Uma infecção bacteriana comum que causa úlceras e câncer no estômago tem se tornado cada vez mais resistente, de acordo com a nova pesquisa preliminar. Na Europa, sugere o artigo, as variedades da bactéria Helicobacter pylori tornaram-se mais resistentes às drogas de primeira linha usadas para combatê-la nos últimos 20 anos. As taxas de resistência chegaram a dobrar para pelo menos um antibiótico.

A H. pylori adora viver no estômago humano. Mais da metade das pessoas no mundo possuem essa bactéria, embora a maioria das pessoas não fique doente por causa dela. Ocasionalmente, ela pode causar infecções agudas que se assemelham a uma gastroenterite.



Ao longo da vida, as bactérias também podem ajudar a causar úlceras que inflamam e desgastam o revestimento do estômago, e esse dano ao tecido aumenta o risco de câncer de estômago. Infelizmente, os cientistas assumiram durante décadas que as úlceras eram causadas exclusivamente por estresse e pela dieta, acreditando de forma equivocada que os micróbios não poderiam suportar o ambiente hostil e ácido de nossos estômagos.

Úlceras causadas pela H. pylori são geralmente tratadas com antibióticos e drogas que reduzem a produção de ácido gástrico. Mas ao longo dos anos, os médicos têm notado que os antibióticos usados contra ela – mesmo quando administrados como uma terapia combinada – não funcionam de forma tão eficaz como antes. Refletindo essa preocupação, a Organização Mundial da Saúde declarou em 2017 que novos tratamentos eram urgentemente necessários para variedades de H. pylori resistentes à ao antibiótico claritromicina.

De acordo com os autores desta nova pesquisa, o trabalho geral que tem sido feito não corresponde ao tamanho do problema da resistência da H. pylori. Eles compararam mais de 1.200 amostras de bactérias coletadas de pacientes por médicos em 18 países europeus entre 1998 e 2018. Em seguida, rastrearam como a bactéria evoluiu em termos de resistência a três antibióticos comumente empregados, incluindo a claritromicina.

No geral, eles descobriram que apenas 9,9% das amostras em 1998 apresentavam resistência pré-existente à claritromicina, uma percentagem que aumentou para 21,6% até 2018. E em algumas regiões, como o sul da Itália e a Croácia, mais de um terço de todas as variedades de H. pylori mostraram resistência à claritromicina.

A resistência às outras duas drogas, como levofloxacina e metronidazol, também aumentou ao longo do tempo, com taxas de resistência ao metronidazol sendo a mais alta de todas as três.

Os resultados do estudo são preliminares e foram apresentados esta semana na conferência anual da United European Gastroenterology. Mas vão na linha de outras pesquisas, já revisadas por pares. Em 2018, uma análise constatou que a taxa média de resistência às três drogas pela H. pylori superou 15% na maior parte do mundo.

“Com taxas de resistência a antibióticos comumente usados como claritromicina aumentando a uma taxa alarmante de quase 1% ao ano, as opções de tratamento para a H. pylori se tornarão progressivamente limitadas e ineficazes se novas estratégias de tratamento permanecerem pouco desenvolvidas”, disse Francis Megraud, autor do estudo e professor de bacteriologia na Universidade de Bordeaux, na França, em um comunicado. “A eficácia reduzida das terapias atuais poderia manter as altas taxas de incidência de câncer gástrico e outras condições, como úlcera péptica, se a resistência às drogas continuar a aumentar nesse ritmo”.

Há alguma esperança, pelo menos. O estudo descobriu que em alguns países, como Dinamarca e Noruega, as taxas de resistência à claritromicina ainda eram incrivelmente baixas, oscilando em torno de 5%. Esses países têm sido historicamente melhores em manter a resistência aos antibióticos sob controle por meio de políticas públicas que desencorajam o uso desnecessário de antibióticos (particularmente na criação de gado).

A menos que o resto do mundo siga o exemplo, a H. pylori e inúmeras outras infecções se tornarão cada vez mais intratáveis.