O tablet Microsoft Courier morreu uma morte triste, que esteve em parte coberta em mistério. Agora a Cnet descobriu a história completa, que culpa o fim deste promissor conceito de tablet na burocracia da Microsoft, no medo em não agradar a base empresarial de clientes, e na lealdade obstinada ao Windows.

Desde que nós descobrimos o projeto inovador de tablet há dois anos, houve muita especulação sobre o porquê do projeto ter sido abruptamente interrompido, mas houve poucas provas. Agora, Jay Greene na Cnet, que conversou com 18 pessoas diretamente envolvidas com o projeto, tem os detalhes. No auge do seu desenvolvimento, havia 130 funcionários trabalhando no Courier. Muitos deles sentiram que estavam criando algo grande, e estavam perto de inventar um produto completamente único. Eles trabalhavam internamente e com fabricantes parceiras para desenvolver diversos protótipos, cada um com diferentes funções, que foram enfim unidas em um só dispositivo.

“Não era tecnologia presente hoje nas lojas”, disse um membro da equipe do Courier. “Não existe um produto comercial hoje que corresponda às especificações que tínhamos para ele. Ele era bastante exigente e inovador, e nenhum parceiro tinha todas as peças.” (…) “Estávamos muito perto de algo realmente grande”, disse um membro da equipe do Courier.

O gênio J. Allard queria criar um produto que não fosse pensado para agradar ao mundo empresarial, e até mesmo consumidores em certo nível, focando nas pessoas que queriam, acima de tudo, criar. As “típicas” tarefas de produtividade eram secundárias.

Mas o dispositivo não era pensado para substituir o computador: ele foi feito para complementar PCs. Usuários do Courier não iriam querer ou precisar de um aplicativo de e-mail cheio de funções, como o Microsoft Outlook, que os permitisse mudar a organização dos e-mails na caixa de entrada para modo conversa, ou que tivesse suporte a leitura e escrita de e-mails offline. A chave do Courier, dizia a equipe do Courier, era seu foco em criação de conteúdo. O Courier era para os criativos, um gadget no qual arquitetos pudessem começar a esboçar projetos de edifícios, ou escritores pudessem começar a rascunhar documentos.

De acordo com Greene, este foi um dos motivos pelos quais a Microsoft ficou receosa e cancelou o projeto. Quando perguntaram a opinião de Bill Gates, ele teve dificuldade em entender o conceito do Courier, enquanto outros se preocupavam em perder o mercado corporativo, que iria querer familiaridade e funções de segurança acima de tudo. E então havia o chefe da divisão Windows, Steven Sinofsky, que hoje trabalha no Windows 8.

Sinofsky, de acordo com todos os relatos, não gostava do projeto porque não correspondia a seus planos para tablets com o Windows 8, que ainda demoraria anos para ficar pronto. A opinião de Gates e a resistência de Sinofsky pesaram bastante na decisão de Steve Ballmer, CEO da Microsoft, de matar o Courier.

Pelo visto, a Microsoft preferiu continuar com seu modelo de OS para desktop, oferecendo seu software para o máximo de fabricantes possível, em vez de cultivar um só produto focado, e criar uma base de usuários devota para ele. Como a Cnet bem observa, o Courier tinha uma versão modificada do Windows, que poderia ser atualizado de forma mais ágil e adaptável. Com o Windows 8, ela fica presa a um ecossistema muito maior de dispositivos, e demora mais para atualizar a plataforma com novas funções – a Microsoft lança um novo Windows a cada três anos. Vale notar, no entanto, que mesmo o iOS não teve mudanças tão radicais desde sua primeira aparição em 2007.

J. Allard e Robbie Bach, da divisão de entretenimento e dispositivos, deixaram a Microsoft depois que o Courier foi cancelado – e todos os sinais apontam para o motivo ser este. E agora a Microsoft está prestes a lançar o Windows 8 com sua interface de tablet. Apesar de ser difícil justificar a viabilidade financeira a curto prazo do Courier, a resistência da Microsoft em se arriscar e de fato inovar é um triste fato, e que pode se repetir no futuro.

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