A Peggy é uma coisa que fica na beira de um anel de Saturno, uma anomalia cuja fonte nunca vimos. A sonda Cassini tirou uma última foto da Peggy durante o seu mergulho destrutivo, adicionando uma peça final ao quebra-cabeças para os futuros pesquisadores explorarem quando tentarem entender esse distúrbio misterioso.

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O veterano do projeto de 27 anos da Cassini, Carl Murray, da Queen Mary University of London, relembra da primeira vez que viu a anomalia no anel, no começo de 2013. Ele estava estudando uma imagem da lua Prometheus na beira externa do anel A, deliberadamente exposta para mostrar as estrelas no plano de fundo. “Vimos esse tipo de calombo-bolha-objeto ou o que seja”, me contou na semana passada, durante a pausa para o almoço no encontro final da Equipe de Imagens da Cassini, enquanto conversávamos nos Jardins Botânicos de Huntington, perto da Caltech.

“Obviamente queríamos saber: ‘O que é real?'”, disse Murray. Ele e seu time rapidamente checaram as imagens da área e, agora que sabiam para o que estavam olhando, continuaram achando estranho: uma falha na curva que deveria ser perfeita, na borda do anel A. “O dia que eu descobri estava no aniversário da minha madrasta”, lembrou Murray. Então, ele deu o nome Peggy ao objeto em sua homenagem. “Pareceu apropriado.”

Um objeto brilhante de 1.200 quilômetros ao redor da beira do anel A de Saturno, visto em 15 de abril de 2013. (NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute)

Pouco depois, as questões da equipe a respeito de Peggy se expandiram: “O que é isso? De onde veio? Para onde está indo?”, explicou. “Monitoramos ela desde então, praticamente.”

Murray e seus colegas perceberam que a anomalia provavelmente era causada por um objeto incorporado nos anéis. “Nunca conseguimos desvendar o objeto realmente”, disse Murray. “Tudo o que podemos fazer é monitorar a anomalia.”

Medindo o tamanho do distúrbio, ele rapidamente percebeu que não seria possível se tratar de uma lua sólida. “Seria uma lua enorme do tamanho de Titã”, explicou. “Se uma lua desse tamanho estivesse ali, com certeza iria quebrar o anel”. Em vez disso, ele percebeu que o objeto deveria ser uma nuvem densa de poeira e detritos, possivelmente englobando uma proto-lua que ainda não se libertou como um objeto independente.

À medida que o objeto misterioso se aproxima e se afasta de Saturno dentro dos anéis, ele faz com que a anomalia ao longo da borda externa altere velocidades. “Ao medir a velocidade da anomalia, podemos medir os parâmetros orbitais do objeto”, explicou Murray.

Incluir Peggy entre as seis imagens finais do sistema de Saturno tiradas pela Cassini foi, em parte, algo sentimental, mas a sonda espacial também estava coletando informações científicas valiosas. “Toda imagem que possa conter a Peggy é mais um dado que nos ajudará a entender o que é, onde está, de onde vem e para onde vai, mesmo quando não estamos mais por ali para tirar mais fotos”, disse Murray. “O fato de que essa é uma das últimas imagens da Cassini é algo tocante, mas estamos fazendo pela ciência”.

Monitorar um objeto quando você não sabe exatamente o que ele é pode ser complicado. A equipe de imagens da Cassini encontrou Peggy diversas vezes, mas nem sempre onde e quando eles esperavam. “Às vezes você a vê, às vezes, não”, contou Murray com um suspiro.

Essa incerteza tornou o planejamento para a imagem final bem complicado. “Na verdade, nós damos a Peggy uma grande margem de erro porque ela é um pouco traiçoeira de vez em quando.” Adicionando a complexidade da foto, a Cassini estava no lado mais distante do sistema, fotografando os anéis do outro lado do planeta. Isso significa que a resolução era menor: em 4,3 quilômetros por pixel, a anomalia característica de Peggy terá apenas centenas de pixels na imagem.

Murray e sua equipe ficaram acordados até tarde da noite de quinta-feira (14), esperando pelas imagens cruas serem baixadas. Eles trouxeram tudo o que precisavam para analisar a Peggy logo em seguida, trabalhando com energia antes de se juntar aos outros para ver os últimos momentos da Cassini.

Quando eu mandei um email para ele na sexta-feira (15), Murray estava otimista, mas incerto sobre a possibilidade da Cassini ter encontrado a Peggy pela última vez, escrevendo: “Gostaria de pensar que ela está naquela [imagem] que também contém Dafine”, uma pequena lua de Saturno que fica dentro do anel A do planeta no Keeler Gap, disse, antes de me enviar o link da imagem crua.

Kevin Gill ficou acordado na quinta-feira processando as imagens finais da Cassini para que elas pudessem ser liberadas na manhã de sexta-feira. “Eu não consegui achar Peggy entre os dados, embora eu ainda esteja procurando”, contou-me, confirmando que a anomalia está sendo realmente difícil de identificar. “Peggy provavelmente está lá, eu simplesmente não encontrei exatamente onde ainda.”

“Estou acostumado a ir todos os dias aos computadores quando as imagens já estão lá [para] procurar coisas divertidas, como Peggy!”, Explicou Murray. “Vai me levar um tempo para me acostumar a não conseguir ver essas imagens todos os dias.”

A missão de Cassini foi feita, e sua galeria de imagens nunca mais será atualizada. Mas Murray, seu pós-doutorado e o restante dos cientistas da missão ainda terão anos frutíferos à frente, analisando treze anos de dados e tentando entender o belo e complexo sistema de Saturno. Talvez, eles consigam até mesmo entender Peggy um pouco melhor.

Imagem do topo: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute