Conheça a 1ª escola de fotografia para cegos do Brasil; confira as imagens

Escola no Espírito Santo funciona desde agosto de 2022 e já planeja sua primeira exposição para este ano; confira a reportagem do Giz Brasil
Conheça a primeira escola de fotografia para cegos do Brasil
Imagem: Alice Dordenoni/Cia Poéticas da Cena Contemporânea/Reprodução

Como fotografar um mundo que você não vê? Pelo menos, não com seus próprios olhos. Essa é a difícil tarefa trabalhada pela Escola de Fotógrafos Cegos, no Espírito Santo, a primeira do Brasil focada nas pessoas com deficiência visual. Acompanhe a reportagem do Giz Brasil:

A escola é mais um resultado da pandemia de Covid-19, que atingiu o mundo três anos atrás. Em 2019, o coletivo Companhia Poéticas da Cena Contemporânea lançou o  o projeto Cena Diversa, focado na inclusão de pessoas cegas no teatro, música e cinema. 

Tudo ia bem, até que em 2020 todos tiveram que ficar em casa. Mas o grupo não queria ficar parado e desenvolveu uma maneira de voltar as ruas de forma segura: a fotografia. A atividade poderia ser feita em locais abertos, com distanciamento entre as pessoas e com uso de máscaras. 

O primeiro workshop recebeu o nome de Câmera Obscura e teve a participação de apenas duas pessoas cegas. “Percebemos que deu certo, eles podiam perfeitamente produzir imagens seguindo a nossa voz quando tinha uma descrição do enquadramento. Eles ajustavam e escolhiam o que queriam fotografar, participavam dessas escolhas e desenvolviam o olhar deles sobre o mundo mediados pela nossa voz”, conta Rejane Arruda, diretora do coletivo.

Rejane, que era também na época professora de fotografia na Universidade de Vila Velha, no Espírito Santo, resolveu ampliar o projeto. Era hora de criar a escola apenas para deficientes visuais. 

Conheça a primeira escola de fotografia para cegos do Brasil

Clique feio por Alice Dordenoni, uma das alunas do projeto. Imagem: Alice Dordenoni/Cia Poéticas da Cena Contemporânea/Reprodução

Isso foi possível graças a Lei de Incentivo à Cultura capixaba inaugurada em fevereiro de 2021. Agora, as empresas poderiam patrocinar projetos culturais obtendo desconto no ISS.

Os planos saíram do papel em julho de 2022. Os participantes foram convocados através do Whatsapp. Aqueles que demonstravam interesse passavam por um processo seletivo com entrevistas em casa.

A escola nasceu com 12 alunos, metade homens e metade mulheres, sendo a maioria pessoas periféricas. Seis dos participantes já atuavam no Projeto Cena Diversa. Todos devem receber durante um andamento do projeto uma bolsa mensal no valor de R$ 360 cedida pela ES Gás. 

Dentro das salas

As aulas começaram em agosto de 2022. Elas ocorrem às quintas e sextas-feiras e devem acontecer até abril deste ano. Dentro das salas, os alunos fotografam com acompanhamento do professor, que guia o clique.

Mas a câmera de modelo Canon SL3 pode ser levada para casa pelos participantes, que tiram fotos sozinhos. “Nas aulas eles treinam conosco, eles têm a gente para descrever o que eles estão fotografando. Sozinhos não, eles estão literalmente as cegas, mas eles criam uma memória do que eles vivenciaram na aula e repetem”, diz Rejane.

Conheça a primeira escola de fotografia para cegos do Brasil

Foto tirada pelo aluno Manoel Peçanha durante seus treinos em casa. Imagem: Manoel Peçanha/Reprodução

A câmera fica na configuração automática, mas os alunos sabem ajustar zoom, mudar os modos ou mesmo alternar de colorido para preto e branco. Assim, eles conseguem realizar seus próprios cliques, que são descritos por Rejane como os mais impressionantes. 

Vivências

Cinthya de Oliveira é uma das alunas da escola. Além de aspirante à fotógrafa nas horas vagas, a jovem de 25 anos também se dedica ao curso de psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo. 

O teatro também está entre suas vocações. Foi com ele, inclusive, que Cinthya chegou até as aulas de fotografia. Ela já atuava no Cena Diversa desde março de 2022 quando ficou sabendo do processo seletivo para o novo curso. 

“Desde criança, eu sempre gostei de ser fotografada. Pensar em fotografar mesmo foi depois de adulta. Era só uma ideia que passava pela minha cabeça, mas quando a Rejane falou, eu pensei: massa, vai ser um desafio e eu adoro desafios”, contou a jovem ao Giz Brasil.

Conheça a primeira escola de fotografia para cegos do Brasil

Foto tirada por Cinthya com auxílio dos professores do projeto. Imagem: Cinthya de Oliveira/Cia Poéticas da Cena Contemporânea/Reprodução

Mas o processo foi mais fácil do que Cinthya pensava. Hoje, ela enxerga a arte de fotografar como uma terapia. “Quando eu estou com a câmera na mão, a vontade é de não largar mais de tão bom que é clicar”, explica.

A aluna gosta, principalmente, de fotografar pessoas. Porém, ela tem planos ousados para suas próximas fotos: “Eu quero fotografar saltando de paraquedas, porque é muita adrenalina. Imagino que seriam as fotos mais bonitas”. 

Ela já teve a experiência de queda livre no ano passado, em seu aniversário. Mas agora, deseja repetir a dose com a câmera na mão.

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Exposição

As fotos da primeira turma do projeto serão apresentadas na exposição Quando fecho os olhos vejo mais perto, que acontecerá no Parque do Moscoso, em Vitória, a partir do dia 27 de maio. 

Serão expostas, no total, 32 fotos em cubos gigantes. Os cliques serão escolhidos pela curadora Bárbara Bragato. A visitação será gratuita e ficará disponível até 25 de junho.

Carolina Fioratti

Carolina Fioratti

Repórter responsável pela cobertura de saúde e ciência, com passagem pela Revista Superinteressante. Entusiasta de temas e pautas sociais, está sempre pronta para novas discussões.

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