Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, anunciou recentemente que a rede social estaria finalmente prestes a receber uma nova forma de interação além do botão “curtir”. De acordo com Zuckerberg, essa função está há anos entre as mais requisitadas pelo público do Facebook.

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Apesar de os comentários do CEO sugerirem que a nova forma de interação provavelmente servirá para expressar simpatia ou empatia — em vez de um simples botão de “não curti” — os usuários da rede social receberam a notícia com grande entusiasmo.

Mas por que estaria a rede introduzindo um novo botão agora, após anos de resistência corporativa? Uma explicação pode ser a mudança de perfil dos usuários do site. O Facebook está cada vez mais se tornando uma tecnologia usada por adultos, e não adolescentes vulneráveis.

Um botão “não curti” seria negativo demais

Enquanto os usuários do Facebook expressaram querer um botão de “não curti” por muitos anos, a rede social resistiu em criar isso porque não queria, nas palavras de Zuckerberg, “transformar o Facebook em um fórum onde as pessoas estariam votando negativamente e positivamente nas postagens dos outros”. Como ele explicou:

Você não quer passar pelo processo de compartilhar algum momento que é importante a você… e então ter alguém votando negativamente nele. Não é isso que estamos aqui para construir.

Em outras palavras, o Facebook quer manter a comunidade em um tom positivo; ele não quer o tipo de engajamento que prospera em sites como o Reddit — positivando e negativando postagens nas páginas, trollando e expondo críticas.

Ao limitar a habilidade dos usuários de expressarem emoções negativas com um único clique, o Facebook tenta criar um espaço emocionalmente seguro, uma consideração importante quando muitos dos usuários são adolescentes, cujos pais estão preocupados com problemas como o bullying virtual.

Além disso, ao evitar a opção de ter o botão “não curti”, o Facebook cria um ambiente atraente aos anunciantes, que não gostariam de ver suas marcas recebendo votos negativos.

E o botão “curtir” tem um papel importante na economia do Facebook. A decisão dos usuários de “curtir” uma marca, produtos, artistas e outros itens serve como uma valiosa peça de informação que o Facebook pode vender aos anunciantes, e não é claro como a informação gerada pelo botão “não curti” seria usada.

O usuário médio do Facebook está mais velho

Entretanto, os usuários do Facebook – e as atividades deles – mudaram, e a motivação por trás do botão “não curti” evoluiu.

Quando o Facebook começou em 2004 como uma rede de alunos de Harvard, basicamente todos os usuários tinham entre 18 a 22 anos. Depois de expandir para o ensino médio em 2005, a rede social ficou ainda mais jovem.

Entretanto, uma vez que o Facebook abriu as portas para todo mundo com uma conexão com a internet em 2006, usuários mais velhos começaram a entrar na plataforma. Hoje, a grande maioria de usuários adultos online estão no Facebook, e existem evidências que usuários mais novos estão abandonando a rede.

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Dados do Pew Research Center ilustram isso. De todos os usuários da internet, o Facebook é, com uma grande vantagem, a plataforma de rede social mais popular; ela atrai mais de um bilhão de visitas por dia. Entretanto, usuários mais velhos estão mais presentes que usuários mais novos: 61,9% dos usuários do Facebook tem hoje mais que 25 anos.

Além disso, uma pesquisa recente do banco de investimento, Piper Jaffray, e de Daniel Miller, um pesquisador da Universidade College London, mostra que jovens adolescentes estão abandonando o Facebook aos montes. Conforme pais e avós se juntam à rede, adolescentes e jovens começam a sair dela, transferindo suas atividades em redes sociais para o Instagram ou para o Snapchat.

Como resultado dessa migração, o feed de notícias do Facebook mudou; em vez de fotos de festas, temos fotos de bebês. Em vez de compartilhar fofocas do colegial, usuários compartilham as últimas notícias do debate político mais recente.

O Facebook lê as notícias

Conforme a idade demográfica dos usuários do Facebook muda, a companhia começa a focar em áreas que são de grande interesse para usuários mais velhos — em particular, notícias.

O Facebook já se estabilizou como um portal onde as pessoas podem acessar notícias. De acordo com a Pew, 30% dos adultos americanos recebem as notícias pelo Facebook, excedendo os 8% que as recebem pelo Twitter e os 3% que as recebiam pelo LinkedIn, em 2014. (Isso tudo, entretanto, é ainda muito menor que os 87% dos americanos que recebem as notícias pela TV e os 65% que as recebem pelo rádio.)

Sabemos por anos de pesquisa de organizações como o America Press Institute que, de todas as categorias, públicos mais velhos estão mais interessados em notícias que os jovens. A proeminência do Facebook como um portal de notícias pode ser entendida como uma consequência do crescente número de usuários mais velhos.

Os usuários do Facebook compartilham o que é interessante a eles. Para adultos mais velhos, isso é, geralmente, as notícias do dia, e o Facebook começou a adotar este papel no mercado de notícias. A recém-lançada função Instant Article é um exemplo do novo foco da companhia para se tornar uma fonte de notícias e portal.

Facebook dislike em graffiti

Então por que o botão “não curti”?

O Facebook não é o que ele era há uma década. Em vez de adolescentes vulneráveis, a base de usuários da rede é composta, em sua maioria, de adultos. E com a crescente tendência de estes usuários compartilharem as notícias, a habilidade de expressar algo além do “curtir” se tornou mais nítida. Conforme aponta Zuckerberg:

Nem todo momento é um momento bom, certo? E se estivermos compartilhando algo que é triste… como a crise dos refugiados que lhe deixa tocado… pode não ser confortável curtir um post desses.

O desenvolvimento do botão “não curti” — qualquer que seja o formato empático que o Facebook eventualmente irá lançá-lo — pode, portanto, ser visto como reconhecimento que o site mudou. Ele se tornou, em parte, um fórum no qual adultos discutem assuntos adultos. Uma nova forma de expressão é necessária para apoiar essa mudança real.


Felicity Duncan é professora assistente de Comunicação Digital e Mídias Sociais na Cabrini College (EUA).

Este post foi repostado com permissão do The Conversation. Imagem por Johan Jonk StenströmZe’ev Barkan/Flickr