O anúncio da Libra, criptomoeda do Facebook, movimentou o mercado de criptomoedas e, numa primeira análise, parecia ter feito o preço do bitcoin subir consideravelmente. Os eventos certamente estão relacionados, mas podem não contar a história toda.

De acordo com uma reportagem do Decrypt, as flutuações de preço do bitcoin podem estar relacionadas com a emissão do tether, uma criptomoeda lastreada no dólar frequentemente usada para trocar por bitcoins.

A relação do tether com as quedas e altas do bitcoin foi estudada por um professor da Universidade do Texas conhecido por alertar sobre atividades suspeitas no Índice de Volatilidade VIX — que se baseia nos preços das opções do S&P 500 e que mede as expectativas dos agentes para a movimentação das ações nos próximos 30 dias.

Entendendo o tether

O tether é uma moeda digital criada por uma empresa de mesmo nome, que por sua vez é subsidiária da iFinex (para diferenciar, tether é a moeda digital; e Tether é a empresa).

A moeda é baseada na Omnilayer, plataforma que permite a criação de tokens usando o blockchain do bitcoin. A moeda tem relevância por ser lastreada no dólar e a companhia promete que cada tether (USTD) equivalha a um dólar.

Em tese, ao comprar um tether, você paga um dólar que fica guardado. Se você decidir retirar a grana, você devolve o tether para a companhia e eles depositam o seu dólar em sua conta.

No entanto, a empresa tem sido investigada pela procuradoria geral de Nova York por fraude. O próprio advogado da companhia afirmou à procuradoria que os tokens são financiados em 74% por reservas — ou seja, a moeda que deveria valer US$ 1 vale, na verdade, US$ 0,74 — o que indica que foram gerados tokens sem o lastro.

Como o tether pode ter influenciado preços do bitcoin

No começo deste ano, o bitcoin chegou a ser comercializada por menos do que US$ 4 mil e, durante as duas últimas semanas, o crescimento foi bastante acentuado, passando de US$ 8 mil para quase US$ 13 mil na última quarta-feira (26).

Esse crescimento parece coincidir com a criação de novos tokens do tether — inclusive, a capitalização de mercado do USDT também cresceu nas últimas semanas.

Alguns analistas suspeitam que a Tether, empresa por trás da moeda, esteja criando USDT não lastreadas no dólar para comprar bitcoins, fazendo com que seu preço aumente. Essas transações supostamente seriam feitas por meio da Bitfinex, que também é subsidiária da iFinex. A empresa nega.

O artigo feito pelo professor da Universidade do Texas John Griffin em colaboração com Amin Shams chamado “Is Bitcoin Really Un-Tethered?” aponta indícios de que o tether é utilizado para estabilizar e manipular os preços do bitcoin.

No estudo, eles tentaram entender como 2,5 bilhões de tether circularam no mercado e as análises de um ano mostram um padrão relacionado com os preços do bitcoin.

Primeiro, a moeda é criada pela companhia, muitas vezes em grandes quantidades, e quase todos os novos USTD são passados pela Bitfinex. Quando os preços do bitcoin caem, são utilizados USTDs para comprar bticoin “de uma forma coordenada que determina o preço”, conforme explicou Griffin em uma entrevista à Bloomberg.

O artigo de Griffin descreve vários padrões descobertos num período de um ano. Primeiro, ele descobriu que os fluxos não eram simétricos. Quando o preço do bitcoin caiu, as compras de tether tenderam a aumentar. Mas em épocas de subida do bitcoin, isso não ocorreu. Ele descreve no artigo que isso “sugere que o tether está sendo usado para proteger os preços do Bitcoin durante as quedas”.

De acordo com a reportagem do Decrypt, durante o mês passado foram emitidos o equivalente a US$ 600 milhões de tethers. A alta do valor do bitcoin coincide com essa emissão.

O site consultou Will Harborne, fundador da Ethfinex — uma casa de câmbio subsidiária da Bitfinex — que disse que os eventos estão relacionados.

Harborne afirma que quando há uma grande “impressão” de tethers, significa que muitos clientes fizeram uma encomenda da moeda para que eles fossem jogados no mercado — pouco antes dos valores aumentar. A companhia que emite a moeda diz que são necessários, no mínimo, US$ 100 mil para que os tethers sejam comprados diretamente de seu site oficial, o que gera grandes números a cada impressão.

Apesar disso, Harborne insistiu que essas ações, nas quais grandes investidores revelam suas intenções de comprar grandes quantidades de tethers não é exclusiva desta moeda, nem uma forma de manipulação de mercado.

Segundo ele, a transparência do blockchain legitima o negócio, além do fato de outras casas de câmbio receberem outros fluxos de dinheiro semelhantes. Ele argumenta que tais transferências, feitas em moeda fiduciária, ficam ocultas.

No final das contas, o anúncio da Libra certamente influenciou o preço do bitcoin, mas as coisas podem ser mais complexas. Afinal, a queda dos preços também está relacionada com hacks, relatos de fraude ou problemas de segurança.