O Android sabe que as pessoas gostam dele, mas ele quer ser amado. Ele quer que as pessoas suspirem com seus aparelhos. E quem disse isso não fui eu, e sim Matias Duarte, diretor da área de experiência de usuário Android. E para ser amado, nada melhor do que um gigantesco redesenho focando na experiência do usuário. Caminhos mais curtos, mais simplicidade, um sistema mais coeso — e para todos. Conheça o Android Ice Cream Sandwich, o quarto capítulo da saga.

Dizer que o Ice Cream Sandwich é uma mistura do Gingerbread com o Honeycomb é subestimar o novo sistema. Assim como a Apple fez com o iOS 5, o Google ficou de olhos bem abertos com o que acontecia ao redor de seu software. E as ideias não vieram apenas dos apps do Market — há diversas absorções de detalhes adicionados inicialmente nas skins das fabricantes (TouchWiz, Motoblur etc.) e em ROMs personalizadas, como no CyanogenMod. É possível até encontrar elementos do WP7 — a atenção com a parte gráfica, com grandes fotos e quadrados de imagens mostram que o Android também quer ser bonito. E, como era de se esperar, o Google pincelou todos os novos detalhes para deixá-los melhores e mais simples.

As mudanças incorporadas estão por todo o sistema: navegador com leitura offline, até 16 abas e sincronização com o Chrome para desktop, widgets redimensionáveis, habilidade de tirar screenshot nativa (finalmente!), um sistema de pastas bem semelhante ao do iOS, teclado virtual mais limpo, comando de voz para escrita, sistema de controle de uso de dados divido por aplicativos… a lista de pequenas e positivas mudanças é enorme — e muito boa. E felizmente elas foram adicionadas de forma sólida.

Todos os apps nativos do Google foram redesenhados. O Gmail, que já era um dos grandes trunfos do Android, está ainda mais bonito e visivelmente mais fluido. Agora também é possível buscar e-mails dos últimos 30 dias mesmo sem conexão alguma com a internet. O redesenho na Agenda e no Calendar também foi enorme, e a cada slide exibido por Duarte ou por Hugo Barras, o brasileiro da equipe Android, ficava mais clara a atenção dada ao desenho do sistema. O app de câmera, por exemplo, é extremamente simples, mas ao mesmo tempo completo e veloz. Não é exatamente isso que esperamos de qualquer sistema?

A alma do Android

E, claro, o Honeycomb também faz parte do Ice Cream Sandwich — mas de forma inteligente. Em entrevista ao The Verge, Matias Duarte disse que a equipe pensou “ok, como nós vamos colocar as mudanças do Honeycomb em smartphones?”. Mas ele percebeu que essa não era a pergunta certa; o melhor caminho era não apenas empilhar as novidades, mas pensar em uma nova forma de evoluir a plataforma. Duarte queria colocar uma alma no ICS. Como isso não é possível (ou é?), ele adicionou elementos melhorados do Honeycomb: a ausência de botões capacitivos vem com um sistema inteligente de exibição de botões virtuais e o multitarefa de tablets foi adicionado, mas com um sistema de eliminação de apps simples (basta arrastá-los para o lado). Você sente que o Honeycomb está aqui, mas não de forma forçada.

O foco da apresentação do Google foi diferente, e mostra o Android seguindo um novo caminho. O ICS quer provar para os usuários de Android que o hardware e suas especificações não são o fundamental — a experiência de uso que é. E para isso, a equipe do Android parece ter entendido que quanto mais simples, melhor. Esqueça a história de “usuário avançado”. O Android quer ser para todos — para mim, para meu tio, para meu primo. Simplicidade, aqui, é obrigatória. Talvez por isso o Google tenha falado muito pouco — ou praticamente nada — sobre “ultra customização”, “liberdade”, e “aberto”. Perto da experiência, isso é relevante. E eles estavam bem cientes que estava a experiência do Android estava rumando para um caminho perigoso.

No fim das contas, a palavra detalhe é talvez a mais importante no novo sistema. Mais do que nunca o Google se preocupou com os menores traços do Android. É o que esperamos de uma mudança tão radical — desde o lançamento do Android 2.0, o Google vem amontoando novidades dentro do Android, e falta certa fluidez e coesão entre as ações. Como estamos falando de um redesenho, a equipe de Duarte parece ter olhado para os mínimos detalhes. Exemplo disso é a mudança de fonte. A Roboto, desenhada especificamente para o Android, tem melhor peso e contorno e facilita a leitura. Detalhes como esse parecem pequenos, mas conquistam os usuários. E isso pode virar amor. E quem pode não amar um sanduíche de sorvete? [Fotos via The Verge]