Os anéis de Saturno podem ter se formado relativamente há pouco tempo — por volta dos últimos cem milhões de anos ou algo assim —, de acordo com uma nova pesquisa.

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Uma equipe de cientistas analisou o campo gravitacional de Saturno e a massa de seus anéis, com base em dados da missão Cassini, que terminou em 2017. Suas medições levaram a informações sobre a composição do planeta e a jovem idade dos anéis, pelo menos do ponto de vista astronômico.

“Talvez uma grande colisão tenha formado os anéis por volta da era dos dinossauros”, disse Luciano Iess, autor principal do estudo da Universidade de Roma La Sapienza, na Itália, em entrevista ao Gizmodo. “Mas, para mim, a verdadeira surpresa foi a estrutura interior.”

Os cientistas avaliaram o campo gravitacional de Saturno medindo um sinal de microondas que a Cassini enviou aos receptores na Terra durante suas órbitas de encerramento de missão. Durante essas 22 órbitas finais, a sonda foi posicionada de tal forma que raspasse o topo das nuvens de Saturno em cada passagem, enviando seus sinais para a Terra sem ser bloqueada por Saturno. Os pesquisadores escolheram seis dessas órbitas, medindo como o campo gravitacional em torno de Saturno mudou a velocidade da Cassini e, por sua vez, o sinal de microondas.

Depois de deduzir a força do campo gravitacional do planeta e de seus anéis, os pesquisadores foram capazes de determinar a massa total dos anéis: cerca de 15 quintilhões de quilos. Isso é cerca de sete mil vezes menos massivo que a Lua, ou cerca de 0,4 vezes a massa da pequena lua saturniana Mimas. A equipe estimou a idade dos anéis em cerca de dez milhões a 100 milhões de anos, em comparação com a idade de Saturno, de 4,5 bilhões de anos. Eles publicaram seus resultados na revista científica Science.

Iess ficou especialmente empolgado com as medições do planeta em si, que revelaram que seu campo gravitacional diferia das expectativas iniciais.

“Havia pessoas pensando que, uma vez que determinássemos o interior de Júpiter, se poderia saber qual era a estrutura interior de Saturno. Aconteceu que isso estava errado, porque eles são bem diferentes”, disse Iess. Aparentemente, a atmosfera de Saturno flui e se move profundamente no planeta, talvez nove mil quilômetros abaixo de seus topos de nuvens. Mas ainda há partes misteriosas e não atribuíveis da gravidade do planeta que podem ser causadas por convecção, turbulência ou oscilações. Eles não sabem, disse Iess.

Essa é apenas parte da evidência sobre os anéis de Saturno e a gravidade, é claro. “É uma peça importante do quebra-cabeça, mas não é a única”, disse Kelly Miller, cientista de pesquisa do Southwest Research Institute, que não esteve envolvida no estudo. Miller acha que o artigo tem um interesse intrínseco e aponta que mais dados sobre a composição química dos anéis poderiam confirmar as estimativas em torno de sua idade. Iess compartilha do sentimento, mas observa que isso exigiria o envio de uma sonda para capturar amostras dos anéis.

Porém, a idade jovem dos anéis tem implicações importantes. Isso significa que a característica que mais associamos a Saturno pode ser uma coisa nova, cosmologicamente, possivelmente o resultado de alguma colisão caótica que ocorreu milhões de anos atrás, ou talvez algo mais estranho. E isso, combinado com dados recentes sugerindo que os anéis do planeta podem desaparecer daqui a 100 milhões de anos, indica que temos sorte de viver em uma época em que Saturno tem anéis, disse Iess.

É louco pensar que Saturno só obteve seus anéis icônicos durante a era dos dinossauros ou até mais recentemente. E estudos como esses poderiam revelar mais sobre como o planeta e seus anéis se formaram e como os discos no espaço se comportam de forma mais geral. Agora, só precisamos enviar uma nova sonda para Saturno.