Mais de 500 espécies diferentes de tubarão vagueiam pelos oceanos da Terra: desde tubarões pequenininhos até o icônico grande tubarão branco, passando pelos tubarões-duendes. E, aparentemente, o equilíbrio atual de espécies surgiu depois do evento de extinção em massa do Cretáceo-Paleógeno, há 66 milhões de anos, segundo uma nova pesquisa.

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No período Cretáceo (entre 142 milhões e 66 milhões de anos atrás), uma ordem de tubarões chamados Lamniformes comandava os mares. Os tubarões lamniformes modernos incluem o grande tubarão branco, o alopias e o tubarão-mako.

Porém, estudando as formas variadas de centenas de dentes de tubarões fossilizados antigos, pesquisadores descobriram que a diversidade de tubarões Carcharhiniformes — a maior ordem de tubarões atual, que inclui tubarões-martelo, tubarões-tigre e mais — explodiu após a extinção em massa do fim do Cretáceo, enquanto muitos tubarões Lamniformes foram extintos.

Esse equilíbrio é o que ainda vemos nas águas de hoje: dominância dos Carcharhiniformes com uma leve difusão de Lamniformes. Outras ordens de tubarões incluem Hexanchiformes (como os tubarões-cobras), Pristiophoriformes (tubarões-serra) e Heterodontiformes.

“Este é um estudo interessante, com nuances, que acrescenta contexto à extinção em massa do fim do Cretáceo envolvendo duas grandes linhagens de tubarões”, disse ao Gizmodo Neil Aschliman, biólogo evolucionista da Universidade de St. Ambrose, que não esteve envolvido na nova pesquisa.

“Estudar os fósseis de tubarão é tanto uma maldição quanto uma bênção”, continuou Aschliman. “Espécimes inteiros são extremamente raros, porque os esqueletos cartilaginosos desses animais não se fossilizam prontamente. Os tubarões produzem e perdem continuamente dentes propícios para se tornarem fósseis durante toda a sua vida. Devido a esse tesouro de dentes, temos uma sólida compreensão de quando no registro geológico diferentes grupos de tubarões se originaram e foram extintos.”

Os pesquisadores mediram as formas variadas de 597 dentes de tubarão antigos de todo o mundo, entre 72 milhões e 56 milhões de anos atrás. A maneira como a forma do dente mudou — ficando mais alta ou mais baixa, mais larga ou mais semelhante a uma agulha — permite mapear a diversidade de tubarões pós-extinção, como apontado no artigo da Current Biology publicado na quinta-feira (2).

Curiosamente, após o evento de extinção, tubarões Lamniformes que tinham dentes largos em forma de triângulo desapareceram, enquanto Carcharhiniformes com o mesmo tipo de dente prosperaram.

Versão de um artista para a vida marinha conforme ela existia antes da extinção no Cretáceo-Paleógeno. Ilustração: Julius Csotonyi

Essa disparidade pode ser explicada por mudança de fontes alimentares após a extinção, disse Mohamed Bazzi, principal autor do estudo e paleontólogo da Universidade de Upsália, na Suécia, em entrevista ao Gizmodo. Tubarões Lamniformes provavelmente comiam muita lula e répteis marinhos, mas muitos deles morreram. Pequenos peixes ósseos, por outro lado, começaram a enxamear os mares, para o deleite dos tubarões Carcharhiniformes que os atacavam.

Essa dinâmica pode ter sido a base para uma linha do tempo evolutiva levando à diversidade dos tubarões atuais, disse Bazzi.

Entender essa linha do tempo pode até ser útil para impedir que os tubarões de hoje sejam extintos. Esse risco de extinção é sério, pois nós estamos acabando com os peixes nos oceanos e contribuindo para o aquecimento global. Atualmente, mais de 50% das espécies de tubarões estão em perigo de extinção, ameaçadas ou quase ameaçadas, apontaram os pesquisadores.

“Explorando as mudanças em sua diversidade ao longo de milhões de anos, talvez possamos avaliar a importância de vários contribuidores — como temperatura, nível do mar e disponibilidade de presas — como principais impulsionadores da evolução dos tubarões”, disse Bazzi ao Gizmodo. “Os tubarões cumprem um papel ecológico muito delicado, mas importante. A sua morte pode ter consequências terríveis para a saúde e a estabilidade de toda a cadeia alimentar marinha. Eles também são criaturas notáveis que capturam a imaginação do público, embora sejam tristemente mal compreendidos.”

[Current Biology]

Imagem do topo: Elias Levy (Flickr)