Respondendo às críticas sobre como lidou com o surto de coronavírus, o governo chinês baniu palavras e combinações de palavras como “Wuhan”, “Cruz Vermelha” e “Crise + Pequim” das plataformas de mídia social populares. Mas os usuários das redes sociais chinesas têm sido criativos na substituição dessas palavras por frases ou abreviações mais obscuras para evitar a censura e discutir tópicos que o governo considera tabu, informou a Anistia Internacional.

Falar em código ou inventar uma nova língua não é novidade para os usuários das redes sociais na China. O governo tem uma longa lista de tópicos que censuram regularmente, principalmente assuntos relacionados aos protestos da Praça Tiananmen de 1989. O governo também bloqueia sites inteiros como Google, Reddit e Twitch, e até mesmo indivíduos como o ativista chinês de direitos humanos Liu Xiaobo, das buscas na internet. Agora que a COVID-19 conseguiu entrar na lista, o código de internet da China evoluiu novamente.

As soluções variam de simples a complexas, informou a Anistia Internacional. Para falar de lugares como Wuhan e Hubei, as iniciais ‘wb’ e ‘hb’ são usadas em seu lugar. As imagens do Panda representam o departamento de segurança doméstica. A Cruz Vermelha tornou-se ‘red ten’, uma vez que o caracter chinês para dez ‘十 Shí’ se assemelha a uma cruz, e o termo ‘F4’ refere-se a quatro políticos regionais que muitos culpam pelo surto, incluindo o governador da província de Hubei; o secretário do Comitê do Partido Comunista de Hubei; o prefeito de Wuhan e o secretário do partido de Wuhan.

Mas às vezes os usuários precisam ser mais criativos do que isso, recorrendo a frases inteiras codificadas com um subtexto profundo. “Eu não posso e não entendo”, por exemplo, é derivado de uma declaração policial vazada do Dr. Li Wenliang, o médico que não só foi punido por avisar as pessoas sobre o vírus, mas que também morreu devido a ele. (O governo chinês tem trabalhado para retirar as referências a ele e à liberdade de expressão nas redes sociais). Em uma declaração, a polícia pede que ele pare de falar sobre o coronavírus, ao que o Dr. Li Wenliang disse que o faria. De acordo com a transcrição da Anistia Internacional, a conversa foi a seguinte:

“Consegue fazer isso?”

“Consigo.”

“Você compreende?”

“Compreendo.”

Os usuários das redes sociais começaram a postar essa conversa como uma frase, mas o governo notou rapidamente e apagou as publicações. No entanto, a frase: “Não posso e não entendo”, substituiu-a. Quem a usa não está apenas dizendo que continuará a falar sobre o vírus COVID-19, mas também que não será silenciado pelo governo.

Se você procurar por algum desses termos em uma rede social chinesa popular como a Weibo, verá a linguagem codificada em ação. E se você pesquisar esses posts pelo Google Tradutor, como eu fiz, encontrará acusações de funcionários da Federação de Caridade de Wenzhou que teriam roubado máscaras, pessoas do governo usando a Cruz Vermelha para fins lucrativos e apelos para que o governador da província de Hubei renuncie. O discurso parece de muita frustração e impotência.

O governo chinês muda rotineiramente as palavras que permite e não permite nas redes sociais, por isso qualquer um destes termos alternativos pode ser bloqueado a qualquer momento, forçando os usuários chineses que queiram discutir online a forma com que o governo tem lidado com a crise a criarem um novo vocabulário. Pode parecer fútil, mas para aqueles que querem evitar ser censurados, é uma necessidade.