Depois de instalar o iOS 8.4 no meu celular para experimentar o Apple Music, eu não conseguia encontrar o ícone do iTunes. Em lugar algum. O que estava acontecendo? Era uma falha? E então me lembrei de ter escondido o iTunes em uma pasta com todos os aplicativos da Apple que eu nunca uso, como o Dicas e o Mail.

Eu o encontrei eventualmente, mas me dei conta que não clicava nele havia meses. A última atualização do app foi aquela que deu para todos nós o último álbum do U2, Songs of Innocence, que acabei nunca deletando. A Apple negligencia o iTunes há um bom tempo, e com o Music, ela espera recuperar os antigos usuários que o aplicativo perdeu no decorrer dos anos.



Como uma incansável usuária do Spotify, eu estava curiosa.

Escolha o seu veneno

Ligue o Apple Music e já de cara você vê uma tela oferecendo os dois planos do serviço: US$ 4,99 ao mês por uma conta individual ou US$ 7,99 ao mês pelo plano familiar de até seis pessoas que será cobrado assim que os três meses de teste grátis terminarem. Um recado importante: lembre-se de entrar no seu perfil e desligar a opção de auto-renovação; desta forma você não será cobrado quando setembro chegar.

“Para Você” é o carro chefe do Music: Conte-nos o que você curte, ele pergunta. Abaixo da pergunta, uma série de círculos magenta flutuando pela tela, cada um com o próprio gênero, como Latina, Hip-Hop, Indie, Clássica, Rock. Clique em algum gênero que te agrade e o círculo infla. Clique mais uma vez no mesmo gênero para dizer que você o adora, fazendo o círculo inflar ainda mais. É possível até mesmo deletar um círculo, informando que você não gosta de determinado gênero — você só precisa segurá-lo por alguns segundos.

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É uma interface de usuário bem inteligente, mas parece que a Apple não atualiza a lista de gêneros do iTunes desde o início dos anos 2000, quando o aplicativo ainda era alguma coisa. Música Eletrônica contra Dance? Hits contra Pop? E tem até Alternativo, um buraco negro de gênero que, por agora, acredito ser relacionado a banda Creed. Mas quem vai saber? Deixei o gênero flutuando no meu perfil.

Depois de definir o seu duradouro relacionamento com a música por uma série de toques, é hora de escolher os artistas que você gosta e os que você adora em uma série aleatória de nomes flutuando em bolhas. Taylor Swift foi um dos primeiros nomes a aparecer na minha tela — e ela aparece em tudo quanto é canto do aplicativo (por que será?) — ao lado de Elton John e Richard Wagner e cerca de uma dúzia de outros nomes. Ah… Posso começar de novo? Por sorte, existe um botão chamado “mais artistas” que introduz opções mais próximas aos meus interesses musicais.

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Me cansei rapidamente de pedir por mais opções; a maioria dos nomes que vi flutuarem na tela era de bandas indies do início dos anos 2010, junto de alguns nomes típicos como Father John Misty e FKA Twigs. Quando deslizei para a próxima tela, o Music me sugeriu playlists baseadas nas minhas escolhas: “Introdução a Passion Pit”, “Introdução a Vampire Weekend” e “Hits Indie: 2011”.

Abaixo das playlists recomendadas, encontrei uma série de álbuns do mesmo período e mesmo gênero. E acho que isso é culpa minha — eu escolhi bandas indies que se encaixam nessas seleções — mas eu achei que tivesse escolhido uma série de novos artistas também.

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O que a Apple me ofereceu foi um quarto em temperatura ambiente tocando música indie que eu já conhecia, e ao mesmo tempo em que eu não poderia reclamar dele — já que era tudo baseado em minhas respostas, ele não era algo muito divertido de ouvir. Acreditei não ter gasto tempo o suficiente enquanto esperava por mais nomes de artistas flutuando pela tela. Mas se a Apple quisesse um histórico completo, não teria sido muito mais fácil me dar uma lista gigante com o nome de artistas?

O Apple Music não é a única companhia passando por problemas quando se trata de criar um app inteligente o suficiente para recomendar músicas baseadas nas escolhas e no que o usuário costuma ouvir. E o fato dessas recomendações parecerem velhas, ou pior, chatas, não se mostrou nenhuma surpresa. Eu sinto o mesmo do Spotify, que tenta enquadrar playlists recomendadas de forma semelhante para cada usuário, mas que acaba trazendo um monte de música de alguns poucos artistas que já me cansei de ouvir. Por enquanto, nenhuma empresa conseguiu dominar essa técnica, e com a Apple não foi diferente.

Bonito, mas bagunçado

A interface foi o que mais me chamou a atenção do Apple Music. Ela é densa e rica — e com isso quero dizer que cada página parece ser recheada de playlists, artistas e singles, organizados por uma variação de cores que dão à interface um visual interessante. Caso você não goste do que vê, é só puxar a página para baixo e ela se atualizará com novas opções.

Comparado a outros serviços de streaming, existe muita coisa para ver: escolhas dos editores de música da própria Apple, playlists baseadas em atividades como “férias” e “fim de romance”, listas de “álbuns populares” e “faixas populares”, vídeos, lançamentos, playlists que te apresentam a uma banda importante que explica nas próprias palavras, além das músicas, porque ela é importante, e por aí vai. Não que essas coisas sejam muito diferentes daquilo que o Spotify oferece, mas elas são muito mais fáceis de encontrar pela interface do Music no seu celular.

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E isso é um ótimo exemplo do que a Apple faz bem: encantar os usuários pelo design. O Apple Music tem as mesmas partes anatômicas de outros serviços de streaming disponíveis no mercado, mas ela as apresenta de uma forma mais prazerosa de usar. Entretanto, a densidade da interface pode ser, em alguns momentos, um pouco demais para quem usa o app pela primeira vez. Mas acredito que essa sensação de bagunça se extinguirá conforme o usuário vá se acostumando a usar o app.

Considerando quão similar o Apple Music é a outros serviços de streaming, repaginar as mesmas funcionalidades em uma interface com a cara da Apple tem potencial de conquistar usuários que têm dificuldades com a interface estranha de outros aplicativos — pense em pessoas que não têm muita experiência com este tipo de serviço. O Apple Music talvez não convença antigos usuários de serviços de streaming a mudar, mas certamente convencerá milhares de consumidores da Apple que nunca pagaram por um serviço de streaming a pelo menos experimentá-lo. E historicamente, esse é o ponto forte da Apple.

Nós realmente queremos ouvir rádio?

A grande novidade do Apple Music em relação a outros serviços é a estação Beats 1, que é basicamente uma rádio — e não um podcast, como alguns acreditavam. A Apple e a Beats vendem essa ideia como uma rádio 24 horas por dia transmitida para qualquer pessoas com um Apple ID.

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Quando liguei a rádio pela amanhã, cerca de 30 minutos depois do início da transmissão, ouvi For Those About To Rock (We Salute You) do AC/DC. Assim que a música terminou, MC Zane Lowe avisou que a discografia completa da banda estava finalmente online via streaming (inclusive no Spotify). O mesmo ocorre com The Cronic, do Dr. Dre, diz Lowe, que estava finalmente online pela primeira vez pelo Apple Music. A rádio Beats 1 pareceu muito com uma playlist feita pela Apple. E então Lowe começou a falar do novo single de Hudson Mohawk, descrevendo o novo álbum do produtor como “possivelmente um dos álbuns mais importantes deste ano”.

Em poucos segundos, o DJ nos contou como a Apple planeja ganhar a guerra do streaming: mire nas baleias — estrelas como Swift e Dre — e os permeie com singles e álbuns populares que são acessíveis para um grande número de ouvintes. Ofereça o mesmo preço e bibliotecas que outros serviços, mas tenha por atrás da sua própria versão o dinheiro e o poder de fogo de uma das maiores (e certamente uma das mais ricas) empresas de tecnologia do mundo.

Se vai funcionar? Bom, já funcionou antes.