Ossos de três auroques, espécie de boi selvagem extinto que habitou a Europa, Ásia e norte da África, foram encontrados na caverna Chan do Lindeiro em Galiza, Espanha. Estudos indicam que eles têm mais de 9 mil anos. Mas um mistério ronda esses animais: será que foram domesticados? 

Para decifrar essa charada, os paleontólogos acreditam que o código genético (DNA) dos animais e dos restos mortais de uma mulher, também com cerca de 9 mil anos, que foram encontrados perto dos auroques, podem ajudar. Os resultados foram publicados esta semana na revista PLOS One.

Os pesquisadores analisaram o DNA mitocondrial dos três ossos e do esqueleto que apelidaram de Elba. A descoberta levanta a possibilidade de domesticação – já que vários espécimes acabaram no mesmo lugar que um humano.

“Ao estudar seu DNA mitocondrial, que é transmitido quase intacto da mãe para o filho, podemos determinar em quais áreas geográficas as diferentes linhagens predominaram e quais foram seus movimentos devido às mudanças nas condições climáticas ou mesmo ao homem após o início da pecuária,” disse a coautora Amalia Vidal, paleontóloga da Universidade de Corunha, em comunicado à imprensa.

Das 18 amostras de osso retiradas de espécimes de auroque (Bos primigenius), 11 foram sequenciadas geneticamente. Os pesquisadores tiveram um indício considerável da composição genética dos animais e das relações com outros auroques de toda a Europa e vacas modernas. 

Ambas as espécies têm subtipos geneticamente distintos marcados por haplogrupo, referindo-se às grandes parcelas de DNA em um determinado cromossomo que distinguem uma população da outra. Alguns desses haplogrupos são visivelmente diferentes — o zebu, ou o gado indicino/bovino corcunda, é mais queixudo do que as vacas Jersey e tem chifres em forma de banana e uma grande corcunda. 

Anteriormente, uma equipe diferente de pesquisadores tentou descobrir por que o gado moderno no Oriente Médio, onde se acredita que os auroques tenham sido domesticados pela primeira vez, compartilham muita informação genética com o gado indicino.

“Dadas todas as evidências, como sua cronologia semelhante e o fato de os ossos se misturarem na base de uma depressão causada pelo afundamento do solo – a uma profundidade de 15 a 20 metros – pensamos que a mulher e os auroques foram encontrados juntos”, disse a coautora Aurora Grandal, pesquisadora da Universidade de Corunha na Espanha, no mesmo comunicado. Porém, “esta interpretação é controversa porque a domesticação não é considerada como existindo na época”, pondera.

O estudo mostrou que os três auroques da caverna Chan do Lindeiro pertenciam ao mesmo haplogrupo, mas possuíam uma diversidade genética surpreendente entre eles. “Isso pode indicar que eram de origens diferentes, em um cenário em que a mulher Elba teve um papel ativo; ou uma característica que simplesmente refletia uma variabilidade genética muito alta nos auroques”, disse Grandal.

A investigação também revelou que os auroques das cavernas eram mais parecidos com auroques britânicos do que qualquer um na Europa Central. Espécimes de auroques britânicos são mais recentes que os espanhóis, que até agora são os mais antigos a passar por sequenciamento de DNA mitocondrial. 

Para dar continuidade aos trabalhos, a equipe pretende examinar o DNA nuclear (que vem do núcleo da célula, em vez de sua mitocôndria, e contém informações sobre toda a ancestralidade genética, em vez de apenas ancestralidade matrilinear) para entender a relação dos auroques com bovinos modernos na região. Como os auroques foram encontrados com uma mulher, é possível que ela estivesse pastoreando-os de alguma forma. 

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Resolver esse mistério de possível domesticação dos animais extintos, não será uma tarefa fácil. Mas o DNA nuclear pode ser fator chave, já que os fragmentos de DNA nuclear de outros auroques ancestrais foram encontrados nos códigos genéticos de alguns bovinos da atualidade.