 mm desde o início dos anos 1990, mas permita-me lembrá-lo que estamos falando do oceano como um todo recebendo essa pressão.

Além disso, ao somar todas essas mudanças, os autores descobriram que nossos satélites estão subestimando os níveis do mar em cerca de 8%. Assim, essa mudança pode desregular as estimativas de níveis do mar por aproximadamente 4%, porque quase metade do aumento do nível do mar vem de água adicionada, enquanto a outra metade do aumento vem de temperaturas causando a expansão da água.

“O efeito é sistemático e relativamente fácil de avaliar”, escrevem Frederikse e seus coautores no estudo recentemente publicado na Geophysical Research Letter, explicando que este pode se tornar um problema mais óbvio conforme a mudança climática progride. “Com um clima mais quente no futuro, o aumento do nível do mar induzido pelos mantos de gelo vão aumentar, e assim, a magnitude da deformação da base do oceano também”.

No entanto, em regiões em que a maior parte do gelo está derretendo – oceanos da Groenlândia e Antártica – a base do oceano está elevando conforme o peso sobre ela diminui. Inclusive, já que a maioria do gelo desaparecendo está concentrada no norte, praticamente todo o hemisfério norte está vendo uma pequena elevação da base do oceano, enquanto a diminuição se concentra no sul, particularmente no Oceano Antártico.

Entender essas mudanças regionais é importante para reconciliar mensurações do nível do mar relativas retiradas de localidades especificas em que as medidas são registradas por satélites. Frederike espera que cientistas comecem a levar o efeito em consideração para melhorar suas analises.

Para o leitor comum, no entanto, existe uma maneira simples de entender tudo isso: os humanos estão bagunçando o planeta de maneiras ainda mais profundas.

“A Terra não é uma esfera rígida, é uma bola deformada”, diz Frederikse. “Com a mudança climática, não mudamos apenas a temperatura”.