Os apps são a parte mais importante de qualquer tablet atualmente. Mas bons apps precisam de um bom hardware para rodar.

“Muita gente no mercado de tablets está se precipitando e olhando para isso como o próximo PC… falando sobre velocidade e coisas assim como fizeram com os PCs”. Foi isso que Steve Jobs disse sobre especificações de hardware neste mundo “pós-PC” de tablets e smartphones.

Ironicamente, é justamente no mercado de PCs que “velocidade e coisas assim” não importam mais tanto, já que o hardware atual é bom o bastante para a grande maioria dos usuários na maior parte dos casos. Mas no mundo mobile, onde smartphones e tablets evoluem rapidamente, isso ainda importa mais do que no mundo dos PCs. Mesmo que não sejam um fim em si mesmos. Eles são, afinal de contas, o que permite aos apps fazerem a sua mágica.

Esse coringa chamado “especificações” é o que permite que jogos como Infinity Blade tenham um visual e uma jogabilidade incríveis. É o que produz fotos nítidas, enchendo nossos olhos com cores intensamente bonitas em milhares de pixels na tela. É ele que permite ao software ter aquela fagulha de verossimilhança, respondendo a cada toque e intenção instantaneamente, fazendo parecer que estamos manipulando algo real, não um punhado de código atrás de uma tela de gráficos.

Então, como o iPad 2 se compara ao melhor tablet Android da atualidade, o Motorola Xoom, nesse sentido? E o quanto isso importa?

Ambos usam chips personalizados baseados em processadores dual-core de 1GHz, embrulhados em um chip gráfico. O nVidia Tegra 2 usado pelo Motorola Xoom tem um coração dual-core composto por Cortex A9 da ARM, que muito provavelmente é também a alma do chip A5 do iPad 2. Os gráficos GeForce que acompanham o Tegra 2 são formidáveis; presumivelmente, os do iPad 2 também são, especialmente se ele está usando gráficos PowerVR SGX543, como foi relatado. Em processamento e poder gráfico, fica implícito – ao menos até que alguém desmonte e exponha em detalhes as entranhas de ambos – que o iPad 2 e o Xoom são igualmente poderosos. O Xoom é muuuuito rápido, e isso parece ser o que as pessoas concluíram sobre o iPad 2 nos primeiros testes com ele. Velocidade e a sua aplicação adequada importa tanto quanto qualquer outro aspecto, senão ainda mais.

A memória do iPad 2 ainda é oficialmente um mistério, infelizmente. RAM não é uma especificação fácil de ignorar: é um indicativo fortíssimo da capacidade do tablet de se comportar em situação multitarefa, além de – e isso é muito importante – quão bem consegue rodar coisas como o próprio Safari. Se ele tiver 512MB, tudo deve estar ok. O Xoom tem 1GB. O Xoom alterna e faz piruetas entre os diversos aplicativos abertos ao mesmo tempo como um campeão, e a Interface de multitarefa do Android 3.0 faz a coisa parecer ainda mais suave.

Vários dos outros números do Xoom são maiores que os do iPad 2. A tela é maior, com mais pixels. Ela tem 10.1 polegadas, com resolução 1280×800, o que significa uma densidade de pixels de 150ppi, em comparação com a tela de 1024×768, com 136ppi. Isso significa que o texto exibido na tela do Xoom pode ser um pouco mais nítido. As câmeras do Xoom são melhores também, ao menos em teoria. A traseira fotografa em 5 megapixels, e a frontal em 2. (Nenhuma das duas é muito impressionante na prática, porém.) A câmera traseira do iPad 2 faz vídeos em 720p como a do Xoom, mas não é tão boa para fotos, enquanto a frontal é apenas uma VGA (640×480). (Isso significa que elas serão menos impressionantes? A câmera do iPod Touch mais recente, que parece muito similar à traseira do iPad 2, não fez feio, mas a de 5 megapixel do iPhone 4 superou câmeras de 8 megapixels em outros telefones.) Essas coisas fazem o Xoom automaticamente melhor que o iPad 2?

Para algumas pessoas, sim. O ponto chave, no entanto, é que o Xoom não é melhor que o iPad 2 em nenhum dos aspectos que a Apple claramente considera os mais importantes. O poder de processamento é, ao que tudo indica, equivalente. A resolução da tela é menor, mas as proporções da tela do iPad o tornam mais flexível que o Xoom – ele é verdadeiramente projetado para funcionar tão bem na horizontal quanto na vertical, enquanto o Xoom é um aparelho quase 100% dedicado a ser usado na horizontal. A bateria dura mais. E, mais importante do que todo o resto para a Apple (e, aposta ela, para nós), o iPad é mais barato. Todo o resto é bom o bastante. Não incrível.

Estranhamente, parte do motivo das especificações técnicas ainda importarem tanto quanto importam é que estamos em um ponto onde ainda podemos sentir as suas limitações. Por exemplo: o fato do primeiro iPad ter apenas 256MB de RAM era doloroso não porque era um número baixo simplesmente, mas porque isso significava que o Safari frequentemente jogava fora o conteúdo de outras abas abertas, por falta de memória, tornando bem mais lento um segundo acesso a elas. O número não importa, exceto quando ele tem um impacto real e palpável na experiência de uso. Um hardware mais poderoso permite software mais poderoso, com mais recursos e melhor desempenho – o que se traduz em usuários mais felizes. Quando chegarmos em um ponto onde o hardware não será um limitador para o software, ele deixará completamente de importar. Mas isso não parece que vai acontecer tão cedo: o software e as suas exigências de mais recursos sempre parece acompanhar a evolução do hardware.

Hardware sem software não significa nada. Mas o software não pode existir sem o hardware.

Ilustração: artista convidado Sam Spratt. Acompanhe-o no Twitter e no Facebook.