O que a arte e a física nuclear têm em comum? Muita coisa, se você parar para pensar: espaço, tempo, e a estrutura do visível e do invisível, para começar a lista. É por isso que a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) passou os últimos quatro anos convidando artistas para seus laboratórios. Agora o CERN está convidando um arquiteto para trabalhar com eles pela primeira vez.

Em 2011, a CERN iniciou o programa Collide@CERN (“colida na CERN”) que permitiu a artistas se candidatarem a um período de residência no laboratório suíço da organização. “Acreditamos que física de partículas e a arte estão intrinsecamente conectadas: ambas são formas de explorar nossa existência — o que significa ser humano e o nosso papel no universo,” explicou Ariane Koek, diretora do programa naquela época. “Ambas áreas são parceiras naturais para a inovação no século 21.”

Julius von Bismarck, o primeiro artista participante do programa, fez dupla com o físico teórico James Well, que estuda de tudo, desde matéria negra até noções de dimensões extras universais. Juntos eles fizeram algumas instalações de arte incríveis, além de projetos que envolveram outros cientistas da CERN. Um desses projetos foi “perguntar a 30 físicos presos em uma sala subterrânea o que eles viam no escuro”, nas palavras da própria CERN. Outro dos trabalhos colaborativos foi a instalação de um grupo de lâmpadas que balançavam sem sincronia por dezenas de vezes, até entrarem em perfeita sincronia:

Versuch unter Kreisen – Julius von Bismarck from volker racho on Vimeo.

A ideia que embasa a residência dos artistas no CERN não é algo como melhorar o moral dos funcionários, mas sim introduzir ideias novas e inesperadas nas profundas pesquisas que ocorrem dentro da organização. Ciência não pode existir no vácuo, e nem arte. Cientistas e artistas prosperam quando são expostos a perspectivas fora de sua zona de conforto. Então, por que não colocá-los juntos em um intenso projeto de criação e intercâmbio no laboratório de pesquisa nuclear mais famoso do mundo?

Desde a primeira residência com Bismarck, o programa se expandiu para incluir uma série de outros tipos de artistas, como Bill Fontana, escultor de som. Em colaboração com um cosmólogo, ele gravou as vibrações acústicas do Grande Colisor de Hádrons e outros departamentos da CERN. Você pode ouvir o experimento de Fontana aqui:

Mas é claro que manter estes artistas na CERN custa dinheiro. Para atenuar estes gastos, o programa Accelerate@CERN foi criado. Ele permite que países patrocinem a vivência destes artistas nos laboratórios. Desta forma, a Suíça pode bancar um artista digital e a Grécia um artista visual.

Este ano o programa quer ir ainda mais longe, e está procurando por um arquiteto patrocinado pela Áustria e dois artistas de performance digital ou dançarinos patrocinados por Taiwan. Parece que vai ser um mês incrível: os artistas escolhidos serão apresentados para toda a operação da CERN, o que incluirá “o casamento teórico de todas as noções de tempo e espaço, além de praticar engenharia de ponta e trabalhar com os materiais que o laboratório decidir.” Assim como Bismarck e Fontana, os próximos artistas farão pares com um físico da CERN para a produção de novos projetos artísticos.

General View Of The CERN

 

O Globo da Ciência e Inovação da CERN, desenhado por Groupe H Architects. Vittorio Zunino Celotto/Getty

Para mim, é particularmente interessante que a CERN vá hospedar um arquiteto entre as paredes ocas dos seus laboratórios. Afinal, ela já foi capaz de construir a maior máquina do planeta, e “possui um histórico em criar estruturas impressionantes, como detectores e o Grande Colisor de Hádrons, que não existem em nenhum outros lugar do planeta,” afirma a descrição do projeto. O que um arquiteto poderia adicionar ao contínuo trabalho de explorar as origens do nosso universo? E do outro ponto de vista, o que um físico teórico poderia adicionar ao trabalho de um arquiteto?

A CERN dá uma dica. O plano do projeto cita um livro de 2005: Disappearing Architecture: From Real to Virtual to Quantum (O Desaparecimento da Arquitetura: Do Real para o Virtual para o Quântico), no qual vários historiadores da arquitetura e críticos discutem que arquitetos precisam começar a imaginar o próprio trabalho em outras múltiplas realidades e ambientes, não só o físico.

Para arquitetos, o desafio do futuro está na criatividade se adequando a ambientes híbridos, entendendo e explorando a criação de potenciais espaços digitais dentro do mundo físico, e redefinindo o papel da arquitetura dentro de uma cultura dominada pelo visual.

É fascinante saber que a CERN não centraliza sua missão apenas na ciência, mas foca também na humanidade. Buscar entendimento sobre a nossa realidade necessidade não só perspicácia científica, mas também estrutural e de design. Mal posso esperar parar ver o que é que veremos nos próximos projetos. Veja como se inscrever. [CERN; h/t ArchDaily]

Imagem do topo: Peter Macdiarmid/Getty