Algumas das nossas vacas e galinhas são medicadas. A relativa segurança destes medicamentos é pauta de contínuos debates, e algumas drogas são até mais comuns que outras. Mês passado, a Bloomberg mostrou que as Fazendas Sanderson estão sendo processadas por alegadamente medicar seus frangos com cetamina – um medicamento para induzir e manter a anestesia.

Você não vai ficar dopado da próxima vez que comer uns nuggets – até a mais viciada das vacas já estaria limpa até o abatimento e envio ao mercado. Mas ainda assim: existe a possibilidade? Se algumas vacas fossem hipoteticamente alimentadas com uma substância controlada, poderia a carne desses animais drogar alguém que as comesse? Os efeitos de substâncias são transferíveis a humanos pela carne do animal que a consumiu?

Para responder a esta questão entramos em contato com diversos especialistas em segurança alimentar e química – e enquanto eles responderam primordialmente a hipótese dos efeitos de antibióticos não digeridos ou impropriamente digeridos (o cenários mais plausível), a questão talvez seja aplicável a qualquer substância (Micólogos, por exemplo, puderam nos responder questões sobre o consumo de cogumelos psicodélicos ingeridos por animais).

Rich Sachleben, PhD

Especialista na American Chemical Society e membro do Desenvolvimento Químico da Momenta Pharmaceuticals que passou treze anos no Laboratório Nacional de Oak Ridge.

Depende do que for. Caso seja uma droga particularmente sensível a humanos, e o consumo dela tenha sido alto, absolutamente. Não é nem uma hipótese. Pode ser o caso de alguém, deliberadamente ou acidentalmente, ter exposto um animal a droga – e caso a dosagem tenha sido alta o suficiente e o animal não a tenha excretado a tempo, ela então passaria para humanos a níveis potencialmente danosos. Isso é particularmente real para os consumidores mais sensíveis – crianças, idosos, e pessoas com algum tipo de doença. Se você tem insuficiência renal, ou problemas do coração, e uma droga chega até você, isso acaba sendo ruim para seus rins e coração. Pessoas sensíveis poderiam até mesmo sofrer uma reação que as põe em risco. É um cenário extremo, mas não totalmente implausível.

Então, se você alimenta animais com substâncias específicas, estes animais adentram a cadeia alimentar e pessoas os comem, elas estarão expostas aos químicos que os animais comeram? A resposta é absolutamente sim.

Se um animal se alimenta de qualquer coisa que seja, é possível ou não que ela mude quando está dentro do corpo. Animais (e pessoas) usam açúcar como combustível, e o convertem em dióxido de carbono e algumas outras coisas. Isso não significa que não há açúcar no nosso corpo – há – mas o corpo controla os níveis. Ele ou sai pela porta de trás, ou é absorvido  e sai pela porta da frente, ou muda. É isso o que acontece com tudo o que comemos.

Mas o governo tem regras, e faz inspeções e o departamento de agricultura também faz inspeções. Como animais são alimentados, como seus problemas veterinários são tratados, você sabe, eles são alimentados com certas substâncias para ganhar peso mais rápido. É preciso tratar as doenças destes animais, etc etc. Quem quer que seja que queira ganhar a vida alimentando os outros precisa mostrar que tudo que é dado aos animais é seguro. Existem diversas regulações e tudo é monitorado bem de perto.

Peter McCoy

Fundador original da Radical Mycology, especialista em cultivação líder da Amazon Mycorenewal Project, e micólogo conselheiro da Open Source Ecology and Permaculture Magazine North America

As triptaminas psicoativas psilocina e psilocibina são encontradas em dezenas de espécies de cogumelos pelo mundo, sendo a mais familiar a psilocybe cubensis, mais comumente conhecido como “cogumelo mágico”. Em humanos, este composto se distribui pelo corpo depois de consumidos apenas para serem quebrados muito rapidamente pela monoamina oxidase (MAO). Muito desse composto é expelido do corpo depois de 12 horas.

MAOs também são encontradas em outros animais, mas suas ações variam dependendo da espécie. Sem um estudo dedicado do consumo de psilocina e psilocibina de determinado animal, é difícil prever quanto estaria presente em cada espécie depois de determinado período. É possível que a carne de uma galinha que se alimentou destes cogumelos e foi morta em seguida para consumo ainda esteja psicoativa.

Agora, se estes compostos podem ser transferidos para os ovos é desconhecido para mim. Entretanto, outros cogumelos (não psicoativos) – como o composto medicinal cordycepin – já foram transferidos para as gemas de galinhas que foram alimentadas com eles.

Tom Seymour

Naturalista, colhedor e autor de Plantas Selvagens de Maine, além de outros livros.

A resposta é absolutamente sim, e é inclusive uma das razões por termos tantos casos de superbactérias resistentes a antibióticos, porque animais de fazenda recebem a medicação (e muitas outras coisas). Isso fica no sistema deles e é transferido aos consumidores, sem dúvida alguma. Mas poderia a carne de galinhas e vacas que se alimentaram de cogumelos psicoativos transferir suas propriedades ao consumidor? Neste caso a resposta é não, porque a propriedade dos cogumelos é etérea. Para reservar uma planta medicinal para uso futuro, é preciso preservar os ingredientes ativos – se não, eles dissipam. Depois de colher uma planta, este ingrediente não durará para sempre. Pegue a maconha como exemplo. Alguém ingere maconha e fica doidona. Bem, sim, haverá traços da planta no sistema dessa pessoa por algum tempo – mas elas não ficam alteradas por um longo período. Então, se uma vaca ou uma galinha se alimentam de maconha, elas talvez experienciem algumas coisas, por breves momentos, mas depois que o efeito passa, a pessoa que comer a carne destes animais não ficará drogada. Seja a maconha ou cogumelos psicoativos, eu acredito que seja virtualmente impossível para uma pessoa ser afetada ao comer a carne de animais que se alimentaram destes alimentos. É algo breve. É transitório.

David Acheson, M.D.

Fundador e CEO do Acheson Group, que assiste companhias de alimentos e bebidas em eficiência operacional, controle de riscos e cumprimento de regulações.

Seria necessário que deliberadamente deixassem de cumprir as regras para isso acontecer. Pode acontecer, absolutamente, mas não deve. Globalmente, existem precedentes: em países onde o sistema regulatório não é muito forte, e as pessoas tem a liberdade para dizer “eu não sabia disso”. Então de fato acontece.

Vamos usar o antibiótico como exemplo. Quando você ingere um antibiótico, parte vai para o intestino enquanto alguma porção é absorvida pela corrente sanguínea. Você talvez esteja tomando um para tratar uma garganta inflamada, talvez esteja tomando para tratar uma bronquite, então, obviamente, o antibiótico terá de ir da sua para boca os seus pulmões, e como é que ele vai chegar lá? Bem, ele chega ao destino pela sua goela, se dissolvendo e sendo absorvido pela corrente sanguínea. Em, digamos, uma ou duas horas depois de tomar a droga, haverá detectáveis níveis dela no seu sangue. O sangue passa por tudo e o mesmo ocorrerá com a medicação.

Caso antibióticos sejam dados a um animal, duas horas depois a droga estará no tecido do bicho, sem dúvida. Você abate o animal, o medicamento estará na carne. Uma droga como o antibiótico pode ter uma meia-vida de duas ou três horas; uma droga de longa duração, que você toma apenas uma vez por dia, terá uma meia-vida de 12 horas. A regra prática é que leva pelo menos seis meias-vidas antes da droga se tornar indetectável no corpo, pelo menos no caso de humanos. Estatisticamente, dentro de seis meias-vidas não será possível encontrar mais traços.

Geralmente, há uma enorme margem de segurança para este tipo de coisa nas regulações mundiais. Você talvez diga, bem, a droga estará indetectável em 24 horas, mas nós diremos que deve haver um período de retração de dez dias a duas semanas, que é o padrão para antibióticos para animais.

Kurt Piepenbrink, PhD.

Pós-doutorando da Escola de Medicina da Universidade de Maryland

A resposta simples é sim, porém é altamente improvável graças aos cautelosos esforços de produtores alimentícios e agências reguladoras. A grande maioria das drogas de uso animal vem de hormônios (para promover o crescimento) e antibióticos (primordialmente para tratar infecções). Diversos estudos concluíram que as partes dos animais que consumimos não contem quantidades significantes de nenhum dos dois quando chega o momento de abatê-los. Acredito que é importante que as pessoas tenham consciência que a segurança alimentícia é o resultado de constante vigilância; muitas classes de drogas são perfeitamente capazes de serem transferidas pela cadeia alimentar, a boa notícia é que não há razão para isso acontecer no momento.

Entretanto, o fato de consumidores não serem afetados pelos medicamentos na carne que consomem não significa que o uso de drogas (particularmente o uso de antibióticos) não apresenta riscos para os consumidores. Como o uso deste medicamento tem elevado, a resistência de várias de classes de bactérias também se elevou. Quanto disso pode ser atribuído ao uso de antibióticos na pecuária é altamente controverso. Para aliar estas preocupações, alguns produtores de alimentos nos Estados Unidos tem voluntariamente reduzido o uso de antimicrobianos e as regulações do governo publicaram recentemente novas diretrizes para reduzir o uso destes em animais. Mas globalmente o uso destes continua a aumentar; metade do uso de antibióticos para consumo e em animais vem anualmente da China, por exemplo.

Jeff Kronenberg, M.S.

Especialista em processamento alimentar na Escola de Ciência do Alimento na Universidade de Idaho

Às vezes, vacas leiteiras contraem mastite e outras doenças. Fazendeiros produtores de leite que cuidam bem de seus animais providenciarão remédios para tratar a infecção das vacas. Essas drogas, como antimicrobianos beta lactâmicos (penicilina), pode ser excretado no leite da vaca. Por causa disso, remédios veterinários são rotulados pela fabricante com instruções para o fazendeiro descartar o leite dos animais doentes da cadeia de fornecimento até que a droga não seja mais excretada pelo leite. Entretanto, se o período de retração for violado, resíduos dos antibióticos podem terminar no leite da vaca que é fornecido aos processadores de laticínios que produzem leite para consumo, queijo, manteiga e outros produtos. Existem alguns perigos com estes resíduos: mais importante, um consumidor alérgico a antibióticos pode ter uma reação mortal caso ele consuma comida com resíduos do medicamento. Além disso, antibióticos podem causar um efeito adverso em bactérias benéficas, como os lactobacilos, que são usados para produzir iogurte e outros laticínios fermentados. Prevenção integral deste potencial perigo da segurança alimentar começa na fazenda produtora de leite, mas a maioria dos processadores de laticínios testa novos carregamentos de leite da fazenda para resíduos de antibióticos a níveis que violam a regulamentação do governo. Carregamentos de leite que de resultado positivo nesses testes não são aceitos na unidade de processamento. Caso os resíduos se percam no teste, parte dos processos de calor da unidade vão reduzi-los, mas não elimina-los por completo.

Um cenário semelhante existe no bovino de corte. Este gado pode receber medicamentos veterinários, e existe um período de retração mandatório antes que eles possam ser vendidos para unidades de processamento. O governo também monitora estas unidades e resíduos de drogas, como antibióticos, no gado que serve para consumo.

Imagem de topo: Angelica Alzona/Gizmodo