Eu juro que não queria sentar o pé no WinMo, porque a esta altura do campeonato ele já deve estar cansado. Mas por favor, Microsoft, vocês não me deixam outra escolha. O Windows Mobile 6.5 não é apenas uma decepção – ele mal parece estar finalizado.

Nós estamos de olho no Windows Mobile 6.5 – ou Windows Phone, como a Microsoft o chama de vez em quando – há meses, desde que o Jesus Diaz botou suas patinhas nele ainda em fevereiro. Nós até ensinamos você a instalar builds de desenvolvimento! A versão final que eu peguei para teste, no entanto, era praticamente idêntica às builds que vimos tantos meses atrás. Isto significa duas coisas: que nós já sabemos como ele se parecerá e como ele funcionará; e que não, não é nem perto do upgrade de que precisa o Windows Mobile para ele passar a ser remotamente interessante.

Trata-se de um update superficial e não muito meticuloso. É um produto interino e uma tentativa vã de segurar a galera cada vez menor que ainda optam pelo Windows Mobile a despeito de não estarem atados a ele de algum modo até que o tardio Windows Mobile 7 saia, seja quando for isso. E não vai rolar.

A interface
A primeira coisa que você notará sobre o Windows Mobile 6.5 é a Titanium, a nova tela inicial estilo menu. É grande e tipográfica e se parece bastante com o Zune. Um começo auspicioso, eu diria.

Cada item no menu oferece um atalho para um aplicativo, função ou widget e a maioria possui alguma espécie de capacidade de visualização: você pode folhear pelas miniaturas de fotos, ver as chamadas perdidas e ver os e-mails, compromissos no calendário e favoritos do Internet Explorer sem deixar a tela inicial. A rolagem é suave e possui uma certa inércia que o 6.1 visivelmente não tinha. Do mesmo modo, a nova tela de bloqueio traz alguma informação à superfície, mas não muito (posso adiantar que tem um texto lá, mas não o que diz o texto). Que pena que provavelmente nunca verá a Titanium, já que é quase certo que os fabricantes de handset a cobrirão com suas próprias telas iniciais personalizadas.

A segunda mudança mais óbvia é o Menu Iniciar, do qual a Microsoft é tão orgulhosa que eles exigiram que todo telefone 6.5 incluísse um botão dedicado para ele em todos os “Windows Phones”, bem estilo a Tecla Windows no PC. Novamente, isto é admirável e, mais uma vez, é suave. Isto daí, no entanto, parece mais um conceito de design do que um produto final. Por exemplo: a única ferramenta que você tem para classificar aplicativos é um comando “Mover para Cima” – nada de arrastar, nada de classificação alfabética, nada exceto este comando de menu bizarramente selecionado que faz com que o ato de organizar aplicativos se pareça com a solução de um horrível jogo de quebra-cabeça.

Além disso, não tem como se dizer quantos aplicativos você tem, nem como deletá-los, nem como dizer em qual “Página” do Menu Iniciar você está. O espaçamento entre os ícones é desajeitado e sabe aquele botão Windows? Ele não se comporta como você esperaria, abrindo o Menu Iniciar mas não o fechando. O troço todo parece bem meia boca, isso pegando leve.

Outra mudança significativa, mesmo que não exatamente adequada, é nos menus contextuais. Apesar de estarem ordenados exatamente como eram antes, agora eles são enormes e roláveis com o dedo.

As coisas vão ficando piores quando você vai além da superfície, revelando um SO que não foi fundamentalmente alterado em anos e que possui uma forte semelhança com o Windows Mobile 6.1 e uma surpreendente semelhança nada pequena com o PocketPC 2002. A nova tela inicial, Menu Iniciar, tela de bloqueio e menus contextuais são apenas o verniz, e nem é uma camada muito grossa.

As mudanças restantes à interface são sutis e projetadas praticamente apenas para tornar o Windows Mobile 6.5 suportável de se usar sem um stylus (não me interprete errado – a maior parte dos aparelhos WinMo 6.5 desgraçadamente ainda virá com um stylus). Ele não se parece exatamente com um redesenho – parece que alguém deu uma olhada no 6.1 e ajustou alguns valores. Acrescentou alguns pixels de espaçamento no menu aqui, uns gráficos plásticos chamativos ali e BUM! Eis que surge o 6.5. Pronto, vamos almoçar.

O terrível aplicativo Windows Media Player se parece o mesmo, os álbuns de fotos melhoraram apenas pela rolagem mais suave e pelo suporte de gestos básicos de movimentação e as páginas de texto, e-mail, anotações e configurações têm uma aparência chocantemente antiga e gravemente hostil a dispositivos de apontar maiores que uma caneta. Especialmente aqueles feitos de carne.

Pensando bem, após usar builds de desenvolvimento do 6.5 por alguns meses e depois mudando de volta por um tempo para o 6.1, a única coisa da qual eu senti falta foi a rolagem inercial por todo o sistema, que substitui a engine de física tosca de rolagem por algo que pelo menos se comporta de maneira previsível.

Windows Marketplace for Mobile
O Windows Mobile finalmente, finalmente possui uma loja de aplicativos – ei, rapidinho, olhe ao seu redor, tem alguém aí que ainda não tem uma? A interface é um tanto estranha, ficando em algum ponto entre a estética dos tipos grandes da Titanium e a sensibilidade seca do restante do SO, resultando em um transbordamento estranho de texto nos menus (mais ou menos como no Zune HD, só que menos bonito). Você consegue encontrar aplicativos por meio de um sistema sensível de categorias, ou buscando por ele, e baixar e instalar é tão fácil quanto apertar um botão, apesar de algumas vezes você se deparar com caixas de diálogo do instalador do aplicativo.

Eu não vou poder dar ainda uma opinião sobre as ofertas do Marketplace – ele está aberto apenas há algumas horas e os aplicativos parecem estar entrando a uma velocidade razoavelmente estável – mas as ofertas iniciais são bem parcas, incluindo apenas alguns poucos aplicativos gratuitos, praticamente todos eles da Microsoft, com seleções de alguns conhecidos desenvolvedores de aplicativos para Windows Mobile que ainda cismam em cobrar 20 dólares ou mais por aplicativos que não passariam dos 5 dólares na iPhone App Store.

Não me interprete errado, o Marketplace é uma coisa boa no sentido de forçar a queda dos preços e facilitar bastante a busca por aplicativos, mas ainda temos que ver se os desenvolvedores irão atrás dele como fizeram com a iPhone App Store ou se simplesmente o ignorarão como fizeram com o BlackBerry App World. De todo modo, este nem é um serviço exclusivo do 6.5, e praticamente qualquer aplicativo escrito para 6.5 funcionará no 6.1 e 6.0 e vice-versa. Uma vitória para o Windows Mobile, com certeza, mas não uma vitória que o 6.5 possa dizer ser sua. Mais algumas observações sobre o Marketplace:

•    Os usuários têm direito a um estorno dentro de 24h
•    Você pode navegar pelos aplicativos tanto no telefone quanto em um site na Internet
•    O 6.0 e o 6.1 terão acesso ao Marketplace em dezembro
•    O Marketplace só exibirá aplicativos que rodem no seu telefone específico
•    Os aplicativos só podem ser instalados em um armazenamento interno apesar do fato de você poder manualmente instalar aplicativos em um cartão SD sem nenhum problema.
•    As compras de aplicativos estão atadas à sua identificação no Windows Live e podem ser usadas em até cinco telefones. Parece meio tolerante demais, mas poxa, valeu!

My Phone
Outro recurso anunciado do 6.5 que também por acaso estará disponível a todo outro telefone Windows Mobile, o My Phone é um serviço de backup decentemente capaz. Nós já vimos boa parte dele antes, mas hoje há alguns novos recursos além do serviço supersimples de backup que o Jason chegou a chamar de “extravagante”.

•    Phone Wipe permite que você remotamente limpe o seu sistema
•    Locate your Phone permite que você o coloque em um mapa caso você esteja querendo saber para onde ele foi onde aquele trombadinha do seu bairro almoça
•    Você pode buscar por mensagens de texto

E eu adoro esse:

•    Você pode trocar o toque do seu telefone de silencioso/vibratório para volume total remotamente, caso você tenha perdido o seu telefone dentro debaixo do sofá e precisa que toque.

A propósito, estes extras bacanas farão parte de uma versão premium do My Phone, preço a ser divulgado. ATUALIZAÇÃO: será de graça até 30 de novembro, depois será cobrado 4,99 dólares por um acesso de 7 dias (a maior parte dos serviços premium é para emergências, então isto faz sentido). A experiência gratuita do usuário será bastante como a versão beta, ou seja, bem básica, mas útil para fazer backup de contatos, fotos e outras coisinhas atualizadas diariamente, semanalmente ou mensalmente. A interface com a Internet é bacana também – mais sobre isso aqui.

O navegador
O navegador de nome confuso Mobile Internet Explorer 6 está para o Mobile IE5 assim como o IE7 estava para o IE6 no desktop. Entendeu essa parte? Basta dizer que é um upgrade animal mas, como o IE7, que acrescentou guias e bloqueio de pop-up só uns dois anos depois de todo mundo ter fefito isso, o Mobile IE6 está pelo menos uma geração atrás dos seus concorrentes. Mas pelo menos ele acrescenta rolagem suave, zoom inteligente e um suporte (mais) completo a páginas Javascript e CSS nas quais o MIE5 costumava engasgar espetacularmente.

A renderização é boa, mas não tão boa quanto o WebKit e o navegador tem uma tendência a organizar o texto de maneira estranha, formatando as colunas de texto mais estreitamente do que deveria. E mesmo que a renderização tenha melhorado bastante – apesar de, inexplicavelmente, não a ponto de ficar como o navegador do Zune HD – a experiência ainda sofre de alguns problemas. O carregamento de páginas é lento mesmo em uma conexão Wi-fi veloz e geralmente há um espaço bem grande de tempo entre o momento em que uma página parece ter terminado de carregar e quando o navegador de fato torna-se responsivo o suficiente para se interagir com ele. Em resumo, você vai querer instalar o Opera ou o Skyfire, o primeiro por renderização mais veloz e navegação mais fácil e o segundo por melhor suporte a Flash (o IE6 inclui Flash Lite, o que é melhor que nada, mas não chega perto do malabarismo que faz o Flash completo compactado do Skyfire). E, pensando bem, um dos dois provavelmente já virá com o seu telefone de qualquer jeito, afinal, quem quer que o venda para você provavelmente quererá que você goste dele.

Logicamente, você não poderá completamente abandonar o IE, já que a Microsoft planeja usá-lo para uma nova plataforma Windows Mobile de widgets. Isto parece ser melhor do que é de fato – são apenas aplicativos de web, não widgets de desktop ou coisas do gênero, mas eles serão renderizados usando a engine do IE6 e estarão disponíveis no Marketplace, misturados com os outros aplicativos.

Desempenho
A Microsoft não está alardeando a SUPERVELOCIDADE do Windows Mobile 6.5, o que faz sentido: o 6.5 é baseado na mesma versão Windows CE (5.2) que o 6.1 e até mesmo que o 6.0. Em outras palavras, as suas entranhas são veeeeeelhas. Na prática, isto significa que a inicialização fria de aplicativos é suficientemente rápida, mas não notavelmente mais rápida que no 6.1, mesmo com hardware ligeiramente mais potente (um Touch Diamond2 para 6.5 e um Touch Pro para 6.1).

Para o Windows Mobile, a percepção da lerdeza sempre foi um problema maior que a lerdeza de fato, já que as animações espalhafatosas são raras e a maneira como os aplicativos se abrem, fecham e minimizam pode parecer um pouco tosca. A rolagem suave a navegação mais fácil pelo menos dão a impressão de que o 6.5 é um pouco mais leve e dá menos lag, mas não tem muita coisa nova rolando por baixo do capô para sustentar esta sensação.

Dito isto, eu não vejo motivo para não ser mais rápido, já que desenvolvedores de ROMs mundo afora têm extraído já há anos velocidades impressionantes  do Windows Mobile e até fizeram uns trabalhos admiráveis no pré-lancamento do 6.5.

O ponto crucial do problema
No mês passado eu fiz a review do HTC Touch Pro2. Ele era caro demais para ser recomendado, mas o seu software era uma agradável surpresa. Os menus contextuais foram trocados por botões maiores e mais aptos para os dedos; havia um lançador de aplicativos baseado em um painel; o navegador oferecido era bem bonzinho; uma certa versão possuía um substituto para o Menu Iniciar; e poxa, tinha até rolagem inercial em todos os aplicativos. O lance, no entanto, era que se tratava de um handset Windows Mobile 6.1. A HTC havia replicado praticamente todo recurso do 6.5 com os seus próprios tweaks de software e oferecido uma tela inicial muito melhor que a Titanium com TouchFLO 3D. Tudo isto antes do 6.5 sequer sair. Instale o My Phone e o Marketplace for Mobile lá e você teria dificuldade para encontrar um único motivo para atualizar para o 6.5.

Em outras palavras, os fabricantes de handsets fizeram mais nos últimos dois anos para melhorar o Windows Mobile que a própria Microsoft, o que é patético. Neste período desde que o Windows Mobile 6.0 saiu em fevereiro de 2007, a Apple lançou o iPhone – três vezes. A Palm criou o Pre, com seu webOS totalmente inovador. O Android tornou-se realidade e passou a ser algo maravilhoso. A RIM criou um touch phone e um BlackBerry OS reformado. Para estas empresas, o mundo mudou.

E a Microsoft? Eles laboriosamente supriram umas melhoras no desempenho e uma nova tela inicial no 6.1 e executaram uma vistosa plástica facial no 6.5. Foi isto o que eles fizeram para o Windows Mobile. O que é mais incrível é que o tempo que levou para o Windows Mobile 6.1 preguicosamente morfar para o 6.5, a Microsoft – a Microsoft! – projetou um dos handsets mais espetaculares que eu já vi em anos, repleto de softwares inspirados e brilhantes, um navegador decente e uma incipiente loja de aplicativos. Só um probleminha! Não era exatamente um handset, era um Zune. Eu entendo que as duas plataformas não são diretamente comparáveis e, do jeito que está, o Zune OS não funcionaria muito bem em um smartphone, mas é um gostinho de algo grandioso. E por que raios o HD tem um navegador melhor que o SO do smartphone da Microsoft? Parece até que a equipe desenvolvendo o Zune queria desconcertar os caras do Mobile, ou algo do gênero. E, para crédito deles, se era isto o que eles queriam, eles conseguiram.

Não é suficiente
A julgar pela primeira onda de handsets 6.5, o SO modificado mal será notado pela maior parte das pessoas. Interfaces alternativas como o TouchFLO e o TouchWiz permanecerão e não serão mudadas de cara, nem os aplicativos inclusos – eles são todos compatíveis. Os clientes comprarão telefones com Windows Mobile baseados na qualidade das suas interfaces de terceiros; as operadoras continuarão vendendo porque certas pessoas, presas aos seus empregadores ou a um sotware específico, precisarão dele; e os desenvolvedores de aplicativos demorarão para adentrar o Marketplace já que, convenhamos, quanto tempo estes SOs baseados no Windows CE 5 sequer têm de sobra? Será uma longa e triste espera até abril (ou – vira a boca pra lá! – dezembro), quando o Windows Mobile 7, seja lá como ele for, finalmente chegar aos telefones.

Eu adoraria pensar que o fracasso estonteante do 6.5 em inovar seja um sintoma de um projeto negligenciado – talvez a Microsoft só precisasse de algo, qualquer coisa para segurar as pessoas até o mítico Windows Mobile 7 ser lançado, seja lá como ele for. Mas como o próprio Steve Ballmer admitiu abertamente, é ainda pior: a Microsoft simplesmente correu na direção errada por dois anos, deixando todo mundo, exceto talvez a Nokia, passar por eles voando. [Microsoft]

O novo Menu Iniciar, tela inicial e tela de bloqueio pelo menos parecem que são de 2009
O navegador padrão é aceitável, quando antes costumava ser horrível
O MyPhone e Marketplace são adições muito bem-vindas e ambas exibem bastante potencial, mas ambas estarão disponíveis também em telefones pré-6.5
O núcleo do SO é praticamente idêntico ao do 6.1, e consequentemente do 6.0
Nunca se leva mais de uns poucos toques com o dedo para ir da bela interface nova do 6.5 para a antiga, quadrática e hostil aos dedos
Falando sério, me lembra o Windows for Workgroups
Após as operadoras e os fabricantes de handsets conseguirem lidar com ele (leia-se: contornar os seus problemas), ele literalmente não será distinguível do 6.1.