Um grupo de funcionários da Apple lançou um site na última segunda-feira (23) em um movimento que eles próprios intitulam como “#AppleToo”. Trata-se de uma iniciativa dedicada a coletar histórias de pessoas que trabalham ou já trabalharam na empresa, tanto do varejo quanto da área corporativa, e abordar um suposto padrão de discriminação entre os empregados.

“Por muito tempo, a Apple escapou do escrutínio público. A verdade é que, para muitos trabalhadores da Apple — uma realidade enfrentada desproporcionalmente por nossos negros, indígenas e outros colegas de grupos raciais, de gênero e grupos de pessoas historicamente marginalizados —, a cultura do sigilo cria uma fortaleza opaca e intimidante. Quando pressionamos por responsabilidade e reparação das injustiças persistentes que testemunhamos ou vivenciamos em nosso local de trabalho, nos deparamos com um padrão de isolamento, degradação e sem uma luz no fim do túnel”, escrevem os funcionários no manifesto.

O site The Verge relata que ao menos quinze pessoas organizaram o AppleToo. E que outras 350 pessoas aderiram a um servidor no Discord em apoio ao movimento.

Um dos organizadores diz que a Apple suprimiu repetidamente os esforços para conduzir pesquisas de transparência salarial. Cher Scarlett, uma engenheira de software da Apple que co-organizou o esforço no Slack e Discord, disse ao Gizmodo que três relatórios internos foram encerrados — dois deles por supostamente coletar “dados de inclusão e diversidade” e outro por ser hospedado no site de contas corporativas da empresa.

“Me disseram que vários gerentes de varejo e corporativo apresentaram queixas contra mim, e que outros líderes e a equipe de pessoal estavam desencorajando as pessoas a participarem da pesquisa e/ou discutirem seu pagamento”, comentou Scarlett por e-mail.

Isso vai de contra com uma reportagem do início deste mês que inclui mensagens da equipe de pessoal da Apple alertando contra “pesquisas proibidas” e enquadrando tais esforços, entre eles a coleta inadequada de dados de funcionários.

A Apple não respondeu ao pedido de comentário do Gizmodo.

A pesquisa

Os resultados compartilhados com o Gizmodo contaram com a participação de cerca de 2,3 mil pessoas — para se ter uma ideia, a Apple emprega mais de 147 mil funcionários —, e mostraram discrepâncias salariais por gênero e raça.

A maioria dos entrevistados ​​era trabalhadores de tecnologia de nível médio em “ICT3” e “ICT4”, níveis que se aplicam a software e serviços, funções corporativas, hardware, aprendizado de máquina e inteligência artificial, operações e cadeia de suprimentos, e varejo. O salário médio relatado para homens no ICT3 foi cerca de 3% mais alto do que para colegas não-homens, enquanto brancos e não-brancos nessa categoria tiveram salários praticamente iguais. No ICT4, os homens tiveram um salário médio 2% maior do que os não-homens, o que era praticamente a mesma discrepância entre brancos e não-brancos.

Novamente, mais dados são necessários: na maioria dos casos, as categorias se dividem em algumas centenas de funcionários. Além disso, mais homens responderam à pesquisa do que não-homens, e mais brancos do que não-brancos participaram do relatório.

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Ainda assim, a decisão da Apple de suprimir a própria pesquisa atesta para uma companhia que, apesar de se mostrar imponente sempre que possível, pode ter um teto de vidro que pode se rachar sem o menor esforço. Compreender as desigualdades em uma empresa, especialmente a remuneração, é um direito protegido e uma das ferramentas mais fundamentais para começar a se organizar.

De acordo com a plataforma re recrutamento ZipRecruiter, 59% dos funcionários do Genius Bar ganham menos de US$ 47,5 mil por ano, enquanto apenas 12% dos desenvolvedores iOS iniciantes ganham menos de US$ 52 mil por ano. O limite mínimo de salário para trabalhadores do Genius Bar é de US$ 17,5 mil, e de US$ 24 mil para desenvolvedores.