O Apple Arcade provavelmente não vai ser uma droga. Talvez você já assumisse isso porque é fã da marca, ou porque reconhece que R$ 9,90 mensais por uma seleção de jogos cuidadosamente selecionados pode ser um bom negócio. Porém, muitas dúvidas pairavam sobre o serviço desde que ele foi anunciado há alguns meses. Depois de algumas horas jogando alguns dos maiores títulos que estarão disponíveis a partir do dia 19 de setembro, posso dizer que fiquei animada, mas com cautela.

Digo com cautela porque usar o serviço por algumas horas é insuficiente para dizer se o Apple Arcade vale a pena. Os games de demonstração que joguei tinham potencial, mas podem acabar sendo zoados em suas versões completas – ou os únicos bons jogos disponíveis no catálogo.

De qualquer maneira, o modelo do Arcade da Apple é inédito. Por R$ 9,90 mensais, a Apple tem uma lista de mais de 100 títulos que não têm aqueles inconvenientes que geralmente esperamos de jogos para celular. Não há microtransações, nada de moedas exclusivas do jogo que exigem que você gaste grana do mundo real, nem personagens ou continuações da história que você precisa pagar para ter acesso.

Nada de pequenas cobranças que costumam acontecer em jogos para celular. Em vez disso, são mais de 100 games que você pode baixar e jogar quando quiser. Eu joguei seis dos oito games que a Apple disponibilizou para um pequeno grupo de jornalistas. Entre os títulos estavam: Overland, Sayonara Wild Hearts, Shinsekai Into the Depths, Sneaky Sasquatch, Skate City e Where Cards Fall.

Os games ficam na App Store em uma nova aba, chamada Arcade. Você toca nela e ali temos a experiência típica da App Store, como as sugestões de download.

A assinatura cobre o download dos jogos para qualquer dispositivo Apple – desde o iPhone até um iMac. Os games em si são projetados para funcionar tanto nas telas sensíveis ao toque de iPhones e iPad até na infinidade de controles que a Apple TV e o macOS suportam.

Se os jogos vão bem em diferentes estilos de jogo e controle depende, pelo menos na minha experiência. Overland, um jogo de estratégia que se passa em um mundo pós-apocalíptico, foi criado originalmente para consoles e tinha uma jogabilidade boa com um joystick ou até mesmo um mouse. Outros títulos, como Skate City, que se parece um pouco com Tony Hawk Underground, pareceu meio desengonçado com um controle mas se mostrou muito intuitivo na tela do celular. Isso faz sentido já que a desenvolvedora do game, Snowman, faz seus jogos para celulares – entre seus títulos populares estão Alto’s Adventure e Alto’s Odyssey.

Entre as opções, a maioria dos jogos foram um fardo no iPad. Muitos games gostam de usar o próprio dispositivo como joystick, mas isso funciona bem em um celular, que tem aproximadamente o mesmo tamanho de um controle da Sony ou Microsoft. Usar o iPad como um joystick gigante é bem desconfortável. Minhas mãos são muito pequenas para simular que um iPad de 10,2 polegadas tem botões em cada lado da tela.

Jogar em um iPad pode dar cãibras dependendo do tamanho dele e de suas mãos. Foto: Alex Cranz/Gizmodo

Além do desconforto em jogar no iPad, minha outra hesitação é que alguns dos games se pareciam muito. Overland, Skate City e Where Cards Fall compartilham de uma estética que eu associo com jogos de alta qualidade no iPhone. É a mesma estética de títulos como Alto’s Adventures, Lara Croft Go e Monument Valley. São um pouco cartunescos, extremamente simples, mas surpreendentemente atrativos.

Nenhum dos desenvolvedores no local do evento conseguiu explicar por que tantos títulos tinham um visual semelhante. Pode ser apenas uma tendência (e no caso da desenvolvedora Snowman, que tinha dois jogos disponíveis, pode ser apenas uma estética do próprio estúdio).

Nem todos os jogos tinham esse mesmo visual. Sayonara Wild Hearts, um jogo de corrida no qual você alterna entre correr, dirigir e até mesmo deslizar pela tela em uma carta, tem um visual incandescente mesmo que seu estilo abrace uma simplicidade similar. As cores vibrantes pulam na tela e parecem pulsar junto com uma trilha sonora animada.

A opção da Capcom no Arcade definitivamente se destaca do restante. Foto: Alex Cranz/Gizmodo

Shinsekai Into the Depths, da Capcom, também se destacou. O jogo se passa completamente de baixo d’águia e é parecido com o Metroid ou Castlevania (gênero que combina plataforma, quebra-cabeças e ação). Aos poucos você se torna mais poderoso e pode voltar a outros pontos do game para acessar áreas que não conseguia no começo.

O título da Capcom se parece bastante com algo que você encontraria num PS4 ou Xbox One. Os gráficos são sofisticados e apostam num realismo que raramente estarão presentes em jogos disponíveis em dispositivos da Apple. O design de som também é muito bom, com cada assobio do oxigênio do seu personagem ou borrão de bolhas escapando do traje do seu personagem ressoando com bastante definição.

Porém, mais importante do que a aparência dos jogos ou de como os controles funcionam em cada um dos dispositivo, é se são divertidos ou não.

E eles são muito divertidos.

Eu me deparei imersa em Shinsekai e Where Cards Fall em particular. O primeiro vem de um gênero que eu amo, enquanto o segundo é um jogo interessante de quebra-cabeças no qual você redimensiona cartas para navegar pelo mapa. Perdi a noção do tempo tentando resolver os desafios a cada nível e me peguei pensando que gastaria fácil os R$ 9,90 somente pelos dois jogos.

Mas isso pode mudar. O restante dos mais de 100 títulos que serão lançados no Arcade podem ser uma droga comparado com essa pequena coleção que a Apple disponibilizou para eu testar. Ou pior, esses podem ser os únicos jogos interessantes que o serviço irá oferecer.

No lançamento, o Arcade provavelmente valerá a pena por esse punhado de jogos que já joguei. Sem dúvidas eles serão interessantes durante alguns meses, e dado que são jogáveis apenas via assinatura, estarei presa enquanto eles me mantiverem entretida.

Mas a questão do valor do Apple Arcade não se torna significante até que os meses se passem e o recorte de jogos se exauste. Se a Apple não conseguir manter um fluxo constante de novo conteúdo, os R$ 9,90 mensais talvez deixe de ser um bom negócio e passe a ser mais uma dor de cabeça para se cancelar.