Luciana Fujii é engenheira de software e desenvolvedora GNU/Linux. Atualmente, ela trabalha na Gnome Foundation. Leia nossa conversa com a Luciana sobre a mulher no mercado de TI, os desafios que elas enfrentam o que precisa mudar.

 

Desde pequena você já demonstrava interesse por tecnologia? Quando você decidiu que trabalharia com isso no futuro?

Eu não lembro de nada especial com relação a tecnologia na minha infância. Eu lembro que eu gostava de jogos de lógica e quebra-cabeças.

Decidi fazer meu ensino médio junto com um curso técnico, e escolhi Informática Industrial. Eu não sabia exatamente o que seria o curso, mas tinha certeza que queria algo na área de exatas, pois gostava de usar computadores e de matemática. Gostei do curso, mas na época do vestibular tive dúvidas entre seguir na área ou fazer outros cursos na área de exatas.

Você sofreu alguma espécie de pressão social ao escolher sua carreira? Dos seus pais, dos seus amigos? Alguma pessoa próxima estranhou a sua escolha por se tratar de um mercado tido como masculino?

Meus pais sempre apoiaram minha escolha, ambos fizeram curso técnico em eletrônica e áreas de tecnologia sempre foram valorizadas por eles. Talvez a pressão deles tenha sido a favor dessa área. Houve um professor do curso técnico que tentou me convencer a ir para a área de biológicas, porque eu “tinha cara para isso”, mas era só um professor sem muito bom senso. Quem escuta isso deve achar que eu não estava indo bem no curso, mas na verdade estava indo muito bem, não tinha motivo nenhum pra ele sugerir que eu trocasse de área, especialmente pra uma área tipicamente com mais mulheres.

Você fez uma faculdade relacionada com tecnologia? Como era a questão de você ser mulher durante o curso? Tinha outras mulheres, como era o tratamento dado a você? Era diferenciado de alguma forma, positiva ou negativa?

Fiz Ciência da Computação na UFMG. Minha turma teve 6 mulheres entre 40, o que era um recorde, a maioria das salas tinha menos mulheres. As mulheres acabam chamando atenção, sabíamos quem eram quase todas as mulheres do curso, todos sabiam. Havia sempre a impressão de que o seu desempenho refletiria em como as outras pessoas veem o desempenho das mulheres em geral na área. Um colega uma vez insinuou que eu não precisava me esforçar porque eu era mulher, eu sempre achei o contrário — e acho que ele estava com inveja e se sentiu ameaçado por eu ser mulher. Mas de forma geral não tive problemas de verdade na faculdade além de comentários desse tipo. Até hoje considero a UFMG e os ambientes ligados a ela uma das melhores no quesito respeito as mulheres dentro da área.

Para você, o preconceito contra mulheres no mercado de tecnologia é uma realidade? Está melhorando? Você já sofreu preconceito no exercício do seu trabalho?

O preconceito na área é uma realidade sem nenhuma dúvida. Eu acho difícil saber se está melhorando. Por um lado, o problema está ficando mais visível, tem mais pessoas discutindo e mobilizando discussões e programas pra resolver as barreiras que mulheres enfrentam na área. Ao mesmo tempo, outras pessoas se sentem ameaçadas ou injustiçadas por esses movimentos e aí vem uma maior perseguição de mulheres que se destacam e que falam sobre esse problema e um enrijecimento na posição de pessoas preconceituosas. Acho que é importante continuar o esforço e que com o tempo eles darão frutos, mas na situação atual é complicado avaliar.

Sim, já sofri preconceito. Os piores casos não partiram de colegas de trabalho nem clientes, mas sofri preconceito ao participar de comunidades online relacionadas ao meu trabalho, recebi e-mails e mensagens de assédio apenas por participar de fóruns públicos, fui atacada, tratada com desrespeito e desconsiderada por ser mulher.

Quanto a meus colegas de trabalho, o que mais aconteceu foram colegas homens me tratarem com condescendência, assumirem que eu sou incompetente até eu provar o contrário e fazerem piadas machistas. Acredito que muitas dessas minhas experiências não são exclusividade do mercado de tecnologia, mas do mercado de trabalho em geral no Brasil.

Você poderia citar práticas preconceituosas que você acredita que sejam constantes no mercado de tecnologia? Na sua opinião, como essa questão poderia ser trabalhada? Como as empresas e funcionários poderiam contribuir para que isso acabe?

Acredito que o problema é que a nossa sociedade é preconceituosa. As empresas não têm objetivo de discriminar mulheres, mas as decisões são tomadas por pessoas, o julgamento de quem é competente, quem merece aumento, quem deve ser contratado, demitido, se uma apresentação é ofensiva ou não. Essas pessoas, mesmo que não saibam, carregam preconceitos contra mulheres, e as discriminam, resultando em menores salários, menos promoções, ambiente de trabalho desfavorável etc.

As empresas e as pessoas precisam fazer um esforço consciente para acabar com o preconceito. Algumas sugestões: oferecer treinamento aos funcionários para que esses reconheçam e evitem preconceitos; tornar o ambiente de trabalho saudável para minorias, livre de assédio; lidar de forma justa com casos problemáticos; promover mais mulheres; não se calar quando injustiças acontecem com terceiros. Existem instituições que oferecem consultoria para empresas que se interessem em diminuir o preconceito contra mulheres.