Na última segunda-feira (2), a Bloomberg publicou uma reportagem bomba: até 2020, a Apple deixaria de utilizar CPUs da Intel em seus computadores. Só imagine isso: a terceira maior fabricante de PCs do mundo pode deixar a maior fabricante de processadores.

• Apple pode deixar de utilizar processadores Intel até 2020
• Tudo o que sabemos sobre os novos processadores de 8ª geração da Intel



Rapidamente, as ações da Intel caíram depois que as notícias se espalharam, e enquanto muita gente se mostrou animada no Twitter, outras estavam mais cautelosas – e até mesmo preocupadas. Seria algo quase que sem precedentes para a Apple fazer seus próprios processadores e essa decisão pode significar muitas coisas. Então vamos mergulhar no que está acontecendo e o que a decisão pode mudar no jogo.

Os rumores

Os rumores sobre um término na relação entre Apple e Intel são bem comuns, como Patrick Moorhead, presidente e principal analista da Moor Insights & Strateg – com especialização em CPUs, apontou no Twitter.


É a décima vez que esse rumores aparecem? Não significa que ele seja infundado, mas geralmente significa que estamos em época de negociações entre as empresas. Eu consigo imaginar alguns MacBooks baseados no iOS, mas não uma mudança em atacado até 2020 para todos os Macs.

Parece que todas as vezes em que Apple e Intel vão para a mesa de negociações, a luz do rumor brilha – com a imprensa sendo utilizada como uma ferramenta nesse processo, como Moorhead apontou. Só nos últimos dois anos rumores similares surgiram em pelo menos quatro ocasiões diferentes.

A diferença aqui, no entanto, é a fonte do último rumor. O jornalista Mark Gurman da Bloomberg tem um histórico muito positivo de vazamento de informações sobre os passos da Apple, uma empresa bem conhecida por suas políticas de segredos.

Teoricamente, esse cenário poderia significar que a Apple está usando um repórter para jogar duro nas negociações, mas vamos presumir que Gurman não é um peão da Apple e que essa informação é legítima. De acordo com a matéria de Gurman, escrita em colaboração com o repórter Ian King, a Apple tem uma nova iniciativa conhecida internamente como Kalamata. O objetivo dessa iniciativa é colocar chips projetados pela Apple nos Macs até 2020.

Tudo o que está além desse rumor são suposições ainda mais distantes por parte dos repórteres e comentaristas que estão cobrindo a informação.

Mas uma vez que a Bloomberg revelou a história, as suposições e teorias para o que pode acontecer começaram a circular, então vamos tentar ter um entendimento melhor de toda a especulação.

Cenário um: Apple passa a usar CPUs baseadas em ARM em todos os computadores

Essa é a teoria mais popular por aí e tem sido espalhada tanto pela Bloomberg quanto pelo Verge. Nesse cenário, a Apple não diz adeus para a Intel; ela diz adeus para a arquitetura x86 que estão nos chips da Intel, e em vez disso abraça a arquitetura ARM, que já está presente nos processadores do iPad e iPhone.


a apple deixar de lado a intel é uma coisa boa. cpus modernas x86 são bem poderosas para a maioria dos usuários e maioria dos usos, especialmente pelo que é pago para a intel. a normalização do ARM nos desktops já está a caminho com chromebooks e raspberry pis. o destino está escrito. tchau.


Eu diria que a parte da reportagem que diz que “a Apple está em direção ao ARM” tem chances maiores de que 50% de ser real. Os 10-nm da Intel têm dificuldades e os ciclos de produtos paralisados provavelmente se tornaram um empecilho para a Apple, uma empresa que possui equipe própria especialista em chips ponta e que é capaz de fabricá-los.


Algumas pessoas agora veem potencial no “Windows em ARM”, só depois que os rumores sobre a Apple deixar a Intel nos Macs. Sempre foi assim, mas a performance que a Apple consegue alcançar por meio de sua integração vertical e a vantagem tecnológica geral no SoC será palpável agora.

A teoria é que a Apple é muito boa em fazer CPUs superrápidas e eficientes para celulares e a Intel recentemente ficou estagnada – falhando em entregar um grande e necessário novo projeto de CPU nos últimos três anos. Então a Apple, que embora tenha envergadura e sucesso no mercado de celulares mas ainda não possui antecedentes mensuráveis no campo dos processadores para computador, poderia teoricamente fazer o que a maior fabricante de CPUs do mundo não está conseguindo.

Agora, se alguma dessas empresas tem alguma chance maior de sucesso, essa empresa é a Apple. O que a companhia não tem de know-how em processadores de computadores, tem de recursos disponíveis. Cara, a empresa provavelmente poderia comprar a Intel ou a rival AMD e ainda ter grana sobrando para comprar algum outro empreendimento.

Mas não seria, de forma alguma, fácil. Robert Graham da Errata Security escreveu uma sequência de tuítes sobre os problemas de utilizar processadores ARM nesse tipo de computadores de ponta, especialmente os iMac Pros e Macbook Pros.


Mais uma vez vale lembrar para as pessoas que processadores ARM/RISC não possuem a vantagem de gerenciamento de energia no alto nível. Sim, os processadores ARM são populares nos dispositivos móveis, mas consomem menos energia porque são mais lentos, não porque são mais eficientes.

Na sequência, Graham aponta que os processadores ARM são conhecidos por sua eficiência energética porque não são projetados para funcionar na velocidade dos processadores x86 encontrados em praticamente todos os notebooks, desktops e servidores.

Pode funcionar bem em um Chromebook ou iPad, ou para as necessidades bem específicas dos servidores da Cloudflare, mas isso não se traduziria necessariamente em atender bem as demandas de alguém que está renderizando algumas horas de conteúdo em 4K ou até mesmo alguns minutos de coisas produzidas no Adobe After Effects.

Existe outro grande problema: o macOS foi projetado para funcionar na arquitetura x86. Migrar para o ARM exigiria um grande remanejamento de como o software funciona e isso significa que um dia o suporte para os computadores x86 iria acabar, o que foi exatamente o que aconteceu na última vez que a Apple fez uma grande mudança de arquitetura, em 2006. Naquela época, ela migrou do PowerPC da Motorola para a Intel. O último sistema operacional a suportar o PowerPC foi o Mac OS X Leopard, que foi lançado em outubro de 2007 – apenas um ano depois da migração começar.

Além do fim do legado ao suporte ao macOS, a mudança do x86 para ARM também afetaria desenvolvedores de software.

A migração provavelmente seria tranquila para os desenvolvedores que operam primariamente nas linguagens de software próprias da Apple. Mas poderia atingir com peso os grandes desenvolvedores. Empresas como a Adobe muitas vezes usam o código para tirar vantagem das CPUs e até mesmo GPUs dos dispositivos. Seus softwares atualmente estão otimizados para a arquitetura x86 e poderiam exigir muito trabalho para funcionar tão bem no ARM.

E se você acha que essas mudanças aconteceriam rapidamente, pense de novo. Empresas como Adobe, Microsoft e Autodesk já estão lutando para oferecer a mesma experiência no Mac e Windows – ter uma mudança de arquitetura tornaria as coisas mais difíceis.

Olhe o Chrome OS. Ele é muito popular no setor de educação nos EUA, mas os usuários não podem acessar uma versão completa dos softwares da Adobe, bem como os usuários do iPad.

Dê uma olhada também no histórico problemático entre Apple e Adobe. Além de brigar sobre o Flash nos iPhones, as companhias brigaram bastante sobre o suporte Adobe no Mac OS X e em um ponto, em 2003, a Adobe chegou a retirar o suporte completo para o Premiere, porque isso exigiria mais trabalho do que a empresa considerava financeiramente viável.


Lembra quando a apple mudou do PowerPC para o x86? Lembra quantos programas quebraram? Lembram quando tempo levou? VOCÊ ESTÁ PRONTO PARA ISSO DE NOVO???

As dificuldades de uma migração completa para o ARM seriam grandes e o potencial de alienar o mercado que mantém a Apple no topo por um par de décadas – o mercado criativo – seria bem extremo. Se as CPUs ARM da Apple não conseguissem lidar com quantidades pesadas de processamento exigidas por esses caras, eles parariam de investir nos produtos da Apple e isso poderia fazer com que algumas empresas de software também parem de investir.

Mas se há uma empresa que pode convencer a todos que um macOS mais alinhado ao iOS mesmo com aplicativos mais travados que não são tão capazes ou tão rápidos quanto os antecessores (em máquinas mais lentas do que qualquer outra opção com o Windows) vale a pena, essa empresa é a Apple.

Mas talvez forçar todos para um novo ecossistema não seja o plano da Apple – embora Gurman tenha noticiado repetidamente sobre os planos da companhia de realizar uma integração maior entre o hardware e software, além de caminhar numa direção para uma espécie de sistema operacional unificado. Talvez a Apple planeje um aparelho que sirva como ponte? Seria a junção de dois mundos.

Cenário dois: Apple começa a usar CPUs ARM em apenas alguns computadores

Para continuar abastecendo as altas demandas de, digamos, editores de vídeos e ilustradores, a Apple poderia decidir por não migrar todos os seus computadores para o ARM. Em vez disso, poderia migrar apenas as máquinas mais baratas. Isso poderia significar um MacBook ou MacBook Air completamente novo – os dois modelos mais baratos disponíveis atualmente – ou uma máquina totalmente nova, como sugerido pelo ex-colunista do Wall Street Journal e editor do Verge e Recode, Walt Mossberg.


Se for isso mesmo, seria outro passo da Apple para algo já comentado anteriormente: um laptop rodando iOS. Chame-o de MacPad ou reviva o nome do iBook. Use o trackpad da mesma forma que o 3D Touch é usado nos dispositivos iOS para mover o cursor com mais facilidade. (E desenvolva mais truques para a funcionalidade). Eu compraria.

De muitas formas, isso parece viável. Em vez de tentar transformar o ARM em algo que ele não é, ou reprojetar radicalmente o macOS e demandar que parceiros de software trabalhem para se adaptar para uma nova arquitetura, a Apple teria o seu laptop de entrada com o chip próprio e que começaria a colocar na cabeça das pessoas a ideia do macOS e iOS se fundirem um dia. Uma nova máquina para anunciar um novo ecossistema da Apple.

No curto prazo, esse tipo de dispositivo parece muito provável, mas não temos ideia de como o sistema operacional seria. O iOS faria sentido, já que está projetado para rodar com processadores ARM. Tentar forçar o macOS nele faria menos sentido. No começo desse ano, a Microsoft se juntou com a Qualcomm, que fabrica CPUs móveis baseadas no ARM, e com a Asus, que fabrica laptops, para lançar um notebook Windows 10 com um processador Snapdragon. A autonomia de bateria é incrível – a velocidade nem tanto.

• Laptops Windows ganham cérebro de smartphone e a promessa de bateria duradoura

Colocar o macOS, em seu estado atual, em um dispositivo desses, mesmo com a melhor CPU da Apple, não acabaria bem. Mas talvez a Apple não abrace o ARM como arquitetura para todos os seus dispositivos.

Cenário três: Apple deixa a Intel, mas mantém a arquitetura

Nesse cenário, a Apple deixa de usar as CPUs Intel, mas continua a usar a arquitetura x86. Isso não significaria mudanças fundamentais ao macOS ou para o seu software favorito, além de não apresentar nenhum perigo de perder computadores poderosos como o iMac Pro. É ideal, não é?

Acontece que, até onde sabemos, a Apple não está pronta para começar a projetar CPUs x86. Ela não anunciou publicamente grandes aquisições ou licenças de propriedade intelectual que sugira que há um time desenvolvendo esses chips, e não parece haver nenhum funcionário que já trabalhe por lá que seja conhecido por seu trabalho na arquitetura x86.

Eles realmente precisariam de alguém com know-how sobre o x86 para fazer isso funcionar.

Cenário quatro: Apple deixa a Intel e começa a trabalhar com a AMD

Esse é o cenário mais louco: a Apple deixa de comprar processadores Intel e passa a trabalhar com a AMD em chips semi-customizados baseados na arquitetura x86.

Para as pessoas que não querem que a Apple deixe o x86, isso faz bastante sentido. A AMD possui um plano muito agressivo para o lançamento de CPUs e GPUs pelos próximos anos, seus últimos produtos foram muito elogiados e ela já licencia sua tecnologia para outras empresas, incluindo a Sony (para o Playstation 4), Microsoft (para o Xbox One) e para a Intel (para os novos processadores G-series).

A Apple poderia fazer um acordo com a AMD e começar a produzir chips velozes e agressivos em curto prazo. Mas isso, e qualquer cenário que inclua a manutenção da arquitetura x86, parece não fazer tanto sentido em face dos rumores da intenção da Apple de unificar seu software e hardware. Juntar forças com a AMD poderia ajudar a Apple no curto prazo e definitivamente poderia fornecer um melhor conhecimento sobre como projetar CPUs para laptops, desktops e servidores, mas não necessariamente levaria a companhia em direção a algum tipo de grande unificação.

O que a Apple realmente fará ainda não sabemos. Mas de qualquer ângulo que você enxergue, dá para perceber que o mercado de CPUs ficará mais interessante.

Imagem do topo: Alex Cranz (Gizmodo)