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Cientistas de Stanford compartilham sequência completa do mRNA de vacina da Moderna

Documentos estão disponíveis na internet. Mas calma: isso não significa que você poderá fabricar as próprias vacinas dentro de casa.

Imagem: Radek Mica/AFP (Getty Images)

Imagem: Radek Mica/AFP (Getty Images)

Um grupo de pesquisadores de Stanford hackeou a vacina de RNA mensageiro (mRNA) da farmacêutica Moderna para o novo coronavírus e publicou toda a sequência genética do imunizante, de graça, no repositório de código aberto Github. As informações foram relatadas pelo Motherboard na última segunda-feira (29).

As vacinas de mRNA funcionam entregando informações genéticas que permitem que as próprias células do corpo produzam uma proteína viral. Essa proteína funciona como uma versão inofensiva e projetada da proteína spike que o coronavírus usa para invadir as células do corpo.

Quando o organismo produz essa proteína, o sistema imunológico rapidamente se mobiliza para combatê-la, conduzindo uma espécie de exercício de treinamento que o prepara para lutar contra o coronavírus real. O mRNA entregue pela vacina se desintegra rapidamente, mas os anticorpos permanecem como uma proteção contra infecções futuras. De acordo com o MIT News Office, isso permite uma produção muito mais fácil e rápida do que as gerações anteriores de vacinas, que por sua vez dependem da fabricação de proteínas em condições de laboratório. A sequência de mRNA serve mais ou menos como uma espécie de código-fonte para a vacina.

Os documentos que a equipe de Stanford publicou no Github incluem duas páginas de explicação e duas páginas contendo toda a sequência de mRNA da vacina da Moderna. Os pesquisadores escreveram no relatório que, embora o mRNA da companhia tenha sido aplicado em uma grande faixa da população, os cientistas e a equipe médica não têm acesso às sequências genéticas reais envolvidas.

“Com o lançamento de vacinas para Covid-19, esses mRNAs sintéticos se tornaram espécies de RNA amplamente distribuídas em numerosas populações humanas. Apesar de sua onipresença, as sequências nem sempre estão disponíveis para tais RNAs. O compartilhamento de informações de sequência para terapias amplamente utilizadas tem o benefício de permitir que qualquer pesquisador ou médico, usando abordagens de sequenciamento, identifique rapidamente tais sequências como derivadas de terapêuticas em vez de hospedeiras ou infecciosas na origem”, dizem os pesquisadores.

A equipe de pesquisa disse ao Motherboard que eles não fizeram “engenharia reversa” da vacina — eles simplesmente “postaram a sequência de duas moléculas de RNA sintéticas que se tornaram suficientemente prevalentes no ambiente geral da medicina e da biologia humana em 2021”.

“Conforme a vacina estava sendo lançada, essas sequências começaram a aparecer em muitos estudos investigativos e diagnósticos diferentes. Conhecer essas sequências e ter a capacidade de diferenciá-las de outros RNAs na análise de futuros conjuntos de dados biomédicos é de grande utilidade”, afirmaram Andrew Fire e Massa Shoura, dois cientistas de Stanford.

“Para esse trabalho, os RNAs foram obtidos como descarte das pequenas porções das doses da vacina que permaneceram nos frascos após a imunização; tais porções teriam de ser descartadas e analisadas sob a autorização do FDA para uso em pesquisa”, acrescentaram. Os cientistas também declararam ter recebido permissão do FDA para coletar sobras de vacinas que não teriam sido usadas de frascos vazios, e que notificaram a Moderna com antecedência de seus planos de publicar a sequência sem sofrerem qualquer represália.

As vacinas de mRNA da Moderna e da Pfizer-BioNTech foram as primeiras aprovadas pela FDA para uso emergencial nos Estados Unidos. De acordo com o Motherboard, o fundador do PowerDNS, Bert Hubert, conseguiu usar dados disponíveis publicamente para revelar a sequência de mRNA da Pfizer no final do ano passado.

Como Hubert escreveu, isso não significa que alguém vai fabricar em casa qualquer uma das vacinas. Hubert detalhou a complicada cadeia de abastecimento que alimenta a fabricação de vacinas das empresas farmacêuticas — e ela envolve inúmeros ingredientes complexos, produção de DNA e mRNA em instalações especializadas e combinação de mRNA e lipídios em nanopartículas de lipídios (LNPs). Este último, inclusive, pouquíssimos especialistas sabem como fazer. As etapas finais, incluindo a formulação em que os LNPs são misturados com outros ingredientes mais genéricos e colocados em frascos, também exigem conhecimento e equipamentos especializados.

“Tecnicamente, a última etapa da cadeia de abastecimento dessas vacinas de mRNA contra Covid-19 é a produção da proteína spike. Isso é o que acontece nas células do seu corpo depois que você recebe a vacina. Você é a revolução na fabricação de vacinas distribuída globalmente”, concluiu Hubert.

Segundo a revista Time e a CNBC, a administração de Joe Biden está enfrentando pressão de alguns legisladores para suspender as proteções de patentes sobre as vacinas de Covid-19, na esperança de garantir que os incentivos de lucro não atrapalhem os níveis de vacinação em massa que poderiam extinguir a pandemia. Scott Gottlieb, ex-comissário da FDA e membro do conselho de diretores da Pfizer, argumentou que os gargalos na vacinação em massa residem principalmente em suprimentos e produção, não em restrições de propriedade intelectual.

[Wired]

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