Em abril de 2013, visitei um prédio ocupado em Londres e fui apresentado a um grupo de ativistas políticos e hackers que trabalham para transformar a maneira como entendemos e usamos o dinheiro, visando uma reestruturação do próprio sistema financeiro e a criação de uma nova organização econômica. Formado por jovens que se conheceram no Occupy London (protesto que ocupou as imediações da catedral de St. Paul’s entre outubro de 2011 e junho de 2012), o squat fica no coração da cidade, bem próximo ao centro bancário, e se tornou o ponto de encontro informal da comunidade interessada em bitcoins e em criptomoedas na capital inglesa. Lá ouvi sobre os esforços daqueles que estão criando o ecossistema da primeira moeda digital, descentralizada, anônima e instantânea do mundo – o Bitcoin (BTC) – e como o conceito lançado por ela pode libertar o dinheiro e dar mais poder às pessoas para gerenciar suas finanças.

Era insólito ser apresentado a uma utopia com tamanho potencial transformador para a economia em um ambiente como aquele – um edifício comercial gigantesco e quase deserto, ainda com luzes e água funcionando, paredes inteiramente grafitadas e alguns gatos pingados espalhados pelas salas. “Bitcoin é um sistema econômico alternativo que usa moedas digitais e que se auto-regula com base em um sistema de mineração informatizado, criptografia de chave pública e um arquivo que registra todas as transações feitas. É uma solução para o futuro do dinheiro digital”, me explicou Amir Taaki, programador inglês que se envolveu com o sistema nos seus primórdios e era meu contato no local. De moicano em riste e vivendo apenas com o que cabe em uma mala, Taaki parecia um mensageiro improvável para a mais recente novidade econômica. Mas as aparências enganam – ele aprimorou partes do código, fundou dois câmbios e uma consultoria sobre o tema e é o organizador de uma conferência que chega à sua segunda edição em novembro deste ano.

Apesar de ainda viver seus primeiros dias e contar com um caráter experimental, a moeda vem crescendo e apresentando uma série de vantagens teóricas em relação ao sistema bancário tradicional – transferências de pessoa a pessoa sem o intermédio de bancos ou regulação central, taxas menores, abertura fácil de contas e poucos pré-requisitos para começar. Reunindo um grupo de interessados na moeda, o ambiente estava elétrico naquela noite, movido principalmente pela alta histórica da moeda hacker. Em tempos de crises como a do Chipre, onde o governo ameaçava confiscar uma parte das economias bancárias da população e usá-la para pagar a dívida de bancos, a ideia de uma moeda descentralizada e livre das garras do sistema financeiro e político ganha um interesse ainda maior.

Diversas empresas já tornam possível comprar uma grande variedade de itens com bitcoins – uma nova leva de startups já vende legalmente casas, computadores, guitarras e pizzas em troca da criptomoeda, que também pode ser trocada por prata ou ouro em câmbios especializados.  Com a maior atenção da mídia para o assunto, algumas companhias de tecnologia também se equiparam para receber pagamentos em Bitcoin – WordPress, Mega e Reddit entre elas. Atualmente, a maioria das companhias aceitando bitcoins são digitais, mas alguns (poucos) locais físicos despertam para o crescente mercado. Hoje, a moeda flutua pelo mundo digital. Mas grandes cidades já se adaptam à nova economia, e Berlim já oferece cafés, bares, restaurantes e lojas de discos que aceitam bitcoins.

Estipula-se que a experiência do Chipre e a má situação da economia espanhola aumentaram a demanda por bitcoins e foram dois fatores decisivos para a impressionante alta do valor das moedas em 2013 – durante o mês de abril, cada moeda chegou a valer US$ 266. Alguns dos que estavam reunidos comigo naquele squat puderam se tornar milionários com a atualização nos valores, quase que da noite pro dia. Posteriormente, a economia teve uma queda motivada por ataques a um site de câmbio e hoje cada bitcoin vale US$ 120, ainda assim um valor alto se pensarmos que em janeiro 1 BTC saia por US$ 13,50.

A alta no preço das moedas reflete uma maior demanda por elas, que são limitadas. Tal procura pode ser motivada por diversos fatores (maior exposição na imprensa, incerteza econômica em países europeus ou mero faro de que aquele projeto poderia se valorizar). Já a ‘quebra’ subsequente parece ter sido arquitetada, com o Mt. Gox (maior câmbio de bitcoins) tendo sofrido uma série de ataques DDoS que tinham como objetivo justamente a desestabilização do seu serviço e a queda do valor das bitcoins, que puderam ser readquiridas por muito menos e, com o decorrer do tempo, passaram a crescer novamente. Por ser puramente digital, o Bitcoin sofre de ameaças digitais: atualmente, um DDoS pode balançar a economia.

Como funciona

Para entender o básico sobre o assunto, o Gizmodo Brasil criou este infográfico para que você saiba, daqui para a frente, sobre o que este texto está falando. Ele será seu guia (clique para ampliar):

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Se para alguns se trata apenas de uma bolha e um esquema para que os usuários antigos ganhem em cima dos novos, outros enxergam no conceito “a ideia mais perigosa da internet” e um potencial para revolucionar o sistema financeiro e criar uma economia paralela, gerida para e por pessoas. O protocolo do dinheiro eletrônico peer-to-peer não depende da confiança em uma autoridade monetária central e permite transações semi-anônimas e quase livres de impostos e taxas, mesmo no caso de envios para o exterior. Em poucos segundos é possível transferir dinheiro para o outro lado do planeta, de uma pessoa para outra, sem a intermediação de bancos ou regulações governamentais. Pode parecer exagero, mas os defensores do Bitcoin defendem que o impacto social e econômico do projeto pode ser comparável ou até maior do que o da própria internet. O objetivo último é transformar a maneira como enxergarmos o que é dinheiro e os canais pelos quais ele é escoado. A ideia é potencialmente disruptiva – em uma sociedade que se organizasse em torno de um conceito financeiro como esse, não existiriam fronteiras ou intermediários entre você e seu capital, e ninguém teria a chave-mestra para a sua conta ou decidiria para quem pode ou não transferir dinheiro. Ao mesmo tempo, ninguém se responsabilizaria no caso de desvios ou problemas quaisquer, assim como nada garante que o valor da moeda se mantenha.

Bitcoins são mais ou menos como o ouro. Como o metal precioso, elas têm que ser ‘garimpadas’ na internet através de usuários de uma aplicação gratuita que libera bitcoins em troca de um esforço computacional na resolução de problemas matemáticos complexos, que ajudam a verificar e divulgar todas as transações. A rede possui um banco de dados que se expande em blocos, que são gerados mais ou menos a cada dez minutos e que contêm todas as transações realizadas – mantendo a privacidade dos usuários, as trocas ficam abertas e podem ser checadas. Trata-se de uma medida de segurança que visa impedir que uma bitcoin seja gasta duas vezes. Com cada bloco sendo gerado com base no anterior, é impossível corromper o sistema e inserir moedas ou transações falsas.

O ‘garimpo’ se dá de forma que a quantidade de fundos disponibilizada é ajustada em uma crescente previsível e controlada – apenas 21 milhões de bitcoins serão criadas, com uma escala pré-definida sobre a liberação delas até 2040 – tudo isso para evitar a versão digital do “basta imprimir mais dinheiro, oras”. Os mineradores são responsáveis por adicionar ‘blocos’ de transações na rede, ganhando por isso uma recompensa em bitcoins. Tecnicamente, qualquer um pode se tornar um minerador e ganhar bitcoins, mas com o tempo os problemas se tornam mais difíceis e apenas equipamentos especializados e de alta capacidade podem ajudar a resolvê-los. Supercomputadores são usados para isso, e assumem o posto de perfuradoras digitais. Hoje em dia, o equipamento para mineração já evoluiu para caros sistemas computacionais adaptados para competir por novas bitcoins, e já é bem difícil que um novato entre no jogo. Da escassez nasce o valor do Bitcoin – assim como o ouro, a demanda é limitada e o esforço para consegui-lo é cada vez maior.

Alguns dias depois do encontro com a comunidade Bitcoin em Londres, adquiri minhas primeiras moedas e comecei a pesquisar como tudo isso funcionava na prática. Adquirir a moeda é relativamente simples, mas todo o processo e suas diferenças para o sistema bancário tradicional podem afastar o leigo. Para quem não tem os conhecimentos técnicos necessários ou o interesse para iniciar uma operação de mineração, pode-se conseguir bitcoins ao vender serviços ou bens e cobrar na moeda, comprá-las de alguém (existem inúmeros sites para isso, como o LocalBitcoins) ou trocar euros ou dólares em câmbios especializados, sendo o maior deles o Mt.Gox, empresa japonesa que processa quase 80% das trocas. Com a popularização, novos e mais práticos meios de receber bitcoins estão sendo desenvolvidos, empresários já trabalham em caixas eletrônicos e também já existe uma versão física do dinheiro eletrônico.

Ao adquirir bitcoins, as moedas ficam arquivadas em uma ‘carteira digital’ no seu computador na forma de códigos de 64 caracteres cada. Uma das maneiras mais simples de consegui-las é com o uso de um processador de pagamentos como o BitInstant, onde você deposita dinheiro e, ao pagar uma pequena taxa, recebe o valor depositado em BTC na sua carteira digital (Bitcoin-QT ou Coinbase são boas opções). Através do programa, é possível arquivar moedas e também mandar e receber de outros, mas vale fazer um adendo: tome cuidado ao escolher as empresas ou pessoas com quem fará negócio em BTC, já que as transações são irreversíveis e a única opção no caso de algum engano é esperar que o outro lado da linha devolva os seus fundos. Se você decidir se aventurar no mundo BTC, também aconselho a leitura mais detalhada dos diversos meios para garantir a segurança da sua carteira.

Para fazer uma transferência, basta declarar a quantia através do programa escolhido, assinar digitalmente com a chave privada dada a cada endereço e digitar também o código daquele que recebe. A transação é então verificada pelos mineradores que, se aceitarem o procedimento, gravam os registros e distribuem por toda a rede. A partir desse momento, o dinheiro já está em posse da outra pessoa, como saldo disponível em sua ‘carteira digital’. Aqui, o minerador funciona como intermediário, mas nunca como regulador da moeda.

Com moedas em caixa e entendendo melhor como tudo isso se dá no mundo real, hora de explorar as origens e o potencial da moeda hacker.

Os primórdios

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A ideia de uma moeda descentralizada começou a ser discutida por membros de uma lista de emails de interessados em criptografia e foi concretizada por um programador de nome “Satoshi Nakamoto”, que comentou o conceito em um paper publicado em 2008 e no ano seguinte criou o código que suporta o sistema. Existem muitos rumores sobre a identidade de “Satoshi”, nenhum confirmado. Em todas as suas comunicações públicas, o hacker usou serviços de email de difícil monitoramento e conseguiu manter-se privado. O pouco que se sabe é que ele surgiu repentinamente em discussões online ao divulgar a pesquisa que originou o protocolo Bitcoin, e a partir de 2008 escreveu diversas mensagens – em inglês sem falhas, alternando o uso de termos britânicos e norte-americanos – conclamando que voluntários ajudassem a desenvolver o que seria uma moeda imune a banqueiros e políticos.

Em um post publicado pela P2P Foundation em 2009, onde Nakamoto é identificado como sendo um homem de 38 anos do Japão, ele explica a motivação por trás do projeto: “A raiz do problema com a moeda tradicional é que ela precisa de muita confiança em outros para funcionar. Precisamos de confiança em um banco central para que ele não desvalorize a moeda, mas a história das ‘moedas fiat’ (respaldadas por governos e não pela paridade com o ouro) mostra inúmeras violações de confiança. Os bancos devem ser confiáveis para manter o nosso dinheiro e transferi-lo eletronicamente, mas o emprestam em bolhas de crédito com apenas uma fração de reserva. Temos que confiar neles com a nossa privacidade, confiar neles para não deixar os ladrões de identidade drenarem as nossas contas. Com moedas com base na criptografia, sem a necessidade de confiar em um intermediário ou em terceiros, o dinheiro se torna seguro e as transações sem esforço”.

A mensagem é clara: Em vez de confiar em governos, bancos centrais ou instituições de terceiros para manter o valor da moeda e garantir transações, a confiança do Bitcoin seria na matemática (‘Vires in Numeris’, como diz seu moto em Latim que significa ‘força nos números’).

Em 3 de janeiro de 2009, Nakamoto colocou o código em ação e garimpou ele mesmo o primeiro bloco de 50 moedas, conhecido na comunidade como o “genesis block”. Junto com os dados liberados pela primeira ação do sistema, ele escreveu uma linha de texto com a seguinte mensagem: “The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks”, uma referência a um jornal inglês que publicava a notícia de mais um político que se desdobrava para salvar bancos falidos. Em outro trecho atribuído a ele, sua intenção política fica ainda mais nítida: “Sim, [não resolveremos problemas políticos apenas com a criptografia], mas podemos ganhar uma grande batalha e expandir um novo terreno para a liberdade por vários anos. Governos são bons em cortar as cabeças de redes centralmente controladas como o Napster, mas redes puramente P2P como Gnutella ou Tor parecem estar se mantendo bem”.

Nos primeiros dias do Bitcoin, Nakamoto se engajou em discussões com desenvolvedores, fez alterações na programação e se mostrava ativo em fóruns online dedicados a moeda. Em 2011, quando o conceito de uma moeda descentralizada se disseminava e começava a criar as bases de uma contraeconomia na internet, Nakamoto teria enviado um email para um hacker amigo e dito que passaria a trabalhar em outros projetos. A partir daí parou de dar notícias e simplesmente desapareceu, sem nunca revelar quem era.

Especialistas em código opinam que, pelo seu trabalho com o protocolo Bitcoin, é possível deduzir que ele não seja um programador profissional, mas talvez um acadêmico. Alguns acreditam que Nakamoto possa ser Gavin Andresen, atual desenvolvedor-chefe da Bitcoin Foundation, organização criada em 2011 para criar padrões para o sistema open source e divulgá-lo – procurado pela reportagem, Andresen não respondeu nossos vários pedidos de entrevista. O sociólogo Ted Nelson, criador do conceito de ‘hipertexto’, apostou recentemente em Shinichi Mochizuki, um excêntrico matemático japonês conhecido por ter resolvido a conjectura ABC, um dos problemas mais complexos da matemática. Na comunidade Bitcoin, uma frase-resposta comum para a pergunta “Você é Satoshi Nakamoto?” é “Não, mas se fosse também não diria”.

O mais provável, no entanto, é que Satoshi seja não um, mas vários. Dado o poder do projeto e os interesses que ele toca, não seria uma má ideia um grupo se proteger através de um conveniente pseudônimo. Em japonês, ‘Satoshi’ significa ‘pensamento claro’ ou ‘sábio’, ‘naka’ é ‘dentro’ e moto ´fundação’: ‘Pensando claro dentro da fundação’. Além disso, existe também uma brincadeira com uma campanha que ficou conhecida como ‘Find Satoshi’, em que uma empresa inglesa de games decidiu testar a teoria dos seis graus de separação (que diz que qualquer um está sempre a seis pessoas de distância de conhecer qualquer outra pessoa) e propôs que a internet achasse um homem tendo apenas sua foto e primeiro nome – ‘Satoshi’ – como informações. Assim como no jogo, Nakamoto pode estar próximo e onde menos esperamos.

O potencial político

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Mas, convenientemente para o desaparecido criador do software de código aberto, a própria comunidade nascente de usuários da criptomoeda se apoderou do projeto e passou a criar melhorias no protocolo e uma série de serviços que passaram a movimentar uma nova economia baseada nela. Em seus primeiros dias, o conceito de uma moeda descentralizada, baseada em criptografia e relativamente anônima, agradou o movimento hacker e grupos políticos de tendências anarquistas ou libertárias, que passam a adotá-la.

A primeira transação envolvendo a moeda foi feita em janeiro de 2010, com uma pizza que valia US$ 25 custando 10 mil BTC – pelos valores de hoje, nada menos que US$ 1,220,000.

Com o tempo, o dinheiro open source passou financiar uma economia que nascia por trás dos ‘onion-routers’ (softwares que permitem a navegação anônima, como Tor) e da chamada deep web, o lado obscuro da internet. O interesse inicial focava no caráter ‘anônimo’ e descentralizado do novíssimo dinheiro digital, que possibilitaria o financiamento de ideias que não agradam a elite financeira e política. Tendo sido bloqueado de receber doações por vias como PayPal ou MasterCard por pressão do governo dos EUA, em junho de 2011 o Wikileaks passaria a receber doações através de bitcoins, divulgando ainda mais o conceito. Em 2011, em uma conversa com o ex-CEO do Google Eric Schmidt, Julian Assange se mostra empolgado com o tópico e explica suscintamente para o desinformado executivo: “É dinheiro, mas sem Estado”.

Outro entusiasta do potencial político e descentralizador das bitcoins é Rick Falkvinge – criador do primeiro Partido Pirata, o sueco, e representante eleito do Parlamento Europeu, com quem conversei por telefone. Ele destacou os três pontos que acha mais importantes no tema Bitcoin:

Existem três conceitos fundamentalmente novos que, vistos de forma conjunta, podem se tornar revolucionários. O primeiro é o valor da utilidade. Bitcoin permite que você transfira o valor de um copo de café para o outro lado do planeta instantaneamente, com poucas taxas. Apenas nesse ponto, já está pelo menos 40 anos a frente de todos os bancos comerciais. O segundo é o valor comercial. O pagamento em Bitcoin permite que o setor de varejo se desvie dos cartões de crédito e das taxas bancárias, podendo com isso até dobrar a sua margem de lucro. Essa economia acabará sendo repassada ao consumidor final. O terceiro é o valor político. Não há banco central ou alguém com autoridade para mandar na sua conta bancária e planos futuros. O dinheiro é sua propriedade e ninguém pode impedir que você mande para quem quer que seja.

O interesse político no tema se torna óbvio, por exemplo, quando olhamos os convidados de uma conferência especializada em Bitcoin que acontecerá ainda neste ano na Áustria, a UnSystem, organizada por Amir Taaki: entre os palestrantes estão a islandesa Birgitta Jonsdottir e a sueca Amelia Andersdotter (representantes do Partido Pirata), Richard Stallman (inspirador do movimento do software livre), o estudante Cody Wilson (criador das armas impressas em 3D, em grande parte bancadas por bitcoins), o ‘cypherpunk’ Jacob Appelbaum (colaborador do Wikileaks e do Tor e já apelidado de ‘o homem mais perigoso do ciberespaço’), entre outros. Toda essa gente se atraiu pelo projeto Bitcoin por conta do seu potencial anarquista-libertário de livrar as finanças pessoais dos bancos e da influência de governos e criar um mercado inteiramente desregulado e incontrolável do ponto de vista técnico, um ideal nascido junto com a moeda nos seus primórdios na subcultura hacker e da criptografia e que parece ser o foco da comunidade de interessados na Europa.

Com a disseminação da moeda, os ideais desse primeiro grupo de apoiadores inevitavelmente se choca com os interesses dos grandes capitalistas que agora investem no Bitcoin e que possivelmente trabalharão pela ‘domesticação’ do projeto, entre elas importantes fundos de investimento dos Estados Unidos e empresários como Tyler e Cameron Winklevoss, famosos por terem sido passados para trás por Mark Zuckerberg no início do Facebook e que agora apostam pesado no futuro da moeda. Estima-se que os irmãos sejam donos de ao menos 1% das bitcoins em circulação.

No entanto, é bom lembrar que a essa altura, apesar do hype na mídia e da alta do preço, o mundo real da economia ainda vê o Bitcoin apenas como brincadeira de criança. O alcance da criptomoeda ainda é minúsculo, com seu US$ 1 bilhão representando uma parte ínfima perante, por exemplo, a economia de US$ 16 trilhões dos Estados Unidos ou até mesmo perto dos pouco mais de US$ 2 trilhões representados pela economia brasileira.

Economia do anonimato

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Um atrativo para alguns, a falta de uma autoridade central e a desregulação também atraiu criminosos e negócios ilegais para o Bitcoin, criando uma ‘economia do anonimato’. Se por um lado a relativa proteção da plataforma permite doações para causas políticas censuradas por poderosos e cria as bases de novas possibilidades econômicas, por outro financia atividades como a contratação de assassinos de aluguel, contrabando, compra de armamentos e drogas. Os simpatizantes argumentam que tudo se faz com Bitcoin pode ser feito com dinheiro – o que é verdade. E, apesar de alardeado, o anonimato no sistema Bitcoin é relativo – contestado por trabalhos acadêmicos que encontraram brechas possíveis para a identificação das partes da negociação –, mas ainda assim segue como um dos principais atrativos para a plataforma.

Dentro do sistema Bitcoin, o usuário é identificados somente pelas sua chave-pública, e aquele que quiser descobrir sua identidade terá que associar tais chaves e seus usuários, usando informações externas à rede e talvez captadas em câmbios (que pedem informações pessoais para o cadastro). É difícil identificar alguém que usa a moeda e se protege adequadamente usando softwares anonimizantes, mas não totalmente impossível, já que as transações realizadas são públicas. O protocolo tenta evitar isso ao permitir que seus usuários gerem quantas chaves-públicas precisarem.

Refletindo a relativa segurança do Bitcoin, o mercado de drogas ilegais provavelmente significa o maior destino dado às moedas ainda hoje, em tempos de bolha e altos investimentos de executivos no dinheiro digital. O principal exemplo de sucesso é o Silk Road, o eBay do comércio de drogas. Permitindo que usuários anônimos comprem e vendam substâncias que vão de remédios tarja preta ao mais puro LSD, o site – acessível através do Tor e sempre migrando de endereço – aceita apenas BTC em troca dos seus produtos, e de acordo com um estudo publicado em 2012 é o destino de pelo menos 20% das moedas trocadas no Mt. Gox (maior dos câmbios da criptomoeda). Vale lembrar também que pelo menos uma pessoa já foi presa com a acusação de comprar e vender drogas pelo Silk Road. Um australiano de nome Paul Leslie pode enfrentar até cinco anos de cadeia após ser pego com quase 50 gramas de MDMA e 14.5 gramas de cocaína na sua casa. O maior erro de Leslie foi ter dado o próprio endereço para a entrega – falha humana, não do sistema.

Ao tocar na relação entre o Bitcoin e o mercado de drogas cabe evitar o sensacionalismo. Basta pensar nas proporções: o comércio de drogas ilegais através de mercados como Silk Road, apesar de crescente e recentemente avaliado em cerca de US$ 15 milhões em transações anuais, é ínfimo frente aos mais de US$ 400 bilhões anuais estimados para representar o tráfico de drogas global. E a própria busca do Bitcoin por reconhecimento pode ameaçar as ‘startups do crime’ – embora seja difícil evitar que essa ou outra moeda, baseada em criptografia ou não, seja usada para fins escusos.

Outro capítulo à parte é a lavagem de dinheiro, imensamente facilitada através do protocolo semi-anônimo e já alvo de tentativas de regulação nos Estados Unidos, onde já se força aos câmbios de Bitcoin as mesmas regras pelas quais respondem empresas como Western Union. Em março de 2013, o órgão responsável por combater a lavagem de dinheiro nos EUA passou a aplicar aos câmbios uma série de requerimentos de identificação para transações acima de US$ 10 mil e começou a investigar mais de perto as companhias responsáveis pelas transações.

É bom frisar que as regulações miram os câmbios – como o Mt. Gox, que está sendo investigado e que já teve algumas de suas contas congeladas – e não o sistema Bitcoin em si, que continua intacto. Uma vez que o dinheiro já passou para bitcoins, é difícil ligá-lo ao seu dono por conta dos diversos softwares disponíveis para ‘anonimizar’ as moedas. Um exemplo é o Blockchain, que oferece trocas com bitcoins “anonimizadas” cobrando uma taxa de 0,5% e deleta qualquer arquivo com a transação em até 8 horas.

O tema é delicado e novos desdobramentos devem acontecer em relação a isso nos próximos meses, já que o governo norte-americano parece estar abrindo os olhos para os novos meios de lavar dinheiro na era digital. Isso fica evidente com o fechamento do câmbio de moedas digitais e sistema alternativo de pagamentos Liberty Reserve, que supostamente movimentou mais de US$ 6 bilhões em 55 milhões de operações que serviram as mais variadas áreas – hackers criminosos, sindicatos internacionais do crime, tráfico de drogas e armas, pornografia infantil e tráfico humano. É possível que esse ‘público’ migre para o Bitcoin ou outras criptomoedas, atraindo ainda mais tentativas de regulação governamental.

De qualquer forma, é interessante pensar nisso fugindo do tom alarmista. Mover grandes quantidades de bitcoins para fora do sistema é algo bastante complexo – se você tentar cambiar por dinheiro ou comprar um bem muito caro, a transação ficará gravada – e o mesmo acontece com tentativas de trocar quantidades muito grandes de dinheiro por moedas digitais. Logo, se o Bitcoin permite uma lavagem de dinheiro mínima para o cidadão comum ou para o pequeno traficante que usa o Silk Road, grandes esquemas quase certamente serão flagrados.

Popularização e futuro das criptomoedas

bitO problema é que, por mais que se tente, será praticamente impossível regular o sistema que possibilita a existência do Bitcoin, por conta do precedente técnico e pelo conceito abertos pelo protocolo. É possível e provável que certos governos ou empresas tentem paralisar a rede, seja por meio de regulamentação ou ataques ao sistema, mas destruí-la completamente parece fora de questão.

Basta pensarmos em exemplos como o compartilhamento de música e filmes na internet. O precedente técnico que possibilitou a troca de arquivos entre pessoas sobreviveu – e evoluiu – mesmo contra interesses poderosos da indústria cultural, e após anos de ataques vindos dos seus grupos de lobby e governos. O mesmo pode acontecer se tentarem enquadrar a Bitcoin nos padrões convencionais – mesmo que o controle seja possível, nada impedirá a criação de outras moedas em moldes semelhantes ou que vão além do que temos atualmente.

Alguns desses modelos já estão sendo desenvolvidos, como o das Litecoins (que espera se tornar a ‘prata’ para o ‘ouro’ do Bitcoin e substituí-lo em caso de instabilidades) ou PPcoins. Grandes empresas e investidores do mercado de tecnologia também já abriram o olho para o nicho das moedas alternativas, com fundos de investimento específicos para negócios relacionados ao Bitcoin sendo abertos e com o Google financiando um sistema alternativo, o Ripple, criado por uma empresa chamada OpenCoin e tocada pelo fundador do câmbio Mt.Gox. Pode ser que esses novos projetos se mostrem tecnicamente mais confiáveis que o Bitcoin e que ajudem na popularização de trocas financeiras baseadas em criptografia, mas não é certo que eles conseguirão angariar uma comunidade tão engajada.

É muito possível que, no futuro da era digital, a organização econômica passe pelos desenvolvimentos de quem acreditou e possibilitou a existência da moeda hacker; e que o dinheiro do futuro se pareça, ao menos um pouco, com o modelo descentralizado iniciado pelo Bitcoin.

Assim, apesar de promissor, o Bitcoin ainda não está pronto para o horário nobre ou para o uso no dia a dia. Mas suas futuras encarnações ou substitutos terão enorme potencial para isso. Por enquanto, questões que passam por segurança e pelo número de comércios que atualmente aceitam a moeda impedem um uso mais disseminado. Mas o que não falta ao projeto é potencial para crescer ainda mais e se aprimorar.


Rafael Cabral tem 25 anos e é um jornalista interessado na intersecção entre internet e política. Iniciou sua carreira como repórter do caderno Link, n’O Estado de S. Paulo, e desde então já publicou matérias em diversos meios, quase sempre relacionadas a tecnologia. No último ano esteve flanando por Londres, onde conheceu a galerinha maneira do Bitcoin.

Fotos por Zach Copley/Flickr/Creative Commons.