Em 8 de março de 1971, os EUA quase inteiros estavam com suas TVs para assistir a Luta do Século entre Muhammad Ali e Joe Frazier. Mal sabiam eles que, enquanto isso, o FBI estava tendo centenas de documentos roubadas de seus escritórios por um grupo de ativistas.

Orientados por William C. Davidson, professor de física na Haverford College, um time de ladrões invadiu o escritório do FBI em Media, na Pensilvânia, e levou quase todos os documentos que puderam encontrar. Incrivelmente, eles nunca foram pegos — e só agora resolveram falar sobre o crime ao New York Times. Naturalmente, como você poderia esperar de um bando de criminosos liderados por um professor, eles esperaram todo esse tempo por um bom motivo: eles não podem mais ser processados pelo que aconteceu naquela noite.

A ação encontra ecos em eventos recentes. Mesmo sendo muito menos tecnológico que o vazamento de documentos da NSA feito por Edward Snowden, o crime de 43 anos atrás foi motivado por razões semelhantes. Indignados com a espionagem governamental, os ativistas vazaram os documentos roubados para jornalistas, abrindo um debate nacional sobre a prática. Keith Forsyth, um dos membros do grupo, explicou ao New York Times:

“Quando você contava a pessoas de fora do movimento o que o FBI estava fazendo, ninguém queria acreditar. Havia apenas uma maneira de convencê-las que isso era verdade, e esta maneira era chegar até esses papéis.”

A operação em si foi à moda antiga: eles estudaram os escritórios do FBI durante meses, removeram cuidadosamente os documentos em maletas enquanto usavam luvas e saíram correndo em carros de fuga. Depois do crime, o grupo se dispersou silenciosamente e nunca mais discutiu o assunto. Até agora, obviamente.

Isso tudo, claro, foi muito bem pensado. O time de oito pessoas originalmente planejou entrar no escritório do FBI que fica no centro da Filadélfia, mas achou que isso seria muito arriscado. Em vez disso, eles decidiram tentar este escritório-satélite em Media, um subúrbio a 19km da Filadélfia. Mesmo sabendo que não iam conseguir o melhor material possível, eles acharam que esta opção seria bem mais segura. Meses de vigilância levaram a uma invasão bem sutil — exceto por uma trava, que não pode ser aberta e precisou ser arrombada com um pé-de-cabra.

Betty Medsger –então repórter do The Washington Post e a primeira a receber os documentos roubados– escreveu um livro sobre o crime e as matérias subsequentes. É um bom lembrete: a espionagem do governo não é nada nova, mas é algo que devemos levar muito a sério, como sempre. [New York Times]

Imagem: Oleksiy & Tetyana, sob licença Creative Commons