Mais uma notícia se amontoa à pilha de rumores de que a Apple planeja utilizar CPUs próprias em seus computadores, encerrando o uso de processadores da Intel em seus hardwares. A Apple é atualmente a terceira maior fabricante de computadores nos EUA, e, para a Intel, a perda seria significante. Mas, além disso, significaria também uma grande, e potencialmente infeliz, mudança para o usuário final.

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De acordo com a Bloomberg, a iniciativa de utilizar CPUs da Apple em todos os computadores da marca até 2020 é chamada internamente de Kalamata. O plano faz parte de uma grande estratégia para garantir que todos os dispositivos da Apple – celulares, tablets, laptops, e todo o resto – trabalhem em conjunto sem problemas.

Não é a primeira vez que ouvimos esses rumores de que a Apple estaria pensando em abandonar a Intel e transformar os MacBooks em iPads glorificados, mas Mark Gurman, repórter da Bloomberg, é conhecido por suas fontes internas na Apple, e as informações vazadas para ele costumam ser corretas. É possível que a empresa de fato abandone a maior fabricante de chips, e isso apenas pioraria o que não tem sido um ano fácil para a Intel, que começou janeiro com a notícia de que suas CPUs de toda a década passada estavam sujeitas a grandes falhas de segurança.

A Intel também vem tendo problemas em lançar novas CPUs anualmente, com a atual 8ª geração de processadores lançada em agosto do ano passado – inclusive, alguns notórios tipos de CPUs da fabricante ainda não foram anunciados, o que pode deixar a Apple e outras empresas de desktops e laptops um tanto inquietas. Se você não consegue lançar o seu novo e maneiro laptop porque a Intel ainda não anunciou o chip que funcionaria nele, você provavelmente buscará por alternativas.

A rival AMD certamente espera por isso e fez um lançamento um tanto agressivo dos seus processadores e planeja anunciar ainda mais modelos nos próximos meses. Até a Qualcomm tem atacado a Intel ao trabalhar com a Microsoft para produzir laptops Windows 10 potencializados por processadores Snapdragon.

Mas vamos ignorar a Intel por um momento – embora neste cenário as coisas não sejam muito boas para a companhia, ela ainda sobreviveria. Mesmo se a Apple abandonar as CPUs da fabricante em seus laptops e computadores, a companhia ainda seria responsável por produzir muitos outros componentes dos dispositivos Apple. Mas o que uma mudança tão grande quanto essa significaria para os usuários da Apple?

Hackintoshes

Primeiro, você pode dizer adeus ao seu Hackintosh. Hackintoshes são computadores montados pelos usuários que rodam macOS. Até 2006, eles não eram possíveis. Naquele ano, a Apple fez uma grande mudança de CPU, abandonando os PowerPCs, da Motorola, em favor da nova arquitetura x86, da Intel, que é usada pelo Windows e pela grande maioria dos Linux. Quando a Apple passou a utilizar a x86, ela essencialmente permitiu que as pessoas “hackeassem” o sistema macOS no que normalmente seria um computador Windows ou Linux. Eu digo “hackear” porque o processo não é fácil e requer uma mistura de boots, edições de kernel, drivers customizados e muita paciência. É também um processo contra os termos de serviço da licença macOS, o que significa que a Apple pode cortar o seu acesso a qualquer momento.

Os Hackintoshes atuais são uma ótima maneira de construir um computador Apple pela metade do preço, uma maneira de ter o sistema macOS em um poderoso computador por um custo baixo e uma desculpa para aprender um pouco de código. Se a Apple parar de utilizar os processadores Intel, é bem provável que ela pare de utilizar a arquitetura x86 (usar a arquitetura incumbe no pagamento da licença), e eventualmente o suporte à arquitetura x86 no macOS acabaria – o que acabaria também com os Hackintoshes como os conhecemos. Isso também terminaria com o suporte duplo ao Windows e com o rápido desenvolvimento de aplicativos para múltiplas plataformas.

Em um email, o notório líder da comunidade Hackintosh tonymacx86 disse ao Gizmodo que, se os rumores estiverem certos, a Apple precisaria prestar suporte ao sistema x86 por anos depois de 2020, caso contrário ela acabaria também com muitos dos laptops que as pessoas estão comprando hoje. Mas tonymacx86 diz que, quando o suporte se encerrar, “isso teria um efeito negativo à comunidade Hackintosh”. Porém, ele não foi muito pessimista: “Mas é bem possível que isso faria a comunidade de sistema aberto criar projetos para continuar o suporte”.

Existe também a questão de qual tipo de CPU a Apple utilizaria se não o x86. Apesar da empresa ter bastante experiência em construir processadores de baixa energia para celulares, ela não tem nenhuma experiência real na construção de processadores destinados a demandas maiores e mais complexas de laptops e desktops, que precisam lidar com enormes arquivos 4K, seu email, o iMessages e 20 diferentes abas abertas no Chrome. A AMD e a Intel já mostraram o quão difícil é produzir esse tipo de CPU – e se a Apple falhar, isso será catastrófico para a sua divisão de computadores.

A Apple poderia lidar com isso com uma remodelação do macOS, algo que não é visto desde 2001, quando a empresa mudou de Mac OS 9 para Mac OS X. Essa remodelação poderia deixar o sistema mais próximo do iOS, o que significa ter menos aplicativos abertos e mais apps cuidadosamente selecionados para essa arquitetura única.

Isso faz muito sentido, e a matéria da Bloomberg explica que isso faz parte de uma iniciativa para colocar o macOS no mesmo patamar que o mais utilizado iOS, encontrado em iPads e iPhones.

Mas sejamos francos: isso não seria muito bom, visto que o iOS é restrito apenas a apps – não existe uma maneira fácil de carregar aplicativos que não estão disponíveis na App Store, e a Apple nega acesso root ao sistema que muitos usuários prefeririam ter no desktop. No momento, é muito fácil dizer ao macOS qual o seu sistema de email ou navegador preferido, e é simples carregar pequenos hacks que possibilitam ver arquivos escondidos ou desabilitar certos atalhos de teclado. Mas isso mudaria caso o macOS ficasse mais semelhante ao iOS.

Mas nós não sabemos com certeza como será essa transição. A Apple se negou a comentar a história, e a Intel respondeu ao Gizmodo dizendo que “não comenta especulações”.

[Bloomberg]