Depois de ser invadida e ter toneladas de dados e informações sigilosas roubadas (e algumas, já publicadas), a Sony Pictures cedeu à pressão e cancelou o lançamento do filme A Entrevista, apontado por muitos, inclusive os próprios hackers, como motivador do ataque digital. Em meio à polêmica algumas figuras, incluindo Paulo Coelho, se ofereceram para bancar a exibição do longa e, se for o caso, lidar com a ira da Coreia do Norte.

O envolvimento da Coreia do Norte, apontada por “fontes próximas à investigação dos EUA” como tendo um papel central no caso, ainda não foi confirmado, mas o caso já é tratado como incidente diplomático. Embora existam argumentos que colocam em dúvida a participação do país liderado por Kim Jong-Un, as mensagens dos hackers dão a entender que alguém ficou muito irritado com o plot de A Entrevista, comédia estrelada por Seth Rogen e James Franco que conta a execução de um plano para assassinar o líder norte coreano.

A última, aliás, meio que parabeniza a Sony Pictures pelo cancelamento da exibição do filme nos EUA – sem deixar de, claro, dar aquela ameaçada de praxe:

Foi muito sábia a decisão de vocês em cancelar o lançamento de a entrevista. Isso será útil a vocês.

Ainda temos dados sensíveis e privados. Garantimos a segurança dos seus dados, a menos que causem novos problemas.

A mensagem acima foi obtida por Brian Stelter, da CNN, e teria sido enviada a executivos da Sony.

A decisão de cancelar a exibição de A Entrevista está sendo duramente criticada lá fora. Alguns sugerem, como medida alternativa e uma forma de não se curvar às exigências dos hackers terroristas, que a Sony Pictures libere o filme por streaming. Outros, ofereceram uma grana ao estúdio para comprar os direitos e veicular A Entrevista por conta própria. Começando pelo escritor brasileiro Paulo Coelho:

Em outra mensagem no Twitter, o Mago deu um prazo para a Sony responder e reforçou a oferta dizendo que, mesmo sendo uma quantia ínfima perto do que o filme arrecadaria, é uma forma de dizer NÃO às ameaças terroristas.

Outro que se solidarizou foi George R. R. Martin, escritor que assina As Crônicas de Gelo e Fogo, livro que deu origem à série da HBO Game of Thrones. Ele também se manifestou sobre o cancelamento. Declaradamente “puto” (de verdade, tem um emoticon que indica o humor dele no rodapé do post), Martin chamou a Sony de covarde e agradeceu que seus executivos não eram vivos quando Chaplin rodou O Grande Ditador, filme que tirou um sarro de Adolf Hitler em plena II Guerra Mundial.

Para ele, a questão não é se o filme é bom ou o próximo ganhador do Framboesa de Ouro:

Eu não vi A ENTREVISTA. Não tenho ideia se o filme é bom ou ruim. Talvez seja hilário. Talvez seja estúpido e ofensivo e ultrajante. (Na verdade, estou quase certo sobre a parte do “ultrajante”.) Talvez seja tudo isso.

Esse não é o ponto, porém. Seja ele o próximo CIDADÃO KANE ou o próximo PLANO 9 DO ESPAÇO SIDERAL, me surpreende que um grande filme de Hollywood possa ser destruído antes do lançamento por ameaças de uma força estrangeira e hackers anônimos.

Martin, que tem um cinema em Santa Fé, Novo México, também deixou abertas as portas do local para a exibição de A Entrevista.

Até a Gawker, que publica o Gizmodo e outros blogs nos EUA, se ofereceu para exibir o filme em Nova York. Não é por falta de sala, nem de gente disposta a ignorar as ameaças de ataque terrorista, que A Entrevista não será exibido. Só que tudo isso depende do aval da Sony Pictures, e do jeito que o estúdio está assustado com a repercussão do vazamento de suas informações mais sigilosas, que vão de práticas de segurança assustadoramente ruins a segredos corporativos, inclusive de outras áreas da Sony, como a Mobile, é pouco provável que essa decisão seja revertida. [Gizmodo US, Zero Hora]

Foto do topo: nrkbeta/Flickr