Eu costumava trabalhar na Boeing. Lá, meu trabalho era consertar as partes computadorizadas das máquinas que constroem os 747s. É normal se sentir vulnerável dentro de um avião. Afinal, você é obrigado a agir normalmente apesar de estar preso dentro de um tubo de metal que voa a 600 milhas por hora e a 30.000 pés de altitude. O que pode dar errado?

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Surpreendentemente, não muito. Os aviões são projetados e testados exaustivamente, tudo para garantir nossa segurança. Atualmente o número de mortes em aviões — mesmo levando em conta os grandes acidentes — é incrivelmente baixo.

A maioria das pessoas sobrevive a acidentes aéreos, a menos que o avião tenha sido explodido de propósito. Isso, aliás, é outra coisa difícil de se fazer. A foto abaixo mostra algo que poucas pessoas já viram: as asas de um avião sendo dobradas, durante um teste, em um ângulo na qual elas nunca ficariam na vida real. As asas do avião têm que suportar todo tipo de impacto.

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Crédito: Boeing

Mas voltemos aos barulhos e à lista de coisas que você precisa saber para viajar mais tranquilo.

Taxiando

Na parte traseira de todo avião existe uma APU; isto é, uma unidade auxiliar de energia. Essa bugiganga é responsável pelo barulho que você ouve quando está embarcando. Sua função é manter tudo em ordem enquanto os motores principais estão desligados.

Além disso, a maioria dos aeroportos conecta os aviões a unidades auxiliares terrestres, que bombeiam ar e eletricidade para o avião e são mais econômicas. Quando a tripulação fecha as portas, é possível ouvir uma mudança nos ruídos, e tanto o ar-condicionado quanto as luzes oscilam conforme o avião passa do sistema de pouso para o sistema de voo.

Em seguida, o piloto ativa as turbinas, e você ouve o zumbido delas começando a girar, seguido pelo barulho crescente da ignição, semelhante a um rugido. Os aeroportos costumam usar um rebocador para transportar o avião até a pista, mas alguns aviões podem ir sozinhos até o local necessário.

Nesse momento, os motores ficam mais barulhentos, mas o ruído logo diminui. Em seguida o avião começa a taxiar pela rampa enquanto o piloto espera pelas ordens da torre de comando, que diz qual pista de decolagem deverá ser usada.

A maioria dos aviões da Airbus possui um dispositivo de economia de combustível, conhecido como unidade de transferência de energia, ou PTU. A PTU garante que a pressão hidráulica fique em equilíbrio durante o processo de táxi, quando o avião opera com apenas um motor. Todo aeroporto quer economizar combustível, e essa é uma das formas de fazê-lo. Como a PTU segue as oscilações de pressão do avião, ele emite um som alto e um pouco incômodo. Para algumas pessoas, o som parece um latido meio esganiçado.

Os aviões da Airbus emitem outro som agudo em dois momentos: quando o avião está no portão, e pouco depois do pouso. Esse som vem de uma bomba hidráulica utilizada para abrir e fechar as portas do compartimento de carga.

Enquanto o avião taxia, as rodas fazem muito barulho ao deslizarem com solavancos pelo tarmac — os aviões não têm muito amortecimento. O piloto e o copiloto aproveitam esse período para checar todos os sistemas do avião para ter certeza de que tudo está funcionando perfeitamente. Cada função corresponde a uma luz no painel, que serve para indicar possíveis falhas técnicas.

Cada avião comercial possui quatro sistemas diferentes: caso algum deles pare de funcionar, os outros três podem substituí-lo. Em seguida, você irá ouvir os pequenos motores elétricos que alimentam os painéis de controle avisando que o avião está em ordem.

Talvez te tranquilize saber que cada um dos pilotos é obrigado a treinar num simulador idêntico ao avião no qual você está viajando. Durante esses treinamentos, os treinadores desligam os motores subitamente, causam falhas nos sistemas elétricos, desabilitam o leme — ou seja, tudo que pode dar errado, e a missão dos pilotos é tentar pousar o simulador com segurança. Isso significa que seu avião está sendo muito bem pilotado.

Decolagem

Seu avião já recebeu a confirmação da torre de controle. O piloto leva o avião até o fim da pista de decolagem, onde é possível ver uma série de linhas brancas pintadas no asfalto e várias marcas de pneus. As linhas brancas marcam os limites da pista de pouso. Seu piloto quer que o avião decole suavemente, então ele aperta um botão que duplica a largura das asas. Esse botão aciona os flaps, que emitem um zunido quando são abertos. Se você estiver sentado atrás da asa, é possível ver os flaps descendo.

Agora você ouve os motores esquentando, e sente um leve tremor no seu assento enquanto o avião começa a acelerar. É possível notar quando uma roda está um pouco achatada — as batidas no asfalto se misturam com a velocidade das rodas e fazem um tec, tec, tec.

Eu tenho uma tradição: sempre presto atenção na velocidade que o avião atinge antes de decolar. Quando o avião anda muito rápido, o ar fica pesado, parecendo água. É como esticar sua mão para fora de um carro a 100 km/h. O avião tem que correr a pelo menos 160 km/h antes de decolar.

O piloto fica atento a um medidor que indica a velocidade do avião. No momento certo, ele puxa o manche e a roda dianteira começa a girar numa velocidade enorme. O avião sobe um pouco mais, e, ao invés das batidas anteriores, você irá ouvir as duas rodas laterais se desprendendo do chão e girando no ar.

Em seguida, você irá ouvir alguns pequenos ruídos elétricos à medida em que as rodas voltam para o avião, seguido pelos barulhos das portas travando, primeiro uma, depois a outra. O avião voa silenciosamente. Após um instante, você ouve outro barulho — como o piloto não precisa mais das asas grandes, ele traz os flaps para suas posições normais. Esse processo deixa o avião aerodinâmico e em condições perfeitas para o voo.

Os motores se aquietam conforme o avião ganha altitude. Enquanto isso, a torre de controle indica o caminho para os pilotos, garantindo que nenhum outro avião chegue perto do seu. Em seguida, as aeromoças entram em ação, garantindo que você tenha um voo agradável. Durma ou aproveite a vista que nem todos no mundo têm o privilégio de ver.

Pouso

Durante o pouso, alguns dos barulhos se repetem. Primeiro os motores mudam de tom, e você sente uma leve mudança na pressão à medida em que o avião desacelera e começa a descer. Às vezes o avião volta para a posição horizontal enquanto os pilotos esperam pelas instruções de pouso. Nessa hora o avião fica rápido demais, e para diminuir a velocidade o piloto aciona um equipamento no topo das asas que faz um barulho sibilante. É provável que você escute o ruído dos motores elétricos mais uma vez. Os pilotos alinham o avião com a pista de pouso e começam a voar em direção ao fim da pista.

Durante a descida, os flaps são acionados mais uma vez. Em alguns casos, um pequeno flap localizado na parte frontal da asa também é acionado. Nesse momento, você pode ouvir o som do vento, e, caso esteja na janela, talvez você possa ver o ar comprimido deixando um rastro de vapor quente. Em seguida, é possível ouvir uma pancada — esse é o som do trem de pouso se abrindo — seguido por mais barulhos mecânicos enquanto as rodas são abaixadas e fixadas com um clique. Nesse momento, o vento é ensurdecedor.

O piloto vê três luzes verdes em seu painel; elas indicam que as rodas estão onde elas deveriam estar. Em seguida, ele deixa o avião na velocidade certa e desacelera as turbinas o suficiente para encostar as rodas no chão. As rodas gritam mais uma vez enquanto os pneus vão do repouso completo a mais de 160 km/h.

Depois disso, os pilotos têm que se assegurar de que o avião irá parar perfeitamente, então eles puxam uma alavanca que abre uma série de painéis nas asas. Além disso, as turbinas têm uma peça especial que permite que o ar seja empurrado pra frente, desacelerando ainda mais o avião. Esse processo é bem barulhento.

Quando o piloto pisa no freio, você ouve um barulho parecido com o do seu carro. Ele pisa fundo o bastante para desacelerar o avião, e você sente a pressão do pouso. O avião costuma tremer um pouco; para diminuir a velocidade, o capitão aperta o freio, solta, e depois aperta de novo. Quando a velocidade está baixa o bastante, os motores recolhem todas os flaps e painéis usados anteriormente, e a torre de controle indica o caminho até o terminal. Nesse momento, a torre de controle também informa em qual portão o avião irá desembarcar.

Você vai ouvir o som de latidos mais uma vez enquanto a PTU mantém a pressão do avião. Quando o piloto finalmente para o avião, ele desliga o motor e muda para o modo APU. Assim como na decolagem, essa mudança é marcada por uma leve falha nas luzes e no ar-condicionado. O aviso apita e você pega suas bagagens. Respire fundo.

Agora seu único problema é tentar desviar das malas enormes sendo puxadas acima da sua cabeça.


Sobre o autor: Mike Leary é psicoterapeuta em consultório particular, e já trabalhou com mísseis no Exército americano, e com reparos de avião na Boeing.

Este artigo apareceu originalmente no Quora. Você pode seguir o Quora no Twitter, Facebook eGoogle+.

Tradução: Ananda Pieratti. Foto por Joe A. Kunzler/Flickr