Antes dos smartphones limarem seus teclados físicos e substituí-los por telas sensíveis ao toque bem coloridas, o T9 era o rei dos softwares para dispositivos móveis. O método de texto previsível mudou a forma com que as pessoas escreviam mensagens e permitiu uma digitação muito mais rápida do que nos antigos e minúsculos teclados.

O sistema nos deu uma amostra de um mundo onde os telefones não ajudariam as pessoas apenas a conversarem com as outras de qualquer lugar, como também funcionariam para e-mails e programas no estilo MSN.

Na semana passada, Martin King, 60 anos, um dos inventores do método T9, morreu em Seattle depois de cinco anos lutando contra o câncer.

A ideia do T9 surgiu quando as mensagens de texto começavam a se popularizar. Mas digitar SMSs em teclados minúsculos com apenas 9 teclas era algo horrível.

O T9, ou Text on 9 Keys, mudou isso. Ele permitiu que os usuários escrevessem palavras apertando uma única tecla com a letra inicial. Os primeiros sistemas tinham várias letras associadas com cada tecla e o usuário tinha que escolher uma delas, sendo necessário dois ou mais toques no teclado do telefone.

O T9 também combinava grupos de letras em cada teclado com um dicionário, que era gerado pela frequência de uso das palavras. Assim, os usuários começaram a escrever muito mais rápido usando as palavras que usavam com mais frequência antes, ou acessando as outras opções com o clique de um botão.

Os usuários podem, inclusive, adicionar manualmente novas palavras a serem integradas ao software do T9. (Vale a pena ler esse detalhado e sensacional artigo sobre como o T9 surgiu e como ele virou moda.)

O T9 transformou a relação do usuário com o celular. Ele levou as pessoas além das chamadas de voz, criando a habilidade de teclar mensagens curtas e e-mails longos. Na realidade, o T9 tornou-se tão popular mundialmente, que ele é usado até hoje por muitos.

O sistema surgiu do trabalho de King e do co-fundador Cliff Kushler, que envolvia o desenvolvimento de produtos especiais para pessoas deficientes e com necessidades físicas. King foi o responsável pela criação de um dispositivo de comunicação baseado no movimento dos olhos, produto que gerou a criação de sua empresa, batizada de Tegic Communications, em 1995.

Como parte do trabalho dos aparelhos de rastreamento do movimento dos olhos, King e Kushler buscavam o modo mais eficiente de escrever um texto curto usando pouquíssimos movimentos oculares. Essa pesquisa foi o embrião de um novo tipo de digitação, mais tarde batizado de método T9.

A Tegic foi vendida para a AOL, em 1999, por U$350 milhões e, em 2007, a Nuance Communications comprou a companhia.

Num belíssimo tributo a King, o blog Techflash conta como King tentou resolver vários problemas:

King tinha uma habilidade única de olhar problemas de vários ângulos, descobrindo novos caminhos para resolver questões complexas, lembra Mason Boswell, um advogado de patentes de Seattle, que trabalhou por anos ao lado do inventor.

“Ele normalmente levantava questões que conectavam dois problemas de uma forma que eu jamais imaginaria, mas que mostravam claramente um novo caminho de inovação”, disse Boswell. “Ele também tinha uma visão cerca de 10 anos à frente de seu tempo, pensando em produtos que transcendiam as limitações de hardware da época, e falando sobre coisas que se tornariam populares com o passar dos anos.”

King foi diagnosticado com câncer há cinco anos. O que não impediu que ele criasse uma nova companhia chamada Exbiblio. Co-fundador da Tegic, Kushler trabalha agora numa empresa chamada Swype, que curiosamente está mudando o mundo da digitação novamente, agora em telas sensíveis ao toque.

Cerca de 4 bilhões de telefones no mundo ainda usam o software T9.