A descoberta de uma baleia de quatro patas fossilizada, de 42 milhões de anos, está lançando uma nova luz sobre a evolução e propagação geográfica desses mamíferos aquáticos.

Os ancestrais das baleias e dos golfinhos modernos evoluíram a partir de um pequeno animal de quatro patas que viveu no sul da Ásia há cerca de 50 milhões de anos, durante o Eoceno. A evidência fóssil sugere que esses mamíferos aquáticos pioneiros chegaram à América do Norte há 41,2 milhões de anos, nadando a partir da África Ocidental através do Atlântico. A descoberta surpreendente de uma baleia quadrúpede de 42,6 milhões de anos, desconhecida anteriormente, ao longo da costa do Peru, resultou em um importante adendo a essa história: baleias antigas fizeram da América do Sul, e não da América do Norte, seu primeiro lar no Novo Mundo. Detalhes dessa descoberta foram publicados nesta quinta-feira (4) na Current Biology.

A nova espécie se chama Peregocetus pacificus, que significa “a baleia viajante que chegou ao Pacífico” em latim. Seus restos mortais notavelmente bem preservados foram encontrados em 2011 em um local chamado Playa Media Luna, onde paleontólogos recuperaram a maior parte de seu esqueleto, incluindo sua mandíbula, pernas dianteiras e traseiras, pedaços de coluna vertebral e cauda. A datação do sedimento marinho dentro do qual o fóssil foi encontrado coloca o Peregocetus pacificus no meio do Eoceno.

Concepção artística do Peregocetus pacificus caminhando sobre terra. Ilustração: Alberto Gennari

“Este é o primeiro registro indiscutível de um esqueleto de baleia quadrúpede em todo o Oceano Pacífico, provavelmente o mais antigo das Américas, e o mais completo fora da Índia e do Paquistão”, disse em comunicado o autor principal Olivier Lambert, paleontólogo do Instituto Real Belga de Ciências Naturais.

A análise do fóssil do Peregocetus pacificus mostra que ele estava bem adaptado tanto à terra quanto ao mar, apresentando características semelhantes às das lontras e dos castores modernos. Este animal era relativamente grande, medindo cerca de quatro metros de comprimento, que é mais do que o dobro do tamanho das lontras que vivem atualmente. As habilidades terrestres do Peregocetus pacificus foram evidenciadas por pequenos cascos na ponta dos dedos e pela orientação dos ossos do quadril, sugerindo uma marcha quadrúpede em terra. Ao mesmo tempo, tinha ossos de cauda semelhantes aos dos castores e das lontras, o que significa que sua cauda tinha um papel importante em suas habilidades aquáticas. Por fim, o tamanho de seus dedos e pés sugere, segundo os pesquisadores, apêndices palmípedes.

Ossos fossilizados recuperados em Playa Media Luna. Imagem: G. Bianucci

A descoberta acrescenta novos conhecimentos sobre a expansão geográfica das baleias antigas neste estágio de sua história evolutiva. As baleias de quatro patas provavelmente chegaram à América do Sul atravessando o oceano Atlântico Sul a partir da costa ocidental da África, de acordo com os pesquisadores. Os animais teriam sido auxiliados por correntes de superfície para o oeste, e a distância entre a África e a América do Sul era cerca de metade do que é hoje, tornando a trilha possível. Uma vez na América do Sul, o Peregocetus pacificus se instalou nas águas do Pacífico ao longo da costa peruana, acabando por se deslocar para a América do Norte.

“Continuaremos procurando em localidades com camadas tão antigas quanto, e ainda mais antigas que, as da Playa Media Luna, de modo que cetáceos anfíbios mais antigos (um grupo que inclui baleias e golfinhos) possam ser descobertos no futuro”, disse Lambert.

“Esta é uma descoberta genuinamente surpreendente, com base em um esqueleto fóssil relativamente completo que mostra que baleias bastante antigas capazes de nadar e caminhar chegaram às Américas muito antes do que se pensava”, explicou Erich Fitzgerald, curador sênior de paleontologia de vertebrados dos Museus Victoria, em Melbourne, em um e-mail para o Gizmodo. “Isso tem implicações realmente intrigantes para o nosso entendimento da evolução das baleias. Pode haver todo esse capítulo da história da evolução das baleias que aconteceu na América do Sul e em outros lugares nas costas dos oceanos Pacífico e Sul que não conhecíamos”, disse Fitzgerald, que não esteve envolvido nesse novo estudo.

Reconstrução mostrando as partes preservadas do esqueleto do Peregocetus pacificus, em ambientes terrestres e aquáticos. Imagem: Olivier Lambert et al., 2019/Current Biology

O paleontólogo Felix Marx, da Universidade de Liège, na Bélgica, disse que o novo estudo é “significativo”, mas “bastante direto”, já que “não há muito a criticar aqui”, escreveu ele em um e-mail para o Gizmodo. Marx é amigo de Lambert, o autor principal, e eles compartilham o mesmo escritório, então ele não pôde “garantir a imparcialidade”. Deixando de lado essa advertência, ele disse que o novo fóssil é “muito convincente” e que ele está dando aos cientistas uma ideia melhor de como essas baleias primitivas se espalharam pelo globo.

“Já sabemos há algum tempo que as baleias de quatro patas chegaram à América do Norte, mas este é o primeiro registro confiável (vindo) da América do Sul e, portanto, também o primeiro do hemisfério sul”, disse Marx. “Eu estaria ansioso para saber até onde elas realmente conseguiram chegar. Quem sabe, talvez tenha havido baleias antigas nas costas do Chile, também?”

Ao que acrescentou: “Esse estudo também mostra, mais uma vez, o grande potencial do Peru como tesouro fóssil. É um local de nível mundial, e espero que tenhamos mais surpresas à medida que o estudarmos”.

Fitzgerald corroborou este sentimento.

“Há, claramente, mais reviravoltas na história das baleias que sequer começamos a imaginar”, disse. “O que é certo é que há muito mais surpresas de cetáceos esperando para serem descobertas no hemisfério sul.”

[Current Biology]