Os ativistas dos direitos dos animais fizeram um trabalho impressionante em chamar atenção para a questão da consciência dos animais: nenhum comedor de carne é agora ignorante do fato de que sua comida viveu, respirou e talvez tenha dado o adeus final aos seus iguais em um matadouro ensanguentado.

Os ambientalistas têm um trabalho mais difícil. Filmagens de colheitas sempre vão ser menos perturbadoras do que imagens da produção de carne de um restaurante fast-food: plantas não choram enquanto são ceifadas aos milhões. Mas isso significa que elas não são conscientes? É sensato, ou desejável, começar a antropomorfizar um pé de repolho e os dentes-de-leão, ou as plantas são realmente tão insensíveis quanto todos nós instintivamente supomos?

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Para o Giz Pergunta desta semana, levantamos essas questões para vários cientistas e filósofos ambientais – incluindo um professor na vanguarda de algo chamado “neurobiologia vegetal”. As plantas podem não refletir com atenção sobre sua infância ou ouvir/ver qualquer coisa em um sentido convencional, mas elas, como vamos ver, retêm informações e tomam “decisões” baseadas em experiências passadas. Se isso constitui “consciência” depende, como sempre, de como você define o termo.

Michael Marder

Professor de Filosofia, Universidade do País Basco, Vitoria-Gasteiz e autor do Plant-Thinking: A Philosophy of Vegetal Life, entre outras obras

As plantas são definitivamente conscientes, embora de um modo diferente do que nós humanos.

Para encontrar os recursos de que necessitam para viver e prosperar, elas precisam se orientar em ambientes acima e abaixo do solo. E assim, as raízes das plantas navegam pelos labirintos subterrâneos do solo, rocha, água, bactérias e raízes de outras plantas, não menos proficientemente que ratos em busca de alimento. Elas devem estar cientes dos perigos – o início de uma seca ou uma invasão de insetos herbívoros – para realizar as atividades essenciais da vida, ou para ativar suas defesas (por exemplo, liberando sinais bioquímicos que chamam os predadores que devorarão as herbívoros ameaçadores). Elas precisam tomar decisões complexas sobre o melhor momento para florescer, fazendo malabarismos com até vinte fatores ambientais, como a duração do dia ou o calor do ar, comparando a evolução dessas condições ao longo de pelo menos um mês.

Em outras palavras, as plantas reúnem tantas informações sobre o mundo em que vivem quanto possível e, atentas às mudanças, reagem com discernimento.

Se ter consciência literalmente significa ter “conhecimento”, então as plantas se encaixam perfeitamente. É claro que elas não têm os órgãos dos sentidos que estamos acostumados, como os olhos e os ouvidos, para receber estímulos do ambiente. Mas elas têm células e tecidos (digamos, células receptoras fotossensíveis) que cumprem a função tão bem quanto – e às vezes melhor do que – um olho ou ouvido animal ou humano. Os dados que elas recebem do mundo em constante mudança são essenciais para sua sobrevivência. Na verdade, elas mudam em sintonia com o mundo e com as estações do ano, crescendo quando as condições são ideais, ou perdendo folhas e levando seu metabolismo a um mínimo no frio do inverno. Podemos dizer que a consciência das plantas é sobrecarregada com toneladas de conhecimento, porque as plantas vivem dentro de uma extrema sensibilidade, atenta aos lugares onde crescem.

É outra questão se as plantas são autoconscientes. Antes de descartar completamente a existência dessa faculdade superior, devemos considerar o que um ser vegetal pode ser. As plantas são apenas vagamente integradas em uma unidade (plante uma parte de um caule de magnólia e ele crescerá independentemente!). É lógico que seu senso de identidade seria igualmente disperso.

Com muita frequência, na verdade, partes de uma planta sujeitas a perigo (por exemplo, as folhas invadidas por insetos indesejados) comunicarão a ameaça liberando substâncias bioquímicas transportadas pelo ar para outras partes da mesma planta. O projeto de uma integração vegetal contínua por meio de estratégias e mecanismos de comunicação pode ser considerado análogo ao que nós, humanos, definimos como autoconsciência. A questão é deixar de lado nossa associação fixa de estruturas biológicas, se não psicológicas, e as funções que elas cumprem, imaginando as possibilidades de ver e pensar de outras formas do que com o olho e o cérebro. Talvez quando conseguirmos isso, finalmente nos tornaremos cientes da consciência das plantas.

Heidi Appel

Professora de Ciências Ambientais da Universidade de Toledo, cuja pesquisa se concentra em como as plantas reconhecem e respondem a insetos herbívoros com defesas químicas.

As plantas são conscientes? Minha opinião é que elas não são, embora elas estejam cientes de muitos aspectos do ambiente em que vivem. Minha resposta é moldada pelas definições comuns de consciência na língua inglesa, que incluem o conceito de mente e autoconsciência, além de estarem conscientes do ambiente.

A capacidade de sentir as coisas no ambiente e de integrar essas sensações em uma resposta benéfica não é, automaticamente, consciência. As plantas não são excepcionais em conseguir fazer isso – é uma característica de todas as formas de vida. As plantas geralmente são subestimadas porque não possuem os órgãos especializados que os vertebrados possuem para sentir seu ambiente.

Alguns sugerem que, uma vez que as plantas podem formar ‘memórias’, elas são, portanto, seres conscientes. As plantas retêm informações sobre o que elas experimentam, na medida em que sua resposta às mudanças em seu ambiente pode depender do que elas experimentaram anteriormente. Mesmo os descendentes podem exibir alguns traços influenciados pelo que seus pais vivenciaram. Retenção de informações dentro e entre gerações de organismos é uma característica de todos os seres vivos, com uma base genética cada vez mais bem compreendida. Se elas constituem ‘memórias’, depende se você define ‘memória’ como ‘recordação’ ou algo mais. Se retornarmos a definições comuns na língua inglesa, a memória como comumente definida não requer autoconsciência, mesmo que nossa experiência pessoal de memória como seres humanos esteja certamente integrada à noção de autoconsciência.

Dr. François Bouteau

Professor Assistente de Biologia Vegetal, Université Paris-Diderot

O principal problema com essa questão é a definição do que chamamos de consciência. Se considerarmos a definição de consciência em um sentido psicológico, isto é, feita para descrever diferentes aspectos da vida humana que seriam relacionados a noções de conhecimento, emoção, existência, intuição, pensamento, psique, subjetividade, sensação, reflexividade… É obviamente difícil responder à esta pergunta sobre uma planta.

Entretanto, os médicos que trabalham com pacientes em coma sabem que a consciência não é binária e que há uma ampla gama de estados conscientes em humanos entre a perda total e o estado de despertar de um indivíduo saudável. Se considerarmos uma definição mais geral de consciência como a capacidade de perceber nossa própria existência e o mundo ao nosso redor, e aceitarmos que não precisamos de um cérebro para ter uma consciência, o assunto começa a ser mais simples. Muitos estudos mostraram que as plantas percebem e interagem com o mundo ao seu redor, usando comportamentos complexos.

No que diz respeito à percepção de sua própria existência, ninguém sabe dizer, mas há evidências crescentes de que as plantas são capazes de um reconhecimento de parentesco que poderia argumentar em favor de uma capacidade de auto-reconhecimento.

Outra maneira de abordar a questão é buscar evidências operacionais dessa consciência. Uma maneira clássica de fazer um ser humano perder a consciência é anestesiá-lo, a consequência prática durante uma cirurgia é a perda de percepção de nossa existência e do mundo ao nosso redor. A eficácia de anestésicos em plantas tem sido demonstrada já há muito tempo. Embora ainda não saibamos realmente como funcionam esses anestésicos em plantas ou animais, parece, de maneira muito interessante, que os mesmos mecanismos celulares, incluindo o funcionamento de canais iônicos que permitem a gênese do potencial de ação, são inibidos.

Outro ponto de discussão é que as plantas, quando machucadas, sintetizam moléculas com poder anestésico. É muito provável que as plantas, como todos os outros seres vivos na Terra, tenham uma forma de consciência, já que ela poderia corresponder a uma necessidade adaptativa de sobrevivência.

Richard Karban

Professor de Entomologia e Nematologia na Universidade da Califórnia em Davis e autor de Plant Sensing and Communication

A resposta para esta pergunta depende inteiramente de como você define a consciência. A maioria das definições inclui a noção do meio ambiente. Por esta definição, pode haver pouca dúvida de que as plantas são organismos conscientes. Outras definições precisam do funcionamento do cérebro de uma pessoa. As plantas obviamente não cumprem esses requisitos, pois não são pessoas e não possuem cérebros.

Mas a evidência de que as plantas estão cientes de seus ambientes é esmagadora. Quem já teve uma planta de casa ao lado de uma janela observou que a planta cresce em direção à luz. Para conseguir essa façanha, ela precisa perceber a direção da luz e alocar recursos preferencialmente. De fato, as plantas percebem o eu e o não-eu e alocam recursos de maneira diferente quando encontram tecidos desses dois tipos. As plantas diferenciam a qualidade da sombra projetada por um competidor verde e respondem mais fortemente a essa ameaça do que a de um objeto inanimado. As plantas antecipam as condições futuras e respondem à luz emitida pelos competidores antes de realmente serem cobertas de sombra.

As plantas não percebem apenas a luz, mas muitas outras qualidades de seus ambientes que afetam sua sobrevivência e capacidade de se reproduzir. No entanto, não há evidência científica confiável de que elas percebem música ou prefiram música clássica ao invés de rock. Plantas procuram nutrientes no solo, cultivam raízes densas em áreas ricas e abandonam as pobres. Elas avaliam os micróbios com os quais entram em contato e recompensam as associações que são benéficas para elas enquanto se defendem ativamente daqueles que são prejudiciais.

Elas também se defendem ativamente contra insetos e outros herbívoros maiores que ganham a vida se alimentando de plantas. As plantas respondem a danos reais, assim como a uma variedade de pistas confiáveis ​​que predizem riscos futuros, elevando defesas sofisticadas e muitas vezes custosas. Estas sugestões incluem produtos químicos transportados pelo ar que são emitidos pelos seus próprios tecidos danificados ou pelos seus vizinhos. Elas respondem a produtos químicos associados ao acasalamento e colocação de ovos de insetos, assim como passos de insetos, saliva de insetos e vibrações causadas pela sua mastigação. As plantas que sofreram danos lembram-se dessas experiências e respondem mais rapidamente e com mais força aos ataques subsequentes. Em alguns casos, essa memória persiste durante várias gerações de plantas.

Danny Chamovitz

Reitor da Faculdade de Ciências da Vida George S. Wise, Diretor do Manna Center for Plant Biosciences, Universidade de Tel Aviv

As plantas são obviamente conscientes de seu ambiente visual e de cheiros no ar; elas sabem se estão sendo tocadas; elas têm diferentes tipos de memórias; elas podem diferenciar entre as direções para cima e para baixo – mas isso não significa que as plantas sejam conscientes.

Eu posso usar a palavra ciente: as plantas estão cientes do seu ambiente. Mas todos os organismos estão cientes de seu ambiente – você precisa estar para sobreviver. Todos os organismos, até mesmo as bactérias, precisam ser capazes de encontrar o nicho exato que lhes permitirá sobreviver. Não é exclusivo das pessoas. Elas são autoconscientes? Não. Nós nos preocupamos com as plantas, as plantas se importam com a gente? Não.

Claro, isso também se enquadra na questão da inteligência. As plantas são incrivelmente complexas – isso as torna inteligentes? Podemos até definir o que é inteligência? Os psicólogos não podem sequer concordar com uma definição de inteligência para as pessoas.

O foco da questão, como a vejo, é que as plantas são organismos incrivelmente complexos que evoluíram nos últimos dois bilhões de anos de forma completamente diferente do que os animais, e não precisamos antropomorfizá-las para apreciar sua complexidade. As plantas não têm nervos, e as plantas não têm cérebros, mas ainda assim integram os sinais de suas raízes, folhas e flores, e sabem quanta luz há e qual a temperatura e quantos insetos existem na área, e elas usam toda essa informação para criar uma planta que é incrivelmente adaptada ao seu ambiente, e fazem isso tudo sem um cérebro. Então, o que isso diz sobre a necessidade de um cérebro?

Em outras palavras: você pode comer as suas plantas sem se sentir culpado.

Imagem do topo: Pexels