A tecnologia de conservação percorreu um longo caminho nas últimas décadas. Agora, os cientistas podem rastrear os padrões migratórios das aves via satélite e tentar trazer as espécies de volta à beira da extinção por meio de uma avançada tecnologia de fertilidade.

Mas ainda há espaço para mais abordagens de baixa tecnologia. Às vezes, tudo o que você precisa são pequenas redes de pesca e quatro vidros de esmalte para as unhas.



Essas foram as principais ferramentas de um projeto realizado recentemente por um grupo de cientistas cubanos e internacionais que tentavam controlar quantos morcegos orelha-de-funil cubanos maiores, em perigo de extinção, permanecem em seu último habitat conhecido de Cueva de La Barca (“caverna dos barcos”), um enorme e úmido sistema de cavernas subterrâneas na segunda maior ilha de Cuba, a Isla de la Juventud.

Morcegos no pântano de Guano. Foto: ZSL

“Estamos tentando calcular a densidade dos morcegos e, para isso, precisamos capturá-los, marcá-los de alguma forma e depois liberá-los”, disse José Manuel De La Cruz Mora, especialista em morcegos do Museu de História Natural da cidade de Pinar del Rio, ao Gizmodo.

No entanto, devido ao status frágil e ao tamanho modesto dos morcegos, De La Cruz Mora disse que métodos mais comuns de captura e recaptura usados ​​para contar mamíferos, como pequenos cortes, colares ou grampos nas asas, não eram uma opção.

“Acima de tudo, precisávamos de algo inofensivo para os morcegos e não permanente”, disse ele.

Morcego orelha-de-funil cubano maior. Foto: ZSL

Assim, nasceu a ideia de dar a cada animal sua própria manicure. A equipe usou redes pequenas, com fios mais finos que uma rede de pesca para capturar cada morcego. Os cientistas marcaram as garras de cada um com uma combinação única de quatro cores diferentes de verniz não permanente. Esse trabalho feito nas unhas significava que eles poderiam identificar os animais que já haviam capturado, o que lhes permitiu ter uma ideia da densidade populacional de morcegos na caverna. Todo o processo levou cerca de 20 minutos por morcego, de acordo com De La Cruz Mora.

O morcego orelha-de-funil cubano maior, ou Natalus primus, é frequentemente chamado de morcego que voltou dos mortos. Há muito tempo considerado extinto, dois cientistas encontraram o animal na remota floresta de Cueva la Barca em 1992.

O parque nacional adjacente na península ocidental da ilha foi ampliado, e o foco desde então tem sido proteger a caverna e os morcegos. O ambiente em que as espécies nativas de morcegos prosperam — quente e escuro — significa que estudá-las e monitorá-las não é tarefa fácil. Se você é claustrofóbico, tem problemas com rastejantes assustadores ou tem medo de escuro e geralmente desidrata com calor extremo, a Cueva de la Barca é basicamente o seu pior pesadelo.

Gravação de chamados de morcegos na caverna. Foto: Oliver Wearn (ZSL)

“No total, tivemos oito sessões na caverna”, diz De La Cruz Mora. “Mas podemos ficar lá no máximo uma hora, pois não temos ideia do impacto que os seres humanos podem ter nesses morcegos. Eu diria que o máximo de morcegos que capturamos em uma sessão é sete.”

Os motivos para uma taxa de captura relativamente baixa são numerosos. Por um lado, as cavernas abrigam 13 espécies diferentes de morcegos. E muitos outros animais, como cobras, centopeias, tarântulas e caranguejos gigantes, chamam as cavernas de casa, adicionando um certo grau de fator medo. A luz é mínima e a temperatura gira em torno de 40 graus. Mover-se também requer cautela básica, pois o chão da floresta ao redor da caverna é coberto por um coral pontiagudo irregular e antigo.

Mas, apesar das longas horas de suor durante a expedição de duas semanas, há razões para os pesquisadores estarem otimistas. A partir do processo de captura e recuperação, a equipe estimou que a densidade máxima para a população Natalus primus na caverna é inferior a 750 morcegos. Isso significa que agora eles têm uma ideia tangível de quão grande e viável a colônia poderia ser, ajudando a planejar os esforços de conservação.

De La Cruz Mora falou com o Gizmodo por telefone dos escritórios da Zoological Society of London (ZSL). Como bolsista da Fondation Segré ZSL, ele recebe financiamento para estudar e promover o morcego orelha-de-funil, classificado como EDGE (Espécies Evolucionárias Distintas e Globalmente Ameaçadas de Extinção) pela instituição.

O conservacionista da ZSL EDGE pintou as ‘unhas’ ou garras do morcego orelha-de-funil para ajudar a identificar os indivíduos. Foto: ZSL

O governo comunista de Cuba tem uma longa tradição de ajudar a conservar seu ambiente e uma biodiversidade única (e muitas vezes não anunciada). Mas o financiamento externo tem sido uma ajuda, porque as sanções do país pressionam a economia há anos, levando a extração ilegal de madeira, desmatamento e destruição de habitats.

A própria Cueva de la Barca fica a meros 250 metros dentro do limite do Parque Nacional Guanahacabibes, e as empresas madeireiras operam nas proximidades. Com as incógnitas de como o aumento da temperatura devido às mudanças climáticas pode impactar um ecossistema tão único e as espécies que precisam dele para sobreviver, o foco agora deve estar na proteção da colônia na caverna, em vez de tentar reintroduzir ou aumentar o número populacional do morcego em outro lugar.

“Acho que agora o foco deve ser o uso dessas novas informações para mudar primeiramente o status da IUCN do Natalus primus de vulnerável para obter mais proteção”, disse De La Cruz Mora.

Natalus primus. Foto: Oliver Wearn (ZSL)

Os morcegos da família Natalidae, evoluíram distintamente de outras espécies de morcegos e representam milhões de anos de evolução. Segundo registros arqueológicos, eles já foram encontrados em número muito maior no Caribe. O fato de agora estarem quase cercados em uma última caverna nas remotas florestas ocidentais de Cuba é uma calamidade e um declínio da biodiversidade que, infelizmente, não é única no mundo.

No entanto, os cientistas sabem que ele estão lá e agora sabem (aproximadamente) quantos eles são. E alguns têm até as unhas pintadas.