Em meio ao mês mais quente da história, alguns novos recordes ainda são capazes de nos deixar de queixo caído. É o caso de uma medição feita no Ártico em julho deste ano.

De acordo com dados divulgados na análise climática mensal da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), uma estação meteorológica na Suécia ao norte do Círculo Polar Ártico atingiu impressionantes 34,8°C no mês passado. Como um dado isolado, já seria chocante. Mas juntamente com uma série de outros fatores, desde ausência de gelo no mar a menos de 200 quilômetros do Alasca até os incêndios descontrolados que assolam a Sibéria, é um ponto de exclamação sobre a crise climática.

A temperatura elevada foi registrada em 26 de julho no pequeno posto avançado sueco de Markusvinsa, que fica no extremo sul do Círculo Polar Ártico. Deke Arndt, um cientista climático da NOAA, disse em um telefonema com os repórteres que os dados foram analisados ​​e confirmados pelo Instituto Meteorológico e Hidrológico Sueco e que “eles estabeleceram isso como a temperatura mais alta ao norte do Círculo Ártico” no país. Para efeito de comparação, a temperatura mais quente registrada em Nova York no mês passado foi de 35°C.

A onda de calor que envolvia o Ártico se espalhou muito além de Markusvinsa. O Alasca registrou seu mês mais quente em meio a um clima extremamente estranho para o estado. O calor provocou incêndios gigantescos, e a fumaça desses incêndios envolveu Anchorage e Fairbanks, sendo que o primeiro teve seu verão com mais fumaça já registrado, de acordo com o especialista em clima do Alasca, Rick Thoman. Uma alta taxa de mortalidade de salmões, a vinda de morsas vindo à terra mais antecipada já registrada, e animais mais magros também foram relatados em todo o estado.

Durante a mesma declaração à imprensa, Thoman explicou as razões pelas quais tem ocorrido eventos tão estranhos no Alasca. O maior deles é o desaparecimento do gelo marítimo seis a oito semanas antes do previsto, o que deixou uma faixa circular de mais de 200 quilômetros de água em todo o estado. Os oceanos já estavam quentes no verão, mas a água oceânica absorveu ainda mais calor em comparação com a cobertura de gelo normalmente reflexiva.

Thoman chamou isso de “calor notável” e disse que superou a onda de calor oceânico batizado de “The Blob”, que atingiu o nordeste do Pacífico em 2015. Os oceanos quentes, por sua vez, aqueceram o solo terrestre. O aumento da evaporação causou um aumentou de umidade, levando a algumas noites desconfortavelmente quentes no Alasca.

Assim como o calor não ficou confinado a Markusvinsa, o gelo marítimo desaparecido não é apenas exclusividade da costa do Alasca. O Oceano Ártico como um todo registrou sua menor extensão de gelo marítimo de julho, o que poderia ter ajudado em parte a alimentar uma tempestade de raios a apenas algumas centenas de quilômetros do Polo Norte.

O gelo marítimo foi de 19,8% abaixo da média, caindo muito mais que a baixa anterior estabelecida em julho de 2012. O ano de 2012 foi quando o gelo do mar bateu um recorde mínimo. Embora ainda estejamos de seis a oito semanas do mínimo anual de gelo marinho, e as coisas podem mudar no próximo mês, a quantidade de gelo deste ano está definitivamente em péssimo estado.

O calor ártico de julho é parte de uma tendência global maior impulsionada pela poluição por carbono. Os dados da NOAA divulgados na quinta-feira (15) também confirmaram que julho foi o mês mais quente já registrado na Terra, com uma temperatura mais de 0,95 graus Celsius acima da média do século XX. Com base no calor dos primeiros sete meses de 2019, o mundo quase certamente terá um dos seus cinco anos mais quentes já registrados. Usando dados analisados ​​separadamente pela Berkeley Earth, o cientista climático Robert Rohde tuitou que há 90% de chance de que 2019 fique como o segundo ano mais quente já registrado, perdendo apenas para 2016.