Na última semana, a humanidade conseguiu pousar em um cometa pela primeira vez. Mas o pouso não ocorreu totalmente como esperado: o módulo Philae caiu na sombra de um penhasco, onde seus painéis solares não podem obter energia o suficiente.

O módulo de pouso está agora em modo suspenso, mantendo “desligados todos os instrumentos e maioria dos sistemas a bordo”. Felizmente, os engenheiros conseguiram obter todos os dados coletados sobre o cometa antes que as baterias do Philae se esgotassem. Se tivermos sorte, ele pode acordar quando se aproximar do Sol.

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A ESA (Agência Espacial Europeia) explica:

A partir de agora, nenhum contato seria possível, a menos que os painéis solares recebam luz o suficiente para gerar energia e acordá-lo. A possibilidade de isso acontecer aumentou esta noite, quando os controladores da missão enviaram comandos para girar o corpo principal da sonda, para que os painéis solares fiquem fixos. Isto pode ter exposto mais os painéis à luz do Sol.

O Philae pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, que orbita a cerca de 500.000.000 km de distância do Sol. No entanto, seu equipamento de pouso não funcionou como deveria: o módulo saltou duas vezes e foi parar na sombra escura de um penhasco. Os painéis solares do Philae não estavam recebendo luz o bastante, e quando acabou a carga inicial de sua bateria, ele se desligou. O módulo deveria operar até março de 2015.

Perfurando

Mas antes do “câmbio desligo”, Philae teve que trabalhar – e com mais urgência do que nunca. Sua maior prioridade era o experimento COSAC (sigla em inglês para Amostra e Composição do Cometa). O objetivo é analisar amostras recolhidas a 25 cm abaixo da superfície do cometa.

E contra todas as expectativas, o Philae confirmou que perfuramos a superfície de um cometa pela primeira vez. A ESA recebeu dados de telemetria indicando que a broca funcionou.

Antes, acreditava-se que o Philae estava com um dos seus três pés no ar. Com a baixa gravidade – 100.000 vezes inferior à da Terra – perfurar o solo poderia desestabilizar todo o módulo. Mas a ESA descobriu que os três pés estavam no chão, então eles seguiram em frente e perfuraram o cometa.

Um último experimento

O experimento COSAC estava à procura de moléculas orgânicas, principalmente aminoácidos, que são um dos blocos de construção da vida. Os aminoácidos possuem quiralidade, ou seja, podem ser “canhotos” ou “destros” – um é a imagem espelhada do outro. Os aminoácidos na Terra são quase todos “canhotos”, e se encontramos o mesmo no cometa, isso daria credibilidade à teoria de que a vida na Terra foi semeada por cometas que colidiram com nosso planeta.

Isso se chama panspermia: basicamente, é a hipótese de que a vida – ou as suas partes essenciais – podem ter se originado em outros lugares, viajando pelo espaço em cometas e asteroides que colidiram aqui.

O COSAC é especialmente fundamental porque aminoácidos não vaporizam, então só é possível estudá-los no próprio cometa. E o Philae parece ter enviado de volta dados do experimento:

Outro instrumento, o Ptolemy, também está recolhendo dados sobre isótopos de hidrogênio para determinar o quanto de água da Terra pode ter se originado de cometas. Outros instrumentos também vêm recolhendo dados sobre as propriedades térmicas e mecânicas da superfície do 67P/C-G. A sonda Rosetta, que levou o Philae ao espaço e agora orbita o cometa, vai enviar os dados de seus próprios instrumentos até agosto de 2015.

Sucesso

As chances são pequenas de o Philae obter energia suficiente para despertar. Uma manobra de última hora girou um painel solar em direção ao Sol para tentar isso. À medida que o cometa se aproxima do Sol, essa possibilidade poderia aumentar.

A ESA está otimista sobre a missão no cometa, apesar de hibernação do Philae, dizendo que foi “um enorme sucesso”. O módulo enviou uma abundância de dados sem precedentes, apesar de ter apenas algumas horas – em vez de meses – para coletá-los.

A agência espacial reitera que o Philae não morreu: ele está em estado de hibernação até que receba luz solar – e, quem sabe, possa trabalhar de novo.

Dez anos atrás, a humanidade enviou uma nave espacial em uma jornada de 6 bilhões de quilômetros para chegar a 65.000 km/h. Em seguida, pousou sobre ele, usando o equipamento que estava adormecido há uma década no vácuo do espaço. Não foi perfeito, mas conseguimos!

Boa noite, Philae. Mas não diga adeus. [ESA]

Imagem superior: representação artística da descida do Philae em um cometa/ESA